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Disco ‘Bully’ de Kanye West não ajuda no perdão ao rapper – 08/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“Adeus ao meu antigo eu/ Acorde para o novo eu/ Eu costumava aparecer no Worldstar/ E agora estou na Newsweek”, Kanye West canta em “Father”, a principal música de seu novo disco, “Bully”, uma parceria com Travis Scott. O verso resume bem as intenções do rapper com o álbum —voltar a figurar nos cadernos de cultura, não só nos de fofoca.

Isso porque, pelo menos de uns dez anos para cá, o artista vem empilhando declarações polêmicas que foram escalando até o ponto da exaltação a Adolf Hitler e venda de itens com suásticas. Neste ano, ele pediu desculpas, e agora tenta conseguir, se não um descancelamento irrestrito, pelo menos uma trégua, e sua música volte a ser ouvida, debatida e tocada nos palcos mundo afora.

Até “The Life of Pablo”, de 2016, ouvir um disco de Kanye West era sempre inesperado —cada música poderia apresentar uma sonoridade totalmente nova, e uma canção podia dar um cavalo de pau em direções improváveis. Agora, com “Bully”, o rapper conduz o ouvinte para um passeio tranquilo por ruas conhecidas, as mesmas que ele atravessou para trilhar seu caminho como um dos maiores e mais influentes músicos deste século.

Significa que Ye, como o artista é chamado, resgata um pouco de vários elementos que já foram importantes em sua obra. O tato para encontrar samples e a maestria em os manipular, as rimas que vão da franqueza à egotrip, as batidas épicas que nunca se prenderam a um gênero, as referências a Deus e à espiritualidade, a sofrência em AutoTune —de certa forma, está tudo lá.

Acontece que, nesse passeio nostálgico, nem Ye nem as ruas a que ele nos leva são mais as mesmas. A sensação é que onde havia árvores coloridas hoje há apenas concreto. Os antigos vizinhos já não moram mais ali e o melhor restaurante da região agora é alguma franquia de fast-food. Sobraram as lembranças —e mesmo elas deixam um retrogosto.

Ver Kanye West reciclar a própria genialidade é um lembrete tanto da grandeza de sua ascensão artística quanto da altura de sua queda, como se quantificasse o talento que vem sendo desperdiçado nos últimos anos. Será, afinal, que Ye algum dia vai voltar a fazer algo com aquele nível de inventividade?

O artista viu sua popularidade e sua imagem pública caírem em desgraça conforme tentava se manter provocador em seus discos mais recentes. Os volumes de “Vultures” e “Donda”, junto aos últimos singles, são menos do que bagunçados e pouquíssimo inspirados; eles derivam do mesmo discurso que levou o rapper ao cancelamento. Se para Ye o jeito de ser provocador em 2026 é propagar fascismo recreativamente, é melhor mesmo buscar refúgio num passado seguro.

O Ye de “Bully” decidiu parar de arriscar para tentar fazer as pessoas lembrarem por que gostavam tanto dele antes de soltarem sua mão. Seus antigos parceiros, como Pusha T e Jay-Z, não estão mais com ele, mas há gente disposta a ajudá-lo. São os casos de Travis Scott, pupilo de Ye, CeeLo Green e Lauryn Hill, voz sampleada na clássica “All Falls Down” que cantou no show do rapper para 68 mil pessoas em Los Angeles, na quinta passada.

Eles dão um verniz de chancela à tentativa de retorno de Ye, marcada por pedidos de desculpas aos judeus que envolveram um texto publicado como anúncio no Wall Street Journal e um encontro filmado com um rabino. Ele atribuiu parte do descontrole a uma perda de contato com a realidade por causa dos problemas psicológicos que enfrenta.

No que seria uma nova descoberta, o rapper afirmou que o famoso acidente de carro de 2002 teria deixado lesões em seu cérebro que não haviam sido diagnosticadas na época. Ye, na época um produtor de rap em busca de uma carreira solo, adormeceu ao volante voltando de um estúdio na Califórnia, esmagou a mandíbula e foi submetido a uma cirurgia de reconstrução que fixou sua boca com fios. Esse processo foi registrado de maneira magistral em “Through the Wire”, um de seus primeiros hits.

“Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo, tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me afastei do meu verdadeiro eu”, ele disse na carta de desculpas.

Sem levar em conta as partes em que ele se diz arrependido e diz que vai mudar, potencialmente parte da estratégia de lançar “Bully” e voltar à relevância, as palavras de Ye casam com o que os fãs acompanharam ao longo dos anos.

Essa desconexão crescente com a realidade, o afastamento dos amigos, a paranoia, as declarações absurdas e até os sintomas de transtorno bipolar, tudo isso foi bastante público —o documentário “Jeen-yuhs”, que o rapper tentou proibir de entrar na Netflix, é o melhor retrato disso tudo.

O ano de 2018 foi marcante nessa trajetória. No álbum “Ye”, o rapper rima de maneira sinistra sobre a bipolaridade, dizendo que “esse é meu superpoder, não é nenhuma deficiência”. Em “Kids See Ghosts”, ele e Kid Cudi criaram uma obra-prima sombria que nasce da dor. Foi também o mesmo ano em que Ye passou a apoiar Donald Trump, num processo que o levaria a lançar uma candidatura própria à presidência dos Estados Unidos, a perder diversos contratos com marcas e, por fim, ao delírio nazista.

A verdade é que Ye sempre foi polêmico, mas também sempre soube usar a persona pública para promover sua obra, muitas vezes entrelaçando esse personagem em suas próprias letras e videoclipes. De certa forma, a construção de sua carreira foi um grande grito por atenção, que acabava correspondido por um novo grande disco. Mesmo quem não gostava se sentia atraído a saber por onde andava a mente tão perturbada quanto criativa desse gênio torto de Chicago.

Ouvir “Bully” é, ao mesmo tempo, lembrar dessa magia e constatar que ela se esgotou. Com exceção dos fãs que ficaram —e, no bom português, bateram palma para maluco dançar, incentivando e acentuando a desconexão do rapper com a realidade—, ninguém parece muito interessado em receber Ye de volta de braços abertos.

Assim como não conseguiu se apresentar em São Paulo no ano passado, após um veto da prefeitura da cidade, nesta semana foi o governo do Reino Unido quem bloqueou a permissão de entrada do rapper no país para shows no Wireless Festival, em Londres. A própria imprensa americana não vem cobrindo seus últimos discos com o mesmo interesse de um passado não tão distante.

Um texto do escritor Ta-Nehisi Coates chamado “I’m not black, I’m Kanye” —ou “não sou negro, sou Kanye”, referência à famosa frase de O.J. Simpson—, publicado na revista The Atlantic em 2018, fazia um bom diagnóstico desse processo vivido por Ye. Ele falava da busca do rapper por ser um homem negro livre, capaz de fazer o que bem entendesse.

Para Coates, no entanto, tratava-se de liberdade branca —em suas palavras, um tipo de liberdade “sem consequência”, “sem crítica”, “sem responsabilidade”, liberdade “do petróleo e das guerras invisíveis”, liberdade para ser “orgulhoso e ignorante”, para o “estupro” e para “lucrar com o povo num momento e abandoná-lo no momento seguinte”, entre outras coisas. Enfim, ele escreve, uma liberdade desconectada de seu eu.

Esse caminho de liberdade desconexa acabou levando Ye para uma prisão, a mesma da qual ele agora tenta sair. “Bully”, como trilha sonora desse movimento, soa como os pedidos de desculpas do rapper —insuficientes.

Será preciso mais que um disco emulando seus sons familiares, shows em estádios americanos e uma carta publicada num jornal para desfazer o sentimento de decepção que o artista alimentou ao longo de anos.

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