Em “Devoradores de Estrelas”, Ryan Gosling divide a tela com um alienígena adorável e agitado chamado Rocky, por causa de seu corpo rochoso. A personalidade nervosa de Rocky é uma de suas características mais encantadoras, mas foi inicialmente baseada em um erro do marionetista principal e dublador, James Ortiz.
Depois de ler o romance de Andy Weir no qual o filme é baseado, Ortiz pensou que o tempo no planeta de Rocky, Erid, passa mais rápido do que o tempo na Terra.
“Como ator, pensei: ‘Meu Deus, que informação incrível, esse é o metrônomo interno dele, é o coração dele, sua energia de beija-flor'”, disse Ortiz em uma entrevista por vídeo. Ele filmou por meses com esse conceito em mente. Só depois Ortiz ouviu Weir no set dizendo que um segundo eridiano é, na verdade, 2,5 segundos mais lento que um segundo terrestre. Ortiz deve ter lido errado.
“Em algum momento, eu disse: ‘Bom, Andy, ele só vai ser ansioso, tá?'”
A ansiedade de Rocky se mostrou bastante cativante. Gosling pode ser a atração de celebridade de “Devoradores de Estrelas”, que arrecadou mais de US$ 80 milhões (cerca de R$ 400 milhões) em seu primeiro fim de semana de lançamento, mas Rocky é sua estrela inesperada.
No filme, Ryland Grace (Gosling), um professor de ciências perdido no espaço tentando descobrir por que o sol da Terra está escurecendo, encontra Rocky, outro viajante solitário. Ele rapidamente percebe que o alienígena tem o mesmo objetivo: salvar seu planeta do micróbio que está destruindo sua estrela.
No livro, a pele de Rocky é “rocha marrom-escura”. Ele tem aproximadamente o tamanho de um labrador, com cinco pernas e uma carapaça que é “mais ou menos um pentágono”. Ele não tem rosto. Na tela, ele é absolutamente fofo e ganha vida através de uma combinação de marionetes e efeitos visuais.
“No final do filme, quando estávamos assistindo às sequências, todos nós dissemos a mesma coisa: ‘Não consigo lembrar se isso é marionete ou CGI'”, disse o supervisor de produção de efeitos visuais Paul Lambert. “Foi um testemunho dos dois mundos se unindo.”
Os diretores, Phil Lord e Christopher Miller, foram categóricos em ter uma versão física de Rocky, manipulada por um performer, no set, permitindo que Gosling improvisasse com uma criatura física e as câmeras capturassem algo que realmente estava ali. Ao projetá-lo, Lord e Miller tentaram seguir o texto de Weir o mais fielmente possível, com algumas adições criativas.
Eles deram a Rocky versões eridianas de tatuagens esculpidas em seu corpo, imaginando significados específicos para cada uma. Uma é um brasão de família, outra é como uma aliança de casamento e uma terceira é uma régua porque ele é engenheiro.
“Pensamos: ‘Vamos dar ao público o máximo de ajuda para imaginar uma pessoa nesse rosto de pedra, mais ou menos como você olha para o que era o Homem da Montanha [formação rochosa em New Hampshire que se assemelhava a um rosto] antes de desmoronar'”, disse Lord. “Você conseguia imaginar um rosto ali. Ficávamos dizendo: ‘Este lado é o lado rabugento, este é o lado aberto.'”
Os diretores, conhecidos por seu trabalho em filmes de animação como “Uma Aventura Lego” (2014), fizeram o que Lord chamou de “rascunhos de galinha” que entregavam ao supervisor criativo de efeitos de criaturas Neal Scanlan, um veterano de “Star Wars” que ganhou um Oscar por seu trabalho em “Babe, o Porquinho Atrapalhado” (1995).
A partir daí, Scanlan e sua equipe de artistas conceituais testaram várias versões de Rocky. Quando o designer Stefano Cordoli construiu um Rocky de isopor com base em suas conversas no final de uma tarde, Scanlan percebeu que tinham encontrado o que funcionaria.
“Você respondia a ele emocionalmente como faz com algo que você realmente ama em um animal”, disse Scanlan.
Mas antes mesmo de o boneco de Rocky estar pronto, Lord e Miller começaram a contratar um marionetista para Rocky. Eles submeteram performers a audições extensas para descobrir quem seria o melhor parceiro de cena para Gosling. Esse acabou sendo Ortiz, um vencedor do Prêmio Obie que projetou a vaca Milky White para a recente remontagem da Broadway de “Into the Woods”.
“Ele tinha essa química incrível com Ryan na leitura e tinha essa confiança para deixar Ryan na defensiva”, disse Miller. “Dava para ver que ele era Rocky desde o início.”
Ortiz havia construído uma versão pequena de Rocky para o processo de audição e, uma vez contratado, Scanlan o convidou para colaborar no design final. Ortiz disse que Scanlan lhe disse: “Pense assim, vou tratá-lo como se você fosse Frank Oz, mas nosso trabalho é fazer o Yoda para você.”
Durante as filmagens, Ortiz tinha uma equipe de marionetistas, que ele chamava de Rocketeers, que ficavam de prontidão para ajudá-lo com as pernas de Rocky. Ortiz sempre ficava no comando do corpo principal de Rocky. “Basicamente estou quase abraçando ele contra meu peito”, disse Ortiz. O cenário da nave de Grace, a Hail Mary, tinha buracos no chão para que os marionetistas pudessem se esconder. A equipe de Scanlan também construiu um Rocky animatrônico que foi usado durante toda a produção.
Ortiz instruiu sua equipe a evitar fazer Rocky se mover demais como uma aranha ou um caranguejo de uma forma que parecesse muito “assustadora”. Lord e Miller não queriam que Rocky parecesse muito “bruxesco”, como uma escultura de Louise Bourgeois ganhando vida. Em vez disso, Ortiz se inspirou em vídeos do TikTok de filhotes de coruja.
“Esse tipo de movimento de pássaro do rosto se tornou a linguagem para comunicar os sentimentos dele”, disse Ortiz.
Mesmo quando uma tomada exigia que Rocky fosse inteiramente animado digitalmente, Ortiz estava lá para moldar a performance. Por exemplo, quando Rocky rola em uma bola transparente para se proteger da atmosfera da nave de Grace, Ortiz dizia suas falas enquanto empurrava uma bola vazia como se estivesse dirigindo um cortador de grama.
Quando chegou a hora de animar Rocky, a tarefa coube principalmente a Arslan Elver da empresa de efeitos Framestore, responsável pelo Rocket Raccoon em “Guardiões da Galáxia”. Miller disse que Elver “também era como o espírito de Rocky”.
“Uma coisa que notamos muito rapidamente é que a emoção dele vem através do movimento”, disse Elver sobre sua musa sem rosto.