“DTF St. Louis” é uma minissérie sobre crime. Mas, ao longo dos sete episódios desse drama com doses de humor ácido que estreou na HBO neste mês, o que menos importa é o crime.
E não é que se trate de um detalhe: logo no primeiro episódio, um dos três personagens centrais morre em circunstâncias insólitas, e os outros dois se tornam suspeitos imediatos. Daí em diante, a polícia revirará a vida dessas pessoas, o que garante um roteiro com a fórmula de depoimentos e memórias.
Se o formato é convencional, os personagens não são. O que o roteirista e criador Steve Conrad faz é muito mais um estudo sobre a meia idade e suas frustrações, solidões, desejos, ambições e recalques.
Do começo: Floyd (David Harbour) trabalha como tradutor para a linguagem de sinais, tem um casamento amornado e um relacionamento difícil com o enteado. Tem, também, muitos boletos não pagos, paixão por hip-hop e um sobrepeso que o deprime. É Floyd quem vemos morto no primeiro episódio.
Os suspeitos são Carol (Linda Cardellini), sua mulher, e Clark (Jason Bateman), seu melhor amigo. Os dois têm um caso, embora Clark, homem do tempo em uma emissora local, demonstre muito mais amor por seu amigo e colega de trabalho, e Carol não sinta impulso de terminar o casamento, mesmo que isso signifique uma vida norteada pelas dívidas do marido e nenhuma bonança no horizonte.
É a relação entre os três personagens que interessa a Conrad, o autor, e é nas trocas frequentes de confissões entre eles que a série constrói seu retrato melancólico e cheio de matizes da meia-idade. O “DTF St. Louis” do título é um aplicativo para encontros sexuais entre pessoas casadas que Clark apresenta a Floyd. (DTF é “down to fuck”, algo como “somente trepar”, e Saint Louis é onde a trama transcorre.)
Em outras palavras, tudo na história é medíocre ou mediano: a meia-idade, a classe média, a cidade nem grande nem pequena no miolo do país, as ambições modestas e os empregos burocráticos, os problemas comuns, as rotinas banais.
Conrad, que tem no currículo títulos como “Patriota” e “Extraordinário”, faz dessa falta de pulsação um tratado, tirando do eixo apenas a relação entre os protagonistas.Esse interesse quase obsessivo sobre as coisas pequenas da vida e as atuações pungentes dão cor a um roteiro que, de outra forma, passaria batido.
Harbour, recém-saído de “Stranger Things”, está excelente na pele de um personagem doce e vulnerável, o oposto do Hopper que carregou por cinco anos no megasucesso adolescente. Mesmo ele não sendo o primeiro sujeito de mais de 1,90 e sobrepeso visível escalado para encarnar fragilidade, é difícil lembrar de alguém, nos anos recentes, que o tenha feito com maior naturalidade.
Bateman, que desde “Ozark” se consagrou como um produtor de ótimas escolhas, também foge de seu personagem habitual com uma atuação sóbria e nuances delicadas. E Cardellini, que já vivera uma esposa frustrada e adúltera em “Mad Men”, transpira tensão como alguém a minutos de surtar.
Richard Jenkins (“Olive Kitteridge”) e Joy Sunday (“Wandinha”) completam o elenco, que conta ainda com uma bonita participação especial de Peter Sarsgaard.
Ainda faltam três capítulos irem ao ar nos próximos domingos. Para não perder.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.