Dieudonné Niangouna decidiu apostar na arte após ser confrontado pela violência. Em 1997, o Congo vivia uma guerra civil iniciada depois que grupos rebeldes tentaram derrubar o regime autoritário de Mobutu Sese Seko.
Em meio aos bombardeios, Dieudonné decidiu contrariar uma determinação que proibia peças teatrais no país e criou a companhia Les Bruits de la Rue —algo como “os barulhos da rua”, em português.
“Não há razão maior para fazer teatro do que se encontrar em um lugar ou em um momento da história onde essa arte se torna problemática, complicada ou até proibida”, diz Dieudonné. “Todo teatro é resistência diante das violências do mundo ou de si mesmo. Por isso, criei a Les Bruits de la Rue sob as bombas no Congo.”
Essa dramaturgia da resistência estará em cartaz entre sexta-feira (13 ) e domingo (15), quando o congolês apresentará a peça “Do Lado de Cá” na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp. O espetáculo nasceu a partir da experiência de Dieudonné enquanto alguém que precisou deixar a sua terra natal por motivos políticos.
Em 2015, ele foi condenado à morte após ter criticado as eleições fraudulentas do Congo, motivo pelo qual se refugiou na França. Espelhando essa realidade, “Do Lado de Cá” tem como fio condutor a vida de Dido, um ator que precisou fugir de seu país após bombas explodirem durante uma de suas apresentações teatrais.
Considerado um inimigo público, ele vive exilado na Europa, onde é atormentado por traumas, culpas e memórias. Embora reflita parte da experiência de Dieudonné como exilado político, o espetáculo não tem natureza autobiográfica.
“Trata-se, na verdade, de uma obra de ficção realista”, afirma o encenador. “O que diz o personagem que interpreto em ‘Do Lado de Cá’ não é próprio da minha vida, mas sim meu olhar sobre o mundo em um período da história dita por meio de um personagem ficcional.”
A peça entra em cartaz no Brasil em um momento em que debates em torno da imigração estão na ordem do dia. Isso porque o governo de Donald Trump promove uma política anti-imigração que tem provocado protestos nos Estados Unidos.
“Fui motivado a fazer esse espetáculo por causa da ascensão dos extremismos, do ódio disseminado contra a imigração e por causa da censura contra artistas que não abraçam ideias hegemônicas”, diz Dieudonné.
O congolês é um dos mais respeitados diretores em atividade do teatro francófono. Em 2021, recebeu um prêmio da Académie Française, autoridade máxima da língua francesa, pelo conjunto de sua obra. Embora seu trabalho seja conhecido pela verve política, essa produção foge do tom panfletário.
“É político fazer teatro nas circunstâncias em que cresci. Assim como é eminentemente político fazer teatro em 2026”, diz ele. “Mas isso não é um posicionamento político, muito menos um engajamento político. É um engajamento artístico de natureza teatral.”
Dieudonné é conhecido também por ter criado o método “big! boom! bah!” —uma alusão ao barulho de bombas e granadas explodindo. Essa técnica consiste em um jogo cênico que começa calmo e vai se intensificando até detonar cenas de grande intensidade dramática.
“Essa é a resposta poética do teatro às violências perpetradas durante os períodos de guerra no Congo. A poesia deve ter um outro olhar que não seja aquele influenciado pelas violências do mundo”, diz o diretor. “É um teatro que se modifica a golpes de explosões poéticas.”
Para o artista, a dramaturgia é um espaço de comunhão em que ele compartilha com o espectador temas que considera urgentes. “Atuar é se posicionar diante da curiosidade do espectador. É pela palavra que me aproximo do público. Eu trabalho essa palavra para que ela seja de essência poética e política.”
Essa comunhão com o público, aliás, já salvou sua vida de forma literal. Durante a guerra civil congolesa, Dieudonné foi feito refém por uma milícia durante um ano e meio. Após esse período, os carrascos decidiram executá-lo. Um dos milicianos, porém, lembrou ter visto o artista em cena durante uma peça. Sensibilizado, decidiu poupar a vida do dramaturgo.
“O teatro salva todo mundo desde os primórdios dos tempos, a começar por aqueles que não sabem disso”, diz Dieudonné. “Essa é justamente uma das forças do teatro — reviver a vida e afastar toda forma de morte.”