E agora? Se eu gostasse do espectáculo do Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, eu seria um daqueles fanáticos que sofrem de “Trump derangement syndrome”, a doença que o próprio presidente dos Estados Unidos descobriu, e que serve para designar todos os que ousam pensar que ele não é infalível.
Mas, se eu não gostasse do espectáculo do Bad Bunny no intervalo da Super Bowl, então eu seria um desses fanáticos que consideram Trump o novo messias. Que fique registrado, eu não vi o show.
Há algumas semanas eu já tinha tido um dissabor com um par de chinelos que nunca tinham me deixado ficar mal, mas de repente descobriu-se que não gostavam do Bolsonaro, acho eu. Estou disposto a conformar-me a este novo modelo: antes de saber se gosto de um artista, primeiro vou saber o que é que ele acha sobre o Trump. E só depois decido.
Claro que este método tem um pequeno problema. Até aqui, eu estava convencido de que gostava do Caravaggio. Ora, infelizmente, não temos meios de saber qual era a sua opinião sobre a invasão da Groenlândia e a anexação do Canadá. Que fazer?
É difícil saber. Ao que parece, o Bad Bunny não aprecia o Trump –o que é, evidentemente, lamentável. No entanto, algumas pessoas que apreciam Trump apelaram à deportação do Bad Bunny. Sucede que o Bad Bunny é cidadão americano. Apelar, por patriotismo, à deportação de um cidadão americano, parece antipatriótico.
Uma das principais críticas destes americanos puros foi a seguinte: o Bad Bunny cantou em espanhol. Imagino que seja um ultraje, para os americanos que vivem, por exemplo, em Los Angeles, Las Vegas, San Francisco, San Diego, Santa Fe, El Paso, Sacramento, Albuquerque, Santa Cruz, ou na Flórida, no Nevada e no Montana, de repente verem-se confrontados com aquela língua estranhíssima.
Por outro lado, fui ver o espectáculo alternativo, chamado All-American Halftime Show, produzido por uma organização de direita para rivalizar com o intervalo da Super Bowl. Imaginem o meu choque quando descubro que o Kid Rock também não estava a cantar em inglês. Por uma razão, que é: não estava a cantar de todo. Quando ele não tinha o microfone perto da boca a música continuava.
Resolvi ter sobre o assunto uma posição imparcial e equilibrada: como espectáculo musical, não gostei muito; como momento de ilusionismo, adorei.
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