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Economia brasileira atravessa momento paradoxal – 14/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

A economia brasileira atravessa um momento que desafia os manuais clássicos. Após um longo ciclo de aperto monetário, com a taxa Selic atingindo 15% ao ano em 2025, o país experimenta um fenômeno inusitado: juros ainda altos, desemprego em queda e o mercado acionário renovando recordes históricos.

O que antes pareceria um contrassenso, dado que juros elevados tendem a esfriar a economia, agora se apresenta como um novo paradigma em construção, no qual política fiscal, transformações tecnológicas e expectativas globais redefinem a sensibilidade da economia à taxa básica de juros.

O aumento da taxa de juros cumpriu seu papel tradicional de conter a inflação, mas trouxe efeitos colaterais severos. O crédito às empresas vem mostrando desaceleração contínua desde 2023, após o ciclo de expansão que marcou a retomada pós-pandemia.

Segundo o Banco Central, o crescimento do crédito corporativo tem perdido fôlego, refletindo o encarecimento do capital e a maior seletividade das instituições financeiras. Nos balanços dos grandes bancos, observa-se um reforço das provisões para devedores duvidosos (PDD), sinalizando um ambiente de risco crescente e uma postura mais cautelosa diante do aumento de dificuldades financeiras entre companhias endividadas.

Esse movimento traduz o que o mercado vem chamando de “crédito defensivo”: concessões mais restritas, prazos mais curtos e custos mais elevados. Em consequência, empresas que se alavancaram durante o período de juros baixos na época, com juros pós-fixados indexados à Selic, enfrentam agora um ciclo de oferta mais escassa e deterioração de margens, levando muitas a reestruturar dívidas ou até recorrer à recuperação judicial.

O que por sua vez contribui para um, já em expansão no país, mercado de direitos creditórios. Os FIDCs, veículos de securitização que transformam recebíveis em cotas para investidores, têm sua dinâmica influenciada pela conjuntura macroeconômica, especialmente pelo nível da taxa básica de juros da economia e condições de crédito.

Apesar desse quadro de aperto creditício e falências crescentes, o mercado de trabalho continua resiliente. A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,6% no início de 2026, o menor nível desde o início da série da IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012. Essa aparente contradição tem intrigado economistas, já que autoridades monetárias interpretam a dinâmica do mercado de trabalho como um dos principais termômetros para decidir pela elevação das taxas de juros, a fim de desacelerar a demanda agregada, suavizar a pressão salarial e ancorar expectativas de inflação.

Economistas, como Paul Krugman (2023) e Joseph Stiglitz (2024), apontam que gastos públicos sustentados e transferências sociais têm funcionado como um amortecedor do desemprego em vários países, inclusive no Brasil.

Essa visão contrasta com a ortodoxia de que o ajuste monetário deveria provocar desaquecimento rápido. Já Claudio Borio (BIS, 2023) argumenta que as transformações tecnológicas e financeiras alteraram a natureza da relação entre crédito, investimento e inflação, criando o que ele chama de um “novo fundamento monetário”.

O desempenho do mercado financeiro reforça o paradoxo. O Ibovespa atingiu 191 mil pontos em fevereiro de 2026, renovando seu recorde histórico e consolidando um rali que reflete um conjunto mais amplo de forças do que o simples efeito da política monetária.

O avanço não foi sustentado apenas por lucros bancários, mas também pela valorização das ações de empresas ligadas a commodities, tecnologia e consumo interno, que se beneficiaram da melhora, ainda que marginal, nas perspectivas fiscais e do fluxo de capitais estrangeiros em busca de mercados emergentes com fundamentos sólidos.

Com juros elevados, estabilidade institucional, baixo crescimento global como um todo seguido de inflação em algumas partes do mundo, o Brasil voltou a atrair investidores internacionais. O resultado é um mercado acionário que, paradoxalmente, prospera em meio ao aperto monetário, um reflexo de uma economia que se mostra mais complexa e menos previsível do que os modelos clássicos sugerem.

Uma mudança que pode ser notada e ser a responsável/catalisadora disso é a IA e sua incorporação nos modelos tradicionais macroeconômicos. O choque eleva o produto potencial, reduz o custo marginal e permite uma combinação de maior produto com menor inflação de modo geral.

Após um longo e intenso ciclo de aperto monetário, com a Selic alcançando 15% ao ano em 2025, seria esperado observar uma economia em desaceleração mais pronunciada. No entanto, o Brasil atravessa um momento singular: mesmo com juros ainda elevados, a taxa de desemprego segue em trajetória de queda e o Ibovespa renova máximas históricas.

A combinação de política monetária restritiva, mercado de trabalho resiliente e bolsa em alta sugere uma dinâmica mais complexa, marcada por expectativas favoráveis, reancoragem de confiança e recomposição de fundamentos, evidenciando um descolamento entre teoria e realidade que redefine a leitura conjuntural do país.

Se o presente é de aparente estabilidade, o futuro carrega sinais de preocupação. O mundo opera sob baixo crescimento e altos níveis de endividamento público e privado. Segundo o World Economic Outlook 2024 do FMI (Fundo Monetário Internacional), a dívida global ultrapassa 336% do PIB mundial, e o crescimento esperado para as economias avançadas não passa de 1,4% ao ano. Em países emergentes, como o Brasil, o desafio fiscal torna-se ainda mais complexo, pois governos mantêm programas de transferência e subsídios para sustentar o consumo e manter a economia aquecida, mas adiam o enfrentamento de déficits estruturais.

Esse adiamento tem também uma natureza política. Em tempos de polarização e eleições, nenhum governo quer pagar o preço da impopularidade de um ajuste fiscal rigoroso. Assim, a consolidação das contas públicas é constantemente empurrada para o futuro, um futuro que se aproxima com juros altos, crescimento modesto e uma dívida que segue aumentando.

Como observou Kenneth Rogoff (2023), “a nova normalidade não é de inflação descontrolada, mas de governos excessivamente endividados tentando equilibrar populismo e credibilidade fiscal”. Essa tensão permanente entre responsabilidade fiscal e preservação política é, talvez, o verdadeiro campo de batalha da macroeconomia contemporânea.

A elevação persistente das taxas de juros, quando acionada como instrumento de política monetária contracionista, tende a comprimir a demanda agregada e a deslocar o produto efetivo para abaixo de seu nível potencial, configurando o hiato do produto. Simultaneamente, esse mesmo patamar elevado de juros intensifica a atratividade do retorno financeiro e expande a disposição dos agentes em ofertar capital, aprofundando o mercado de crédito e de capitais sob a ótica do custo de oportunidade.

Entretanto, como já advertia Friedman ao afirmar que “there is no free lunch” (não existe almoço grátis), a elevação da remuneração do capital não pode ser dissociada da ampliação dos riscos inerentes, pois taxas de juros mais altas incorporam prêmios adicionais para compensar incertezas de modo que a expansão da oferta de recursos em ambientes de juros elevados ocorre sempre com a percepção de risco crescente que torna tais retornos não apenas mais atrativos, mas também mais exigentes quanto à solidez do ambiente econômico em questão.

Em última instância, o Brasil e o mundo parecem experimentar um novo regime monetário, ainda em formação, no qual as ferramentas tradicionais (juros, câmbio, gasto público) não produzem mais os efeitos exatamente esperados como já apontavam muitos economistas. Resta saber se esse aparente equilíbrio é o prelúdio de uma nova era de estabilidade ou apenas o silêncio que antecede mais um ciclo de turbulência econômica.

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