O pôster de “Pânico 7” mostra alguém com a fantasia de Ghostface, imagem-símbolo da franquia, em meio ao fogo e emoldurado pela frase “queime tudo”. A impressão imediata pode ser de recomeço, de negação, de anti-legado. Só que o filme é inteiramente devedor da nostalgia, imaginário e influência definidos por “Pânico” desde a estreia do primeiro filme, 30 anos atrás.
Quando chegou às telas em 1996, “Pânico” foi uma reconfiguração imediata do cinema de horror feito nos EUA. A pequena produção dos estúdios Miramax, com roteiro de um desconhecido Kevin Williamson e direção do já consagrado Wes Craven, apareceu num momento de esgotamento e crise do gênero, especialmente após o boom dos filmes de matança, ou “slasher”, nos anos 1980.
À primeira vista “Pânico” pareceu incursão tardia e insistente no subgênero, mas a maquinaria espirituosa e autorreflexiva do texto de Williamson e a encenação habilidosa de Craven causaram frisson em crítica e público. O enredo reconhecia sua própria tradição, brincava com o conhecimento dos espectadores sobre outros filmes e levava para dentro da trama de jovens sendo massacrados por um assassino fantasiado a consciência de sua presença no cenário cultural. “Qual seu filme de terror preferido?”, falado pelo assassino ao telefone, era a chave do entendimento de que “Pânico” sabia o terreno por onde trafegar.
Ao presumir que os personagens conheciam as “regras” do cinema de horror, “Pânico” integrava à narrativa décadas de convenções em circulação. Não era só citação nem paródia, e sim um reposicionamento do gênero e um convite para dividir com a própria ficção todo esse fascínio.
O impacto foi tão grande, com arrecadação de US$ 173 milhões para um orçamento de US$ 15 milhões, que uma sequência foi lançada apenas um ano depois. A máscara do Ghostface virou ícone pop em fantasias, brinquedos e campanhas publicitárias, e a arquitetura narrativa de “Pânico”, com prólogos aflitivos, assassinatos brutais e reviravoltas sobre a identidade do(s) assassino(s) estabeleceu um padrão ao longo dos filmes seguintes e em sátiras ou títulos derivativos.
A consolidação da influência se deu na onda de produções similares a tomar o final da década de 1990 na tentativa de replicar o sucesso de “Pânico”. O próprio Kevin Williamson escreveu alguns deles, casos de “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado”, em 1997; “Prova Final”, de 1998; e até uma tentativa de reativação de franquia com “Halloween H20: Vinte Anos Depois”, também em 1998. Sátiras foram inevitáveis, a maior delas sendo “Todo Mundo em Pânico”, cujo primeiro estreou em 2000 e que ganha, em junho desse ano, uma sexta incursão.
A produção acelerada de “Pânico 2” reforçou a dimensão do fenômeno. A sequência ampliou a escala, repetiu a equipe e parte do elenco, introduziu novos personagens e consolidou a metalinguagem com “Facada”, o filme-dentro-do-filme que se torna essencial ao longo da franquia. Mas a continuação também criou uma maldição: o que antes surgira como original e vigoroso passou a ser um modelo replicável, com pequenas variações para manter o interesse e render novos episódios.
Em “Pânico 3”, de 2000, a trama saiu pela primeira vez da pequena cidade de Woodsboro e foi para Hollywood, na mesma indústria cinematográfica que fazia filmes como esse. É o mais subestimado e trágico de todos, por tratar de ciclos de violência, disputas de autoria, controle narrativo, abusos e traumas familiares. O jogo de convenções de antes virava reflexão sobre fabricação de mitos e exploração sistêmica para sustentas o espetáculo. Mais impactante é lembrar que um dos produtores era Harvey Weinstein num filme cujo grande propulsor dramático era o abuso sexual sofrido por uma aspirante a atriz em Los Angeles.
O desfecho da primeira trilogia de “Pânico” consolidou o que estava insinuado no original ainda propulsiona a série: a tragédia íntima de Sidney Prescott, personagem vivida por Neve Campbell em seis dos sete filmes, como base de uma mitologia em constante reencenação. A franquia sempre articulou a ironia sobre slasher ao drama familiar que se desdobra de trama em trama. O assassinato de Maureen Prescott, mãe de Sidney, é tanto evento fundador do primeiro Ghostface quanto o trauma a organizar uma grande saga genealógica.
O passado sendo referência nostálgica e algo sempre a ser reinscrito mobilizou todos os filmes a partir de “Pânico 4”, de 2011. Inclusive o quarto capítulo, último dirigido por Wes Craven, morto em 2015, já trata a trilogia inicial como algo um tanto sacralizado e internalizado tanto pelos personagens quanto pelo público. Era um movimento antecipado de filmes de legado cuja disputa de sentidos sobre as incursões originais tomaria o cinema comercial especialmente a partir de “Star Wars – O Despertar da Força”, em 2015.
Depois da morte de Craven, “Pânico” foi reconfigurado. Teve série de TV, entre 2015 e 2019, que usava apenas bases narrativas sem maiores relações com os longas-metragens, e ganhou dois filmes escritos e dirigidos pelos ascendentes Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin, em 2022 e 2023.
Essas novas incursões combinavam a ideia de recomeço, ou “reboot”, com sequências de legado e serviam ao mesmo tempo de entrada a novos espectadores e reconhecimento da importância de “Pânico” aos já iniciados. No entanto, ao retomar a estrutura básica de 1996 à luz da modernidade do século 21, os dois longas expuseram as limitações de atualizar uma obra cuja força estava precisamente na ruptura a partir da tradição. A reverência ao legado não se sustentava diante da tentativa de domesticar o cinismo e o senso trágico presentes nos anteriores.
Apesar da repercussão e algum sucesso, são filmes um tanto deslocados e excessivamente devedores à insistência no retorno de eventos fundadores. A autorreferência, se antes era ferramenta crítica, aqui se torna relação tóxica com a autonostalgia. O movimento se amplifica ainda mais em “Pânico 7”, escrito e dirigido pelo roteirista original, Kevin Williamson, que faz um redemoinho de indulgências a partir da volta de Neve Campbell ao elenco.
Em 30 anos “Pânico” permanece intacto como renovador e questionador de convenções, como instituidor de um modo de ver, pensar e sentir o horror como estruturante do imaginário de cada espectador, sempre alternando a dialética entre tradição e ruptura como tensões infindáveis.