O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a não dizer coisa com coisa na semana passada. Disse que novos costumes e tecnologias (celular, Pix, acesso a cartão de crédito) facilitam despesas, que acabam por levar o salário inteiro (e as bets?). Contou que sabe disso porque “tem mulher” e “tem filha”. Sem dinheiro por causa de maus hábitos, o povo fica “zangado”, mas “xinga” o governo.
Sem gastar nada, a direita ganhou “cortes”, trechinhos de vídeos, para usar na campanha. O eleitor vai ficar mais “zangado” quando souber que Lula o culpa pela dureza.
O governo diz que vai baixar medidas a fim de atenuar o efeito dos juros altos. Não vai nem conseguir tapar o sol com a peneira. Considere-se o que vem pela frente.
A votação de Flávio Bolsonaro empatou com a de Lula. Mas Bolsonaro filho ainda não apareceu como candidato nem passou pelo tiroteio de campanha. Talvez o lembrete da ficha corrida dele e da família ou marquetagem inconvincente o derrubem. Ou pode ser que ultrapasse Lula, tire votos dos demais candidatos e vença no primeiro turno. É jogo a ser jogado e que depende, em parte, do que Lula e cia. dirão. Afora a tolice, o governo não sabe o que dizer ao povo, até porque está envelhecido e Lula impediu desde os anos 1990 o surgimento de lideranças e ideias novas. O que dizer? Eis a questão.
Juros continuarão altos por mais tempo, na melhor das hipóteses, por causa da guerra. A melhora das condições financeiras, que durou de agosto a fevereiro, virou fumaça. A inadimplência deve baixar devagar, talvez com ajuda de renegociações de dívidas em bancos.
A inflação depende da guerra. Está até em nível baixo, para padrão brasileiro, mas é difícil que caia de modo notável neste ano, a não ser com arrocho de juro real e PIB menor. O aumento anual do preço de alimentos está em zero, mas o nível de preços de comida está alto —uma subidinha, irrita. Se o dólar ficar comportado, menos prejuízo. Dólar em alta é carestia de comida na veia.
Há cada vez mais gente empregada; o salário médio real cresce a mais de 5% de ao ano. Mas esse avanço grande não melhorou o humor popular; neste ano, o progresso tende a zero, pois a economia desaquece. O efeito dos planos socioeconômicos ainda pode aparecer (IR, gás etc.). O problema é que, em pesquisas qualitativas (de político, banco), o povo diz que Lula não fez mais do que a obrigação ao adotar tais medidas.
Quanto a combustíveis e outros produtos que podem encarecer por causa da guerra, o governo pouco poderá fazer, de resto com subsídio ou mandando a Petrobras engolir o prejuízo. Mas, quanto mais doideira econômica, mais risco de dólar mais alto.
Haverá muito escândalo político (Master, emendas, INSS). No INSS, o governo deixou tudo explodir, por grossa incompetência e descaso (roubança, fila enorme). Sim, tem Lulinha, que pode ter feito nada, mas costuma andar com más companhias. Quanto a Master e emendas, deve aparecer mais gente do centrão direitão envolvida até o pescoço. Mas a direita consegue colar o caso no governo; o povo acha que corrupção é “coisa do governo”, do “sistema”. A fim de remediar o problema, esquerda e governo teriam de saber lidar com as redes. Não sabem.
O governismo fala com o país de 2010, ignora a mutação patente desde 2013, esnoba centristas genuínos e quer fazer remendo socioeconômico no que não tem conserto no curto prazo. Precisa mudar inteiramente de conversa.
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