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Eduardo de Almeida propôs uma arquitetura cordial – 13/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Elegância, clareza e rigor têm sido as expressões mais usadas para caracterizar a obra de Eduardo de Almeida, grande arquiteto de São Paulo e importante professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, morto neste domingo (12), aos 92 anos.

Discreto, sempre buscou aquilo que chamava de uma “arquitetura imperceptível”, feita de sensações agradáveis, que não pretendesse transformar ou agredir o usuário, mas possibilitar a ele uma convivência cordial no espaço.

Daí seu empenhado esforço no desenvolvimento de detalhes que fizessem desaparecer tudo aquilo que pudesse ser excessivo ou ornamental, resultando em soluções brilhantes como as portas de vidro sem esquadrias de muitas de suas casas.

Filho do advogado e poeta Tácito de Almeida, membro do grupo da Semana de 22 e da revista Klaxon, trouxe erudição e cosmopolitismo para o ambiente da arquitetura em São Paulo, combinando a sofisticação do design com a espacialidade exigente da chamada Escola Paulista.

Embora contemporâneo de Paulo Mendes da Rocha, Abrahão Sanovicz e Joaquim Guedes, Almeida nunca aderiu inteiramente ao brutalismo do concreto superexposto ou ao protagonismo plástico das estruturas, e sim, muito mais, à pureza das alvenarias límpidas, com espaços e ambientes modulados pela unidade mínima do bloco de construção.

Nesse sentido, esteve muito ligado ao perfeccionismo compositivo de figuras que pensaram o projeto como articulação de componentes e sistemas construtivos em São Paulo, nos anos 1950 e 1960, tais como Oswaldo Bratke e os arquitetos-designers do Estúdio Branco & Preto.

Almeida se tornou reconhecido por um conjunto notável de prédios e residências que viraram referências na história da nossa arquitetura, tais como o edifício modular Gemini, de 1970, e as casas Sigrist, de 1973, e Define, de 1975, além da casa que construiu para si mesmo no Jardim Guedala.

Lá, criou, em 1977, uma ambiência radicalmente monocromática em cinza, dada pela combinação entre a estrutura de concreto aparente e a alvenaria de bloco, usada para paredes e pisos.

Mas também realizou importantes projetos de indústrias e, mais tardiamente, um edifício público de grande relevância, a sede da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e do Instituto de Estudos Brasileiros no campus da USP, em parceria com Rodrigo Loeb.

O projeto prima pela elegância de proporções, generosidade espacial e apuro nos detalhamentos, não apenas dos espaços e elementos estruturais, mas também do mobiliário. Implantado em uma encosta, o edifício acerta, através de rampas, os dois níveis de acesso situados em cotas distintas, criando uma circulação principal em nível intermediário.

Fluido e contínuo, o prédio destaca os seus elementos programáticos —auditório, biblioteca, escritórios— por meio de geometrias nítidas, tais como cilindros e prismas. Ali, a austeridade da combinação entre concreto armado, aço e vidro convém à imagem da instituição. Ao mesmo tempo, o edifício abre generosamente seus espaços amplos e transparentes para o público, convidando-o a entrar e percorrê-los livremente.

É possível enxergar nessa obra um desenvolvimento inteligente das lições presentes na arquitetura da Escola Paulista, tais como o uso do concreto aparente, as rampas, os pés-direitos variados e a grande integração espacial dada por uma cobertura única, como se vê no prédio da FAU-USP projetado por Vilanova Artigas.

Ao mesmo tempo, também é possível identificar nesse projeto uma leitura acurada de exemplos lapidares da arquitetura americana, com destaque para as obras de Louis Kahn e Gordon Bunshaft. Pode-se dizer que, no projeto desse edifício, Almeida e Loeb realizaram uma fina leitura da biblioteca de livros raros e manuscritos Beinecke, em New Haven, na qual o despojamento e a austeridade espacial não impedem que os livros sejam tratados com um halo de sacralidade.

E se a amplidão dispersiva e algo rural do campus da USP dificulta o estabelecimento de uma sociabilidade mais intensa na cidade universitária, a Biblioteca Brasiliana consegue criar uma centralidade verdadeiramente urbana e agregadora, favorecendo a permanência das pessoas no lugar.

Em 2013, a biblioteca foi premiada como melhor obra do ano pelo júri de Arquitetura da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. No ano seguinte, Almeida foi homenageado com um filme-documentário sobre sua trajetória, “Arquiteto da Medida Justa”, de Thomas Piper. Nesse período, alguns livros foram lançados sobre sua obra.

Modesto, o arquiteto nunca fez autopropaganda e sempre confessou suas fraquezas e dúvidas. Para os jovens estudantes que aprenderam muito com ele, transmitiu inteligência e sinceridade como valores acessíveis, ao contrário de uma genialidade mistificada. Coerentemente, sua obra construída representa um ethos de civilidade exemplar, cada vez mais raro nos dias de hoje.

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