O dólar abriu em alta firme nesta terça-feira (3), em linha com o fortalecimento da moeda norte-americana ante a maioria das demais divisas no exterior em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio.
No campo doméstico, os agentes avaliam os dados do PIB (Produto Interno Bruto) do quarto trimestre divulgados há pouco pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O indicador desacelerou e fechou 2025 com alta de 2,3%, menor taxa em 5 anos, segundo o instituto.
Às 9h13, o dólar subia 1,45%, aos R$ 5,240. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda frente a outros seis pares fortes, subia 0,58% no mesmo horário.
O conflito entre EUA, Israel e Irã continua impactando os mercados. Os preços do petróleo dispararam nesta terça-feira (3) em meio à guerra no Irã e após o anúncio do fechamento do estreito de Hormuz para navegação. Às 8h45 desta terça (3), o preço do barril do Brent, referência global da commodity, era negociado acima de US$ 84,31, numa alta diária de 8%.
Na Europa, as Bolsas registravam queda. O índice EuroSTOXX caía 3,27%, em movimento similar ao de Frankfurt (-3,46%), Londres (-2,60%) e Paris (-2,79%) às 09h30.
Os analistas reagem ao temor de interrrupção do fluxo de petróleo no mundo. Na terça, a Guarda Revolucionária do Irã ameaçou incendiar qualquer navio que tentar passar pelo trecho que separa o país persa da península Arábica. A decisão ameaça parar de vez o fluxo de petroleiros e embarcações que transportam por lá 20% do óleo e do gás natural liquefeito consumidos diariamente pelo mundo.
Na véspera (2), o mercado já havia reagido ao conflito. O dólar fechou em alta de 0,60%, cotado a R$ 5,164, após atingir alta de 1,59%, na máxima de R$ 5,215 do pregão. Ao longo da tarde, porém, perdeu força e reduziu os ganhos.
A Bolsa brasileira, por sua vez, encerrou o dia em alta de 0,27%, aos 189.307 pontos. O movimento foi impulsionado pela valorização do petróleo, que chegou a avançar 10,15% nesta segunda-feira e favoreceu empresas brasileiras do setor.
O destaque do pregão ficou para as ações da Petrobras. Durante o dia, os papéis preferenciais da estatal —que dão prioridade no recebimento de dividendos, mas não conferem direito a voto— tiveram alta de até 5,59%.
O movimento também beneficiou o setor de maneira geral. As ações da PRIO e da Brava Energia, outras petroleiras brasileiras, chegaram a avançar 6,68% e 4,98%, respectivamente, nas máximas do pregão.
“A redução do tráfego de embarcações, o aumento dos custos de seguro e o maior risco de navegação estão comprimindo a oferta disponível no curto prazo e incorporando um prêmio geopolítico ao Brent. A duração do conflito será determinante para a magnitude dos efeitos”, afirma relatório do banco BTG Pactual, divulgado nesta segunda.
Nesta segunda, o comandante da Guarda Revolucionária do Irã disse que o estreito de Hormuz está fechado e que o Irã incendiará qualquer navio que tentar passar, informou a mídia iraniana.
O conflito escalou no último sábado (28). Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã de surpresa, em uma ação mirando a cúpula do governo e das Forças Armadas do país persa.
Os bombardeiros mataram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e o ex-presidente do país Mahmoud Ahmadinejad no último sábado (28), além de deixarem centenas de mortos em outros pontos do país.
Em resposta, o regime islâmico atacou portos, bases dos EUA e outros locais nos Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Omã e Kuwait.
Nesta segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, estimou que a guerra no Irã pode durar entre quatro e cinco semanas, mas afirmou que o país tem capacidade para “ir muito além disso”.
Segundo Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, a declaração de Donald Trump gerou uma melhora parcial nos mercados. “Embora tenha afirmado que a guerra durará o tempo que for necessário, o mercado tende a interpretar qualquer sinalização de prazo como uma tentativa de delimitar o cenário de incerteza”.
Lucca Bezon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, destaca que a maior parte das moedas de economias emergentes têm se desvalorizado no pregão frente ao dólar. “Reflete um ambiente de maior aversão ao risco, e ativos de risco tendem a ser prejudicados diante da incerteza. Ao mesmo tempo, vemos uma alta do dólar e do ouro, que historicamente são buscados em momentos de incerteza”, afirma.
Para Rodrigo Moliterno head de renda variável da Veedha Investimentos, o ponto central é o petróleo, especialmente se o estreito de Hormuz, importante via de escoamento da commodity, for fechado por muito tempo.
“Caso haja confirmação de fechamento por um período mais prolongado, o petróleo pode chegar a níveis próximos de US$ 100. Vale lembrar que o petróleo tem peso significativo nos índices de inflação. Aproximadamente 20% da produção global passa por essa rota, e o impacto se daria principalmente via preços”, afirma.
O conflito também atingiu os preços de commodities. O barril do tipo Brent, referência mundial do preço de petróleo, atingiu um pico de 13% na abertura do mercado internacional neste domingo (1º), cotado a US$ 81,89. Nesta segunda, o Brent chegou a custar US$ 80,27, uma alta de 10,15%.
A cotação do domingo foi o maior valor do petróleo durante a sessão desde 22 de junho de 2025, quando o preço chegou a US$ 81,40. Na ocasião, o aumento também foi causado pelo mesmo confronto, pois foi o dia em que os EUA entraram diretamente no conflito entre Irã e Israel.
O barril do petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, também subiu desde domingo, chegando a saltar a US$ 74,99 (R$ 385,03), alta superior a 12%. Nesta segunda, a commodity chegou a US$ 73,37, alta de 9,47%.
O aumento está relacionado às preocupações dos investidores com as restrições de tráfego no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e que é em grande parte controlado pelos iranianos.
Os riscos para a navegação comercial dispararam nas 24 horas após os ataques. Mais de 200 navios —incluindo petroleiros e embarcações de gás natural liquefeito— se ancoraram nas imediações do estreito de Hormuz e em águas próximas, segundo dados de tráfego marítimo.
“A alta do petróleo, do gás e de outras commodities reflete o receio de interrupções no fornecimento global de energia diante das tensões envolvendo o estreito de Hormuz”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
No Brasil, o governo avalia os ganhos e os riscos que a alta do petróleo pode trazer ao país em meio à crise no Oriente Médio.
Por um lado, o Brasil pode se beneficiar por ser um grande exportador de petróleo bruto. Há perspectiva de impacto positivo sobre o PIB e de melhora nos déficits fiscal. Por outro, o país importa derivados refinados —como gasolina, diesel e querosene de aviação— e a elevação dos preços internacionais pode pressionar o mercado interno.
Lilian Linhares, sócia e head da Rio Negro Family Office, afirma que há potencial inflacionário. “Se o conflito pressionar de forma consistente o preço do Brent, isso pode gerar impacto direto sobre combustíveis e transporte e indireto sobre a inflação de serviços e bens industriais.”
No Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central do Brasil, a expectativa para a inflação ao fim de 2026 foi mantida em 3,91%. O levantamento, porém, não considerou eventuais impactos do conflito no Oriente Médio, já que foi fechado na sexta-feira (27).
A meta perseguida pelo Banco Central para a inflação é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% (piso) e 4,5% (teto).