A abertura em cortes rápidos de “Por Dentro da Machosfera”, novo documentário do jornalista britânico Louis Theroux para a Netflix, funciona como um aviso: o que vem a seguir não é exceção. É método.
Em sequência, desfilam vídeos de influencers da tal “machosfera“, um ecossistema de perfis, podcasts e programas que vendem uma masculinidade baseada em força, riqueza e submissão feminina, embalada como se fosse um forma de resistência a um suposto “sistema” que lhes empurra subempregos e igualdade de gênero goela abaixo. Eles têm milhões de seguidores.
“São homens contra mulheres”, diz um. “Somos a última barreira”, convoca outro. Em um vídeo, um terceiro aconselha punir a parceira que desobedece. Em outro, adolescentes cercam um influencer na rua, gritam “mulher é lixo” e “todo gay tem que morrer” enquanto posam para selfies. O influencer ri, entre o constrangimento e o orgulho.
Theroux é um especialista em acessar universos fechados —de supremacistas brancos a clínicas psiquiátricas– nos quais também mantém um método: curiosidade, humor seco e uma presença que desarma e que o celebrizou como heróis contemporaneo do jornalismo gonzo.
No filme, ele acompanha quatro nomes da “machosfera” anglófona. Um deles, o britânico Harrison Sullivan, exibe luxo, malhação e mulheres objeto, em geral seminuas. Ele admite que este tipo de conteúdo serve para capturar atenção e monetizar a audiência.
A engrenagem aparece com nitidez. O empresário Justin Waller, ligado aos irmãos Andrew e Tristan Tate, acusados de violência sexual e de tráfico de mulheres na Romênia, promove uma “universidade” chamada O Mundo Real, que ensina “homens a serem homens”.
A referência à teoria red pill é direta: uma metáfora do filme “Matrix” em que a pílula vermelha promove o despertar de um sistema que oprime o poder e a força masculinos enquanto favorece as mulheres e dar a volta por cima.
No centro desta narrativa está a promessa de uma hierarquia de gênero restaurada: homens mandam, mulheres obedecem. O podcaster Amrou Fudl, que atua sob o nome Myron Gaines, afirma que mulheres “nascem com valor” (que ele resume assim: “vocês nasceram com peitos e vaginas”) e homens precisam construí-lo —argumento que oferece sentido pronto para homens ressentidos com suas frustrações afetivas e profissionais. Em seus vídeos, ele também defende que o homem decide quando e como terá sexo, independentemente da vontade da parceira, numa espécie de pregação do estupro para ampla audiência.
Theroux vai além da superfície misógina e encontra um pacote maior: teorias conspiratórias que envolvem de alienígenas a judeus, e trajetórias marcadas, em alguns casos, pela ausência de referências masculinas próximas. Mas o documentário evita explicações fáceis. O que emerge é menos um desvio individual e mais um mecanismo digital de recompensa do discurso extremo com visibilidade e dinheiro.
No fim, o que aqueles cortes iniciais já anunciavam se confirma: não se trata apenas de vídeos virais ou bravatas online. É um vocabulário que organiza relações, molda expectativas e legitima uma violência que extrapola o ambiente digital para fazer vítimas também no mundo analógico. Um idioma em que a ideia do que é “ser homem” precisa incluir até a forma como se vai ao banheiro, como declara um dos entrevistados: “Louis Theroux é tão woke que a esposa obriga ele a mijar sentado (risos).”