Investidores de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures da Raízen tentam se desfazer dos papéis após o anúncio de recuperação extrajudicial da companhia, na noite de terça-feira (10). Após a divulgação, era possível encontrar títulos à venda no mercado secundário (entre investidores) com descontos de cerca de 60%.
Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), um CRA da Raízen com vencimento em julho de 2029 a 100% do CDI estava a R$ 421,47 nesta quarta-feira (11), ante R$ 1.021,16 de seu valor de face, ou seja, seu valor nominal de emissão. Isso equivale a um desconto de 59%.
Na prática, considerando o valor a ser pago pela companhia no vencimento, o título a R$ 421,47 oferece uma rentabilidade de 490% do CDI.
Um CRA com mesmo vencimento, mas com rentabilidade a IPCA + 3,6% estava a R$ 600,40, ante R$ 1.466,40 de valor de face, ou seja, oferecia o mesmo desconto de 59%.
As debêntures (títulos de dívida) também eram ofertadas com grandes descontos. Um papel com vencimento em novembro de 2029, a IPCA + 3,54% estava a R$ 603,65, em comparação ao valor nominal de R$ 1.440,73, uma dedução de 58,10%.
Alguns investidores tentaram aproveitar a desvalorização dos papéis, se oferecendo para comprá-los a descontos ainda maiores. Era possível encontrar em corretoras ofertas de compra de um CRA com vencimento em 2029 a R$ 255,81, ou seja, a 760% do CDI.
A diferença acontece pela relação desbalanceada entre oferta e demanda. Os títulos dos quais os investidores querem se desfazer, mas sem encontrar compradores, têm um desconto em relação ao preço de emissão inicial, feito pela empresa no passado.
Isso significa que, para o investidor que adquire o título por um preço mais baixo no mercado secundário, o retorno se torna maior. A rentabilidade prometida pela Raízen permanece a mesma, então, se a companhia pagar o prometido, o ganho do investidor que comprou o título com desconto cresce.
Na última sexta (6), o desconto em alguns títulos era ainda maior. Um CRA com vencimento em 2029 estava a R$ 393,69, um deságio de 61,5%.
Isso acontece no caso da Raízen porque investidores temiam uma recuperação judicial, processo que tende a ser mais lento. Além disso, há títulos com mais garantias, como alienação fiduciária, o que os deixa mais atrativos em relação aos demais.
“O anúncio da recuperação extrajudicial é mais interessante que a alternativa e pode até fazer o preço do ativo se recuperar”, diz Michael Viriato, sócio da Casa do Investidor e colunista da Folha.
O desconto dos títulos vem desde o início do ano, com rumores de que a empresa poderia entrar em recuperação. Há um mês, o deságio dos CRAs era de 35% e passou a cerca de 50%.
A fuga dos títulos de dívida da companhia vem do receio de não receber o pagamento devido, já que a empresa passa por dificuldade financeira.
“O cenário costuma envolver alongamento de prazos, possível redução de juros e, em alguns casos, conversão em participação acionária”, diz Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos.
O aumento da oferta dos papéis no mercado secundário, e a consequente desvalorização dos papéis, acaba afetando também fundos de investimento que investem nesses CRAs, gerando um impacto negativo aos cotistas.
“Os fundos que carregam esses ativos tendem a apresentar desempenho abaixo da média do mercado ou até abaixo de seus benchmarks, em comparação com pares que não possuem esses papéis problemáticos”, afirma Guilherme Almeida, diretor de renda fixa da Suno Research.
“Se houver muitos resgates simultâneos por parte dos cotistas, os gestores podem ser obrigados a vender outros ativos da carteira —inclusive papéis de boa qualidade— a preços mais baixos para honrar esses resgates”, completa.
Dessa forma, o impacto da reestruturação extrajudicial da Raízen no mercado financeiro brasileiro pode ser significativo. Quando a Americanas entrou em recuperação judicial, a desvalorização de suas debêntures acabou derrubando o mercado de crédito privado como um todo, já que investidores pediam um retorno maior por esses títulos, dado o aumento de percepção de risco.
“Um segundo impacto possível é o movimento conhecido como ‘fuga para a qualidade’, como já ocorreu em outros episódios, como no caso do Banco Master. Investidores que estejam posicionados em ativos de maior risco tendem a resgatar recursos desses papéis e migrar para crédito de melhor qualidade. Em alguns casos, há também migração para títulos públicos”, afirma Almeida.
Caso esse efeito venha a se concretizar, a emissão de crédito privado tende a encarecer no país, apesar da tendência de queda da Selic. Para o investidor, o retorno aumentaria.
“O investidor pessoa física leva susto e associa esses episódios ao instrumento em si. Só que o problema não é o CRA, ou as debêntures, e sim o risco de crédito da empresa. Por isso, é importante que fique claro quais os riscos e garantias de cada emissão na hora da compra”, diz Felipe Rogado, diretor da securitizadora, gestora e administradora de fundos Vert Capital.
“Nesse contexto de maior aversão a risco, companhias que já vinham discutindo a necessidade de reestruturação ou que operavam com níveis mais elevados de alavancagem e margens mais comprimidas acabam sendo pressionadas, justamente porque o sentimento de risco fica mais latente”, diz Rafael Sueishi, diretor de renda fixa da Manchester Investimentos.
Outro ponto que gera preocupação no mercado é o fato de os CRAs da Raízen terem sido bem avaliados pelas agências de classificação de risco, com notas máximas de rating até o início deste ano.
Segundo Pedro Galdi, analista da plataforma de investimentos AGF, se outras empresas também entrarem com pedido de recuperação, como fizeram Raízen e GPA (Grupo Pão de Açúcar), mais caras devem ficar as emissões de dívida pela seletividade do mercado.
“Isto implica a obrigação dos investidores em terem maior seletividade e exigência de maiores taxas de retorno em relação ao risco, com o foco na estrutura de capital das empresas emissoras de títulos de dívida. Este movimento pode inibir o volume de novas emissões de dívida em operações tradicionais e reduzir liquidez neste mercado”, diz Galdi.
Por enquanto, segundo especialistas, não houve impacto no mercado secundário de crédito privado de outros emissores.