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Conheça La Chola Poblete, artista trans andina no Masp – 10/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A Virgem Maria, pintada com o lilás da delicadeza e espiritualidade, divide espaço com relíquias indígenas, travestis nuas que choram e bebem e seres amorfos com pênis e seios. Essas são as aquarelas grandiosas de La Chola Poblete, artista que dá continuidade à cena da arte pop na Argentina, efervescente desde os anos 1960.

Ela ganha sua primeira mostra individual no Brasil no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, que neste ano dedica seu calendário expositivo à América Latina. Em uma obra de fotografias enormes, Poblete aparece nua em meio a um açougue. Seu corpo parece mais um corte de carne à venda entre tantos outros pedaços de boi e porco, enquanto um homem branco engravatado a avalia.

O trabalho fala sobre a influência repressiva dos mórmons sobre jovens LGBTQIA+ na comunidade onde Poblete cresceu, em Guaymallén, cidade do deserto andino próxima à fronteira com o Chile. A obra também brinca com o alto preço da carne na Argentina, que vem aumentando a exportação aos Estados Unidos como parte do acordo comercial firmado entre seu presidente conservador, Javier Milei, e Donald Trump.

O comentário irônico da fotografia lembra “El Pago de la Deuda Externa Argentina con Maíz, ‘el Oro Latinoamericano'” —ou o pagamento da dívida externa argentina com milho, o ouro latino-americano— obra de Marta Minujín, pioneira da arte pop argentina nos anos 1960, em que ela entregava espigas de milho a Andy Warhol para refletir sobre a soberania de seu país frente à subserviência econômica aos Estados Unidos.

Hoje, Minujín, 83, e Poblete, 37, são amigas, como prova uma foto das duas abraçadas presente na mostra do Masp. “Ela disse que se vê em mim, e no meu trabalho a continuação do pop”, diz Poblete.

Em “Manifesto do Pop Andino”, Poblete cita referências caras à história da arte para repensar o movimento pop a partir da experiência de pessoas queer latino-americanas e de ascendência indígena, como ela própria. Encabeçado por Minujín, o movimento se tornou um importante marco para a cultura Argentina e reposicionou o país no mundo da arte, mas ainda se restringia a uma perspectiva.

“Há uma crítica no trabalho dela sobre como a narrativa hegemônica liga a identidade argentina a Buenos Aires, a uma herança europeia, sem considerar o passado indígena e negro do país”, diz Leandro Muniz, curador assistente da exposição.

Olhando para suas obras nas paredes do Masp, Poblete diz que, quando decidiu ser artista, quis se distanciar da arte conceitual, que muitas vezes exige estudo ou intimidade com a linguagem artística para ser compreendida. “Cresci em um bairro pobre e queria usar essas referências. Quero que as pessoas olhem minhas obras e reconheçam imediatamente alguma coisa nelas”, afirma.

Seu nome, “Chola”, se apropria de uma injúria racial usada para designar mulheres de ascendência indígena e em geral condicionadas a trabalhos campesinos e domésticos. Em “Il Martirio de Chola”, ela posa de perfil para um retrato, em uma posição que lembra a de indígenas pintados por artistas europeus no século 19. Usando uma roupa típica, ela questiona a presença de pessoas de ascendência indígena na história da arte, e também a reprodução de indumentárias tradicionais como mera decoração.

As provocações ao mundo da arte conversam bem com a mostra de Sandra Gamarra Heshiki, que ocupa o primeiro andar do edifício Lina com pinturas que replicam obras coloniais para lembrar que a história, como foi contada e recontada por séculos, é, afinal, uma fantasia, ou apenas uma fração da realidade.

Em contraste com as pinturas realistas de Heshiki e os símbolos coloridos da cultura de massas de Poblete, outro andar do prédio Pietro exibe os tecidos delicados de Claudia Alarcón e do coletivo Silät, formado por tecedeiras da etnia Wichí.

São tramas feitas à mão, sem o uso de um tear ou qualquer outro dispositivo, a partir de fios de chaguar, planta típica do clima semiárido do norte da Argentina. A técnica era usada para confeccionar bolsas, mas o Silät, liderado por Alarcón, decidiu usá-la também para fazer arte.

A exposição segue a abertura de museus e galerias pelo mundo à arte têxtil nos últimos anos. “As instituições estão questionando, inclusive em seus próprios acervos, as caixinhas da chamada ‘fine arts’, das belas artes, e do que é artesanato”, diz Laura Cosendey, curadora assistente da mostra. No ano passado, o Silät apresentou seus trabalhos na Bienal de Veneza com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp que também assina a mostra atual no museu.

Nas obras, desenhos geométricos são pintados sobre os fios com pigmentos naturais e anilinas —no caso de cores menos terrosas e mais vibrantes, como o rosa. Alguns são abstratos, mas outros mostram elementos da comunidade onde vivem as tecedeiras, como plantas, porteiras e trilhas abertas em meio à mata ou à areia. São percursos que carregam também uma mensagem filosófica —é preciso sempre abrir novos caminhos, diz Alarcón.

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