Com visita oficial ao Brasil prevista para a semana que vem, o enviado especial do governo Donald Trump para relações com o país, Darren Beattie, não pediu para se reunir com ninguém do Itamaraty nem do Planalto, mas já buscou agenda para um encontro com Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha, após a defesa do ex-presidente solicitar autorização.
Seria de praxe diplomática que, em visita oficial, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA pedisse uma reunião com alguma autoridade do Itamaraty, o órgão equivalente no Brasil. Também seria esperado que pedisse para se reunir com alguma autoridade da assessoria de relações internacionais do Planalto, o que não ocorreu. Segundo a Folha apurou, ele também não pediu encontros no Ministério da Justiça nem na Fazenda.
Beattie é parte de um segundo escalão do governo americano alinhado ao bolsonarismo que trabalha ativamente para solapar a visita do presidente Lula (PT) a Trump. A visita foi mencionada pelo governo brasileiro pela primeira vez em outubro do ano passado, após a trégua no tarifaço, e era esperada para 2025. Após alguns adiamentos, estava prevista para março, mas ainda não foi confirmada.
Embora o governo Lula não jogue a toalha oficialmente, muitos afirmam serem baixas as chances de que a visita ainda aconteça em março.
Para o governo brasileiro, o fato de Beattie não ter pedido, até agora, reuniões no Planalto e Itamaraty, mas já ter buscado viabilizar encontro com Bolsonaro evidencia que o propósito da visita de Beattie é político e eleitoral. A vinda de Beattie é encarada como o capítulo inaugural da tentativa de interferência na eleição brasileira para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Beattie é abertamente crítico do governo Lula e do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Ele já chamou o ministro de “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição” contra Bolsonaro, além de ser próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que o agradeceu após a imposição de sanções da Lei Magnitsky sobre Moraes.
A Folha entrou em contato com a embaixada americana, mas foi informada de que ainda não há agenda oficial para a visita do alto funcionário americano. Sua chegada é esperada para segunda-feira, 16 de março.
Beattie viria ao Brasil com o objetivo de entender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro. Também vai tratar de decisões judiciais que determinaram o bloqueio de perfis em redes sociais no âmbito dos inquéritos sobre fake news e milícias digitais conduzidos pelo Supremo.
Ele ainda deve ter uma ampla agenda com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que a partir de junho será comandado por indicados de Bolsonaro, com o ministro Kassio Nunes Marques na presidência e André Mendonça como vice.
Em São Paulo, ele participa de um seminário sobre minerais críticos organizado pela Amcham na quarta-feira (18).
Esse segundo escalão é formado por Beattie e Ricardo Pita, conselheiro sênior para assuntos do hemisfério Ocidental no Departamento de Estado, além de Sebastian Gorka, na Casa Branca.
Gorka é diretor-senior de contraterrorismo no Conselho de Segurança Nacional, além de assistente adjunto para o presidente. Ele é um dos grandes defensores do tarifaço de Trump e da ideia de designar o PCC e o CV como organizações terroristas, ao lado de Beattie e Pita.
Gorka é próximo do bolsonarismo há mais de uma década. Ele esteve presente na exibição do documentário sobre Olavo de Carvalho no Trump hotel, em 2016, em evento promovido por Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro às margens da visita de Bolsonaro a Trump em seu primeiro mandato.
Como uma reportagem do UOL mostrou, os Estados Unidos devem declarar as facções CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas nos próximos dias, decisão que contraria os esforços do governo brasileiro.
O governo Lula entregou uma proposta de combate ao crime organizado no fim do ano passado ao Departamento do Estado. Porém, segundo fontes próximas ao órgão, o plano foi considerado inadequado por, entre outros motivos, não conter a declaração de facções como grupos terroristas.
Na visão do governo brasileiro, o timing da insistência em anunciar a designação é sintomático das tentativas desse segundo escalão de minar as relações entre Trump e Lula.
Há dois outros temas que devem aparecer durante a campanha eleitoral deste ano e também serão instrumentalizados para prejudicar a candidatura de Lula, na visão de funcionários do governo.
Uma delas é a investigação da Seção 301 pelo Escritório do representante de Comércio da Casa Branca, aberta em 15 de julho do ano passado. A investigação tem como alvos comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas “injustas e preferenciais”; leis anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal. Sanções podem ser anunciadas nos próximos meses, e podem ter um timing estratégico durante a campanha eleitoral. Embora, nesse caso, a ideia possa sair pela culatra – Lula ganhou popularidade em sua resistência ao tarifaço de Trump no ano passado.
Outra frente é a defesa das big tech americanas diante de decisões do Supremo Tribunal Federal e eventuais sanções do TSE durante a campanha, usando o mote da “liberdade de expressão”.