Home » Édouard Louis sobe ao palco para curar relação com o pai – 10/03/2026 – Ilustrada

Édouard Louis sobe ao palco para curar relação com o pai – 10/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O escritor Édouard Louis ficou impressionado ao ver a montagem de “História da Violência”, adaptação para os palcos do livro homônimo que ele lançou em 2016. Pouco tempo depois, o artista foi surpreendido por uma ligação.

Era Thomas Ostermeier, diretor do espetáculo, pedindo o seu aval para adaptar um outro livro. “Como ele tinha feito algo tão incrível com ‘História da Violência’, falei que poderia fazer o que quisesse”, diz Louis. O diretor, porém, decidiu ser mais ousado. “Ele perguntou se eu gostaria de atuar no espetáculo também.” Depois de alguma resistência, o escritor acabou sendo convencido a trocar brevemente as letras pelos palcos.

O resultado dessa mudança de ofício poderá ser visto no Sesc Pinheiros, na capital paulista, entre quarta-feira (11) e sexta-feira (13), quando ele subirá ao palco para encenar o monólogo “Quem Matou Meu Pai”, um dos destaques da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp.

No espetáculo, ele narra a relação conflituosa com seu pai —uma figura autoritária, preconceituosa e repressora. Apesar disso, a produção não o retrata como um monstro, mas sim como alguém que se embruteceu em razão da desigualdade socioeconômica. É como se Louis tentasse exorcizar traumas de infância sobre o palco, humanizando alguém que de certa forma assombrou a sua juventude.

A despeito desse contexto hostil, o escritor diz que a violência o salvou, já que precisou se reinventar para fugir da opressão.

“A violência me empurrou a questionar a realidade ao meu redor, porque ela me pôs à margem. Como eu era marginalizado, podia ver o mundo de fora”, diz ele, acrescentando que algo parecido aconteceu com sua mãe.

Ela decidiu se separar e mudar de vida após anos de violência doméstica, experiência que o escritor relatou no livro “Monique se Liberta”. “Não me entenda mal. Muitas vezes a dominação te destrói. Mas, em algumas ocasiões, há uma inversão de forças.”

Ele encontrou uma outra forma de se salvar por meio da encenação. Ao longo dos anos, abandonou o jovem de sotaque interiorano que se vestia como um rapper para dar vida a uma outra versão de si mesmo. Louis mudou o modo de falar, de gesticular e de se vestir. Mudou até mesmo o próprio nome, deixando para trás Eddy Bellegueule para se tornar Édouard Louis —pseudônimo aristocrático alinhado ao seu desejo por ascensão social.

“Em algum momento da minha vida, eu não tive escolha senão me tornar outra pessoa, porque eu odiava meu passado e a minha infância na pobreza e na violência. Eu tive de fugir disso tudo”, diz o escritor. “Não era uma questão de escolha. O meu próprio passado estava dizendo que eu precisava escapar.”

Essa disposição para se tornar outra pessoa veio a calhar quando o escritor recebeu o convite para subir no palco como ator.

“Foi ótimo dirigi-lo, porque ele é tudo o que um ator precisa ser, isto é, sensível, frágil e está pronto para se abrir no palco”, diz Thomas Ostermeier, o diretor da peça. “Prefiro pessoas talentosas que não têm formação a pessoas com formação que não têm talento.”

Ostermeier convidou o escritor após ter dificuldade para escalar um ator que conseguisse transmitir a história com propriedade. “Foi um desafio encontrar um artista que tivesse a credibilidade de alguém da classe trabalhadora e da comunidade LGBTQIA+. Então, decidi perguntar se Édouard toparia participar do projeto.”

O encenador decidiu adaptar o livro em razão do modo como o escritor usou a literatura para redimir e até mesmo perdoar o próprio pai. “Embora tenha sido alguém terrível, Edouard entende que esse homem é o resultado da violência social.”

O pai do escritor começou a trabalhar ainda cedo em uma fábrica, onde teve as costas esmagadas por um maquinário. Em razão do acidente, precisou se aposentar de forma precoce. A situação física e financeira dele se deteriorou após decisões políticas dificultarem o acesso à assistência social. Por isso, foi obrigado a trabalhar como gari apesar de sentir dores lancinantes.

Em dos momentos de maior voltagem política do texto, Louis acusa nominalmente lideranças como Nicolas Sarkozy e Emmanuel Macron pela derrocada de seu pai em razão dos cortes de recursos na área social.

“Não estou sonhando que podemos mudar o mundo com nosso teatro, mas podemos tentar dar voz a pessoas que não têm voz na sociedade e jogar luz sobre essas questões”, diz Ostermeier. “A peça é a nossa pequena contribuição para o que está acontecendo no mundo.”

Autor Original

You may also like

Leave a Comment