Em nota técnica que justificou medidas para aumentar a oferta de combustíveis no país, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) diz que o mercado brasileiro passa hoje por “situação excepcional de risco”.
O cenário é fruto, principalmente, da retração das importações após o início da guerra no Irã, que jogou pressão sobre os estoques existentes no país e sobre a Petrobras, principal fornecedora do mercado interno.
Nos primeiros 17 dias de março, diz a agência, o volume de combustíveis importado caiu quase 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Brasil depende de importações para abastecer cerca de 30% do consumo de diesel e cerca de 10% do consumo de gasolina.
“O aumento do preço internacional, associado ao risco logístico na região do golfo, reduziu a competitividade econômica do diesel importado e deslocou maior pressão de demanda para o produto nacional”, diz o texto.
Com menor importação, empresas que tinham estoques de produtos passaram a perceber grande elevação nos pedidos de postos que dependiam de combustível importado.
Essas empresas decidiram privilegiar seus clientes com contratos estabelecidos, gerando percepção de falta de combustíveis em algumas regiões. A escassez levou também a aumento de preços dos produtos, mesmo antes de reajuste da Petrobras.
A Petrobras, por sua vez, já vinha adotando uma estratégia de reduzir aprovações de pedidos de distribuidoras, direcionando diesel e gasolina importados para leilões com preços maiores, o que teve impacto nos estoques do setor privado.
Os dados da ANP apontam que, no primeiro trimestre, a estatal aprovou volumes menores de gasolina e diesel em relação ao mesmo período do ano anterior. A exceção é o diesel S-10, que teve volume maior durante os três primeiros meses do ano.
A ANP destaca, porém, que os volumes que não foram vendidos em contratos passaram a ser oferecidos ao mercado em leilões. A estratégia tem impacto sobre o preço final do produto, mas não necessariamente sobre a oferta.
Nesta semana, a estatal cancelou leilões de gasolina e diesel para entrega em abril, o que levou distribuidoras a enviar cartas ao governo alertando para o risco de falta de produtos.
Para a ANP, o mercado passa por um momento de desequilíbrio de estoques, com pouco volume na ponta (distribuidoras e postos) e maiores volumes com produtores. “A Petrobras manteve estoques acima do estoque regulatório ao mesmo tempo em que praticamente todos os grandes clientes demandavam volume adicional”, diz a nota técnica.
Nesta quinta-feira (20), a ANP determinou que a Petrobras realize os leilões e implementou medidas de monitoramento do abastecimento, solicitando de grandes empresas do setor informações sobre estoques e programação de importações.
Autorizou ainda o uso de estoques regulatórios que estão em mãos de refinarias e distribuidoras para suprir o mercado.
Para distribuidoras e importadores privados, porém, a normalização do abastecimento depende de aproximação entre os preços internos e as cotações internacionais, hoje inflacionadas pelo conflito no Oriente Médio.
O preço do diesel nas refinarias da Petrobras custa hoje R$ 2,68 por litro a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). O valor é muito maior do que a subvenção de R$ 0,32 por litro criada pelo governo para compensar prejuízos com a importação.
A Petrobras disse em nota na quinta que “continua entregando ao mercado todo o volume de combustíveis produzidos em suas refinarias, que estão operando em carga máxima” e que tem fornecido volumes “cerca de 15% superiores aos montantes acordados no início do mês”.