Rupturas entre pais famosos e seus filhos estão constantemente no noticiário: rei Charles e príncipe Harry, David e Brooklyn Beckham, Anthony Hopkins e sua filha Abigail.
Mas a briga familiar envolvendo os Murdochs atingiu um patamar completamente diferente de dinheiro e poder. Em determinado momento, parecia conter o destino da democracia ocidental: Rupert Murdoch e seu filho mais velho, Lachlan, estavam comprometidos com a política de extrema direita da Fox News, enquanto James, irmão de Lachlan, começou a denunciar casos de desinformação.
No entanto, há algo novo a dizer sobre Rupert Murdoch, 94? Ele está sob os holofotes há décadas e sua vida inspirou várias produções de TV, com destaque para a série “Succession”, da HBO.
A proposta de “Bonfire of the Murdochs”, um livro conciso de Gabriel Sherman, é condensar a história à sua essência. O livro busca explicar os relacionamentos familiares rompidos de Murdoch não como um desvio da construção de seu império, mas como um produto da mesma implacabilidade que facilitou seu sucesso.
Sherman escreveu o roteiro de “O Aprendiz”, filme de 2024 que retratou os primeiros anos de Donald Trump sendo orientado pelo antiético advogado Roy Cohn. Aqui ele adota uma abordagem semelhante. Ele não se concentra no processo judicial de 2024 entre Rupert e seus filhos, onde as tensões com James chegaram ao ápice e sobre o qual mais de 3.000 páginas de documentos vazaram.
Em vez disso, ele retorna às origens de Rupert, começando por seu pai, Keith. Em poucas páginas incisivas, vamos das reportagens sensacionalistas de Keith sobre a Primeira Guerra Mundial e a campanha de Gallipoli —que seu filho disse ter “mudado a história”— ao papel da Fox News na ascensão de Trump. O resultado é um livro que resume um dos plutocratas mais importantes da nossa era.
Sherman cita inúmeros casos em que Rupert é acusado de quebrar sua palavra. Ele comprou o The Times e o The Sunday Times, prometendo independência editorial, mas Harry Evans, editor do Times, afirmou que Murdoch interferiu nos jornais. Quando o pai de Evans morreu, o editor relata que Rupert demonstrou empatia. Então, no dia seguinte ao funeral, demitiu-o.
Australiano orgulhoso, Rupert tornou-se cidadão americano para poder comprar emissoras de TV, para a surpresa da mãe do empresário. Segundo Sherman, Rupert disse a Liz, irmã de James e Lachlan, que ela seria a sucessora dele, mas a excluiu da sucessão pouco tempo depois.
Então veio a decisão que desencadeou o processo familiar: em 2023, Rupert tentou alterar um fundo familiar irrevogável, acordado durante o divórcio de sua segunda esposa, Anna, de uma forma que claramente beneficiaria Lachlan, um de seus filhos. A manobra tinha o nome orwelliano de “Projeto Harmonia Familiar”.
Muitos bilionários negligenciam seus filhos. Murdoch arrastou os seus para o negócio da família. Ele contratou o marido de sua filha Prue, contrariando a vontade dela. Adquiriu as empresas de seus filhos e os pressionou a trabalhar para ele. Liz disse que, após o escândalo de grampos telefônicos estourar nos jornais britânicos do grupo, o patriarca pediu que ela demitisse seu irmão James —”um pedido tão cruel quanto um pai poderia fazer”, escreve Sherman (embora a ideia tenha partido de Liz, atitude da qual ela veio a se arrepender profundamente). O negócio, na prática, dava a ele controle sobre seus filhos. Eles, compreensivelmente, queriam sua aprovação e atenção, e assim caíram na armadilha.
A maior parte de “Bonfire of the Murdochs” é habilmente extraída de relatos anteriores. Sherman tem algum material novo, por exemplo sobre Roger Ailes, o primeiro chefe da Fox News, de quem escreveu uma biografia.
Sherman destroça o caráter e as habilidades pessoais de Murdoch. O livro relata uma anedota familiar: “‘O papai está ficando surdo?’, James perguntou a Anna. ‘Não, ele só não está ouvindo’, ela respondeu.” Anos depois, James descreveria uma tentativa de terapia familiar como “um desastre total”. Rupert enviou um e-mail para Jerry Hall, sua quarta esposa (de cinco até agora), anunciando que queria o divórcio porque “tenho muito a fazer…” Ele enviou um bilhete escrito à mão para James durante os processos judiciais: “PS: Adoraria ver meus netos um dia”, um gesto interpretado como manipulação.
É claro que os filhos de Murdoch tinham autonomia. Eles também faziam manobras empresariais, às vezes como o pai. A oferta de James em 2010 pela emissora BSkyB tinha a intenção, segundo uma fonte ouvida por Sherman, de levantar tanta dívida corporativa que “Rupert não conseguiria comprar mais nada”. (A justificativa oficial era que a oferta aumentaria a receita de assinaturas do império.)
Talvez não seja coincidência que os Murdochs tenham acabado como os Windsor: no fim, só há espaço para um herdeiro. Uma vez que Rupert decidiu que deveria ser Lachlan, James em particular ficou sem papel.
Mesmo assim, a tentativa de Rupert de mudar o fundo familiar justificadamente revoltou James, Liz e Prue. Os lados em guerra chegaram a um acordo, com os filhos dissidentes recebendo US$ 1,1 bilhão (R$ 5,4 bi) extra cada um e Lachlan sendo consolidado como sucessor de Rupert. James não poderá liderar uma revolução na Fox News.
Sherman compara Rupert ao Rei Midas: ele “construiu uma fortuna de US$ 17 bilhões (R$ 88,7 bi), mas destruiu tudo o que amava no processo”. O patriarca provavelmente retrucaria que alguns de seus filhos são ingratos pelas riquezas que herdaram. Depois de ler este livro, tive a sensação de que eles teriam trocado o dinheiro por uma família funcional.