Na astronomia, a estrela negra é uma hipótese teórica para o que hoje se convencionou chamar de buraco negro —esse fenômeno ainda rodeado de mistérios. Um pouco como a morte.
Não por acaso, o fenômeno foi escolhido por David Bowie para batizar o seu último álbum, “Blackstar“, lançado dois dias antes de sua morte por um câncer, em 2016. Com ele, o artista, um dos maiores astros da música de todos os tempos, cantava a finitude da vida.
Agora, dez anos depois do disco derradeiro, o documentário “Bowie: O Ato Final” reconstrói o caminho até a criação do álbum, debruçando-se sobre as décadas menos prestigiadas da carreira do britânico, a partir de 1987 —sem deixar de retomar brevemente as fases mais emblemáticas, como a de Ziggy Stardust, nos anos 1970. O filme estreia no Brasil no Festival É Tudo Verdade, com abertura nesta quarta-feira (8).
Quando começou a gravar “Blackstar”, Bowie já sabia de sua doença, e que provavelmente não sobreviveria. O documentário tem depoimentos de profissionais que trabalharam com o cantor no disco, muitos deles presentes também durante boa parte de sua trajetória, como o produtor Tony Visconti.
Antes de ressurgir e depois sumir para sempre em 2016, Bowie estava desde 2003 distante de palcos e estúdios, dedicado à vida familiar ao lado de sua mulher, a modelo Iman Mohamed Abdulmajid, e de sua filha, Alexandria Zahra Jones. A reclusão teve uma pausa em 2013, com o lançamento do álbum “The Next Day”, mas sem apresentações.
Para além de “Blackstar”, “Bowie: O Ato Final”, dirigido por Jonathan Stiasny, destrincha a crise existencial na qual Bowie mergulhou após o sucesso pop de “Let’s Dance”, de 1983, quando decidiu se afastar da alcunha de superstar mundial.
No documentário, pessoas próximas dele na época analisam a fase num momento em que Bowie questionava se ainda era capaz de criar algo musicalmente relevante. “Ele queria ser mais do que um popstar. Ele queria ser um artista”, diz, em certo ponto, Dana Gillespie, compositora e sua amiga de longa data.
Aqueles, afinal, eram anos conturbados. O neoliberalismo se consolidava no Ocidente com Ronald Reagan e Margaret Thatcher, a China vivia os protestos por democracia na Praça da Paz Celestial e o Muro de Berlim enfim ruiu, anunciando que o período da Guerra Fria chegava ao fim. Parecia errado, para um artista de seu calibre, ignorar os novos ventos.
Ele se tornou artista na efervescente Londres dos anos 1960, década dos Beatles e de jovens que não queriam mais pertencer a um mundo velho esculpido pela guerra. A música, com seus instrumentos elétricos e letras despojadas, era quase como um manifesto de rebeldia.
Entre as inovações sonoras estava o mellotron, uma espécie de teclado com várias modalidades que foi, em suma, o primeiro sampleador. Foi com ele que o pianista Rick Wakeman fez o início de “Space Oddity”, como ele mesmo conta no filme.
Bowie se tornou a voz afiada de uma nova geração. “Changes”, por exemplo, tocada pela primeira vez ao nascer do Sol de um Festival Glastonbury, um dos mais renomados do Reino Unido, repleto de hippies, anunciava a possibilidade da mudança. Imagens raras de arquivo do evento compõem “Bowie: O Ato Final”. O músico acenava para os deslocados. “Time may change me, but I can’t trace time”, algo como o tempo pode me mudar, mas eu não consigo contar o tempo, cantava ele.
Quando ficava confortável demais ao tocar alguma música, porém, ele a rejeitava, ávido para retomar a experimentação.
Ziggy Stardust, persona andrógina e extraterrestre que criou para os álbuns “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” e “Aladdin Sane”, foi abandonado de forma súbita ainda no palco, no fim de um show em 1973, depois de inflar uma geração para que questionasse padrões de gênero.
“O filme reconhece a mitologia pública de Bowie —o ícone ‘de outro mundo’— ao longo de toda a narrativa, sem abandonar a exploração do ser humano por trás do mito”, diz Stiasn, o diretor.
Era o momento de uma nova fase, a de “Young Americans”, voltada à música soul americana. “Eu descreveria ele como uma criança que tem um quarto cheio de coisas para brincar, e se enjoa de tudo muito rápido”, diz, no filme, Earl Slick, guitarrista responsável pelos acordes daquele álbum e de “Diamond Dogs”, lançado um ano antes, em que Bowie cantava a sua versão de um mundo pós-apocalíptico.
Foi com um impulso parecido que o camaleão do rock fundou, em 1989, a banda Tin Machine. A guinada, dessa vez, não foi bem recebida pela crítica e pelo público. O documentário conta que Bowie chegou a chorar ao ler um texto atacando a produção da banda no jornal.
Tin Machine acabou em 1992, e no resto da década, ele se dedicou à experimentação, interessado pela música eletrônica. Dessa época surgiram álbuns menos conhecidos, mas musicalmente interessantes, como “Outside”, “Hours…” e “Buddha of Suburbia” —um fracasso de vendas depois considerado um dos melhores álbuns da década pela crítica inglesa.
“Eu queria ser músico porque parecia subversivo, poderia afetar a mudança. Hoje a internet carrega a bandeira para ser revolucionário” disse, um pouco profético, Bowie em uma entrevista no final dos anos 1990, presente no documentário, sobre o impacto bom e ruim, mas inevitável, que a internet teria na sociedade.
Em uma edição do É Tudo Verdade com longas e curtas-metragens recheados de imagens de arquivo para reconstruir memórias perdidas, seja de acontecimentos políticos quanto de pessoas públicas, a fala de Bowie ecoa um mundo que tenta entender sua identidade em meio ao avanço da inteligência artificial.
“É fundamental entender a origem das imagens hoje, em que temos narrativas forjadas”, diz Amir Labaki, fundador do festival, sobre a enxurrada de vídeos e fotos irreais replicadas nas redes sociais hoje. Segundo ele, a quantidade de mergulhos em arquivos está relacionada a uma tentativa de assegurar a origem das imagens —e, consequentemente, das narrativas.
Além da reconstrução dos anos pouco repercutidos da carreira de Bowie, o festival apresentará “Vivo 76”, um retrato de como o álbum “Vivo!”, de Alceu Valença, um marco da psicodelia brasileira e da resistência à ditadura militar, foi concebido. Na mesma toada, a competição nacional de longas tem “Apocalipse Segundo Baby”, que revisita a vida da cantora Baby do Brasil.
Na disputa internacional concorrem os longas “Diciembre”, de Lucas Gallo, que reconta a crise argentina de 2001, e “Atlas de la Desaparición”, de Manuel Correa, uma investigação forense sobre as vítimas do franquismo na Espanha. Também usando arquivos inéditos mas voltado para o presente, “Shooting”, de Netalie Braun, mostra a ligação entre a indústria cinematográfica israelense e o aparato de segurança do país.