“Todo mundo reclamou muito. Teve um que chegou com listinha de pontos de reclamação.” Nos dias seguintes à estreia da série “O Testamento – O Segredo de Anita Harley”, na Globoplay desde a segunda-feira da semana passada (23/2), a diretora Camila Appel recebeu telefonemas de todos os protagonistas entrevistados para o documentário.
Ligaram para reclamar. E também para elogiar. “Reclamaram, reclamaram, mas ao mesmo tempo que reclamaram deram parabéns. Eu acho que em algum lugar eles entenderam que era uma série de boa qualidade. Identificaram uma qualidade. “A preocupação deles era se eu daria mais tempo para um lado do que para o outro”, conta ela.
A reação contraditória era previsível. “O Testamento” fala de uma complexa disputa pela herança dos fundadores das centenárias Casas Pernambucanas, uma das maiores lojas de varejo do país. E apresenta um conflito que se arrasta há anos e em que cada personagem sustenta uma versão diferente dos fatos.
A série reconstrói a disputa em torno da empresária pernambucana Anita Harley, principal acionista da rede varejista, que sofreu um AVC em novembro de 2016, aos 69. Ela permanece em coma no hospital Sírio-Libanês desde então. A partir desse incidente, instalou-se uma longa batalha judicial envolvendo curadores, familiares e pessoas próximas.
Mais do que isso: duas das envolvidas clamam ser a verdadeira e única esposa de Anita e o filho de uma delas diz que a herdeira era sua mãe socioafetiva.
Desde a estreia, a série, codirigida por Dudu Levy, aparece como o conteúdo mais visto da plataforma de streaming, desbancando a atual novela das nove Três Graças e o famigerado BBB.
Dividida em cinco episódios de cerca de 45 minutos, a produção organiza documentos, depoimentos e episódios de ações que se estendem há quase dez anos. O roteiro é de Appel, Ricardo Calil e Iuri Barcelos.
Sem poder falar por si, Anita Harley passa a existir na narrativa por meio das versões de outras pessoas — funcionários, advogados e possíveis companheiras de vida.
A multiplicidade de relatos sustenta o suspense da série, mas é a dimensão econômica que ajuda a explicar o tamanho da disputa. A fortuna associada à empresária é frequentemente estimada em mais de R$ 1 bilhão.
Segundo a apuração do núcleo de documentários da Globo, ela teria 51% das Pernambucanas quando entrou em coma. Hoje, a diretora Camila Appel estima que a fatia esteja em 17% ou 19%.
E esse é o segredo de Anita Harley, levantado no título da minissérie? “O segredo é quem ela amava e quem ela queria que estivesse cuidando dela”, diz Appel, que além de documentarista é jornalista. Há dez anos ela assina na Folha a coluna Morte sem Tabu.
Mesmo após cinco anos investigando o caso, a diretora não arrisca uma resposta à primeira parte desse segredo. “Não. E não é porque eu não quero me prejudicar no relacionamento com os personagens. É porque eu realmente acho muito complicado saber qual é a verdade nessa história.”
Quanto a quem deveria estar cuidando dela, Anita Harley deixou um documento conhecido como testamento vital. Nele, a empresária indicava que a secretária Cristine Rodrigues poderia tomar decisões caso ela perdesse a capacidade de se manifestar.
A validade desse documento passou a ser contestada quando outras pessoas surgiram no processo reivindicando papéis diferentes na vida da empresária.
Como Sônia Soares, a Suzuki, uma espécie de diva de ópera cujos trejeitos peculiares já estrelam inúmeros memes nas redes sociais.
Outros personagens importantes na trama são Arthur Miceli, filho de Suzuki, e o advogado Daniel Silvestri. Mas não pode ser revelado aqui, sob risco de fornecimento de spoilers.
O caso atraiu a atenção de Camila Appel quase por acaso. Em 2021, o pai da documentarista estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, no mesmo andar onde Anita Harley recebia cuidados médicos. A presença constante de seguranças na porta do quarto chamou sua atenção.
“Eu percebi que havia um mistério enorme em torno daquela paciente”, lembra. “Ela não recebia visitas e parecia muito protegida.”
Naquele momento, Appel pesquisava outro tema: as chamadas diretivas antecipadas de vontade, conhecidas como testamentos vitais — documentos que permitem a uma pessoa definir quem poderá tomar decisões médicas por ela caso não possa mais se manifestar.
A coincidência surgiu quando a advogada Luciana D’Adalto, especialista nesse tipo de instrumento jurídico, mencionou um caso que considerava exemplar. Era justamente o de Anita Harley.
A advogada relatou a existência do documento que indicava Cristine Rodrigues como responsável por decisões médicas e administrativas. O episódio chamou a atenção da diretora, que inicialmente pensou em abordar o tema em um programa sobre testamento vital.
“Quando comecei a entender que existiam outras pessoas envolvidas, como Suzuki, Arthur e vários advogados disputando versões da história, percebi que aquilo era muito maior do que um debate sobre diretivas antecipadas”, diz. “Era uma disputa enorme.”
O caso chegou primeiro à televisão em uma reportagem exibida pelo Fantástico em 2022. A matéria, apresentada por Appel ao lado do repórter Estevan Muniz, tinha cerca de 16 minutos e foi dedicada inteiramente ao conflito envolvendo Anita Harley.
A reportagem teve grande repercussão, mas deixou a jornalista com a sensação de que a história ainda estava incompleta. Alguns personagens importantes haviam recusado entrevista, o que fez com que apenas uma parte das versões aparecesse.
“Foi uma matéria que repercutiu muito bem, mas que tinha mais um lado do que o outro”, diz. A frustração acabou se transformando em impulso para um projeto mais ambicioso. O documentário começou a ser desenvolvido pouco depois e levou anos até chegar à tela.
Convencer os protagonistas a falar diante das câmeras não foi simples. Muitos temiam a exposição pública de um conflito familiar e empresarial que já vinha sendo discutido nos tribunais. “Ninguém queria participar”, lembra Appel.
As entrevistas acabaram acontecendo, mas vários personagens preferiram não receber a equipe em suas residências. Assim, parte das gravações foi realizada em casas alugadas via Airbnb.
A equipe também viajou para Pernambuco e para a Paraíba para registrar lugares ligados à origem da empresa da família Lundgren, responsável pela rede Pernambucanas. As antigas fábricas de tecidos ajudam a contextualizar a história da fortuna que hoje está no centro da disputa.
Personagens reclamaram e enviaram listas de críticas — e, ainda assim, ligaram para parabenizar a diretora. Em uma história em que cada lado acredita possuir a verdade, no fim, a série não pode oferecer uma resposta definitiva para a pergunta central da história.
Em vez disso, expõe um caso em que documentos, memórias e interesses se misturam. O que resta é um mosaico de versões — e a constatação de que, quando a protagonista não pode mais falar, a verdade passa a ser disputada como um território.