O Censo Escolar 2025 trouxe uma boa notícia: o Brasil segue avançando na expansão das matrículas em tempo integral. Hoje, 25,8% das matrículas das escolas públicas estão nessa modalidade, frente aos 22,9% do último levantamento. No ensino fundamental 2 —etapa em que o tempo integral faz ainda mais diferença— o crescimento foi tímido, mas ainda registrado: chegamos a 23,7%, ante os 20,9% de 2024.
Mas por que o tempo integral nos anos finais é especialmente importante? A adolescência é reconhecida como uma segunda “Era da Oportunidade”, marcada por um pico de mudanças cerebrais. Trata-se da última grande janela de desenvolvimento cognitivo: aprender nessa etapa fortalece a capacidade de aprender ao longo da vida. Ao mesmo tempo, é nesse período que se concentram os maiores riscos de evasão e defasagens acumuladas. De acordo com dados do Saeb de 2023, apenas 36% dos estudantes de escolas públicas nos anos finais possuem aprendizagem adequada em língua portuguesa. Em matemática, o número chega a 16%.
Mais tempo na escola, nesse contexto, significa fortalecer vínculos com professores, ampliar repertórios culturais, recompor e consolidar aprendizagens e reforçar o pertencimento. Educação em tempo integral não é apenas ampliação da jornada. É uma estratégia de permanência e de construção de futuros, desde que o tempo adicional seja estruturado para garantir o direito de aprender, o protagonismo juvenil e o acesso ao esporte, à cultura e a experiências formativas de qualidade.
A expansão do tempo integral é uma poderosa ferramenta de redução de desigualdades. Mas expansão sem direcionamento pode produzir o efeito oposto. Sem definição de onde e como ampliar a oferta, a política pode beneficiar primeiro os territórios mais estruturados, deixando de lado os estudantes que mais dependem da escola como espaço de proteção e oportunidade.
E priorizar os estudantes que mais precisam é urgente. Os dados divulgados nesta quinta revelam um desafio persistente: nos anos finais, a distorção idade-série atinge 9,2% dos estudantes brancos e 17,7% dos estudantes negros. Essa diferença expressa desigualdades estruturais que moldam trajetórias escolares e exigem políticas orientadas pela equidade.
Embora a declaração racial tenha avançado neste censo, 13,6% dos estudantes ainda não tiveram sua raça identificada. São os dados desagregados que oferecem as condições necessárias para direcionar recursos e políticas, como a de tempo integral, por exemplo.
Transformar a expansão do tempo integral em melhoria real de resultados exige, portanto, intencionalidade: priorizar territórios vulneráveis, proteger o orçamento educacional, investir na formação de professores e acompanhar permanência e aprendizagem. O Brasil já demonstrou que coordenação federativa e uso consistente de evidências geram avanços. O desafio agora é garantir que os anos finais deixem de ser o ponto de maior desigualdade do sistema e se tornem um segmento de efetivo desenvolvimento integral, pertencimento e oportunidades.