Fãs de “Schitt’s Creek”, uma das melhores comédias da década passada, têm motivo para comemorar. Dan Levy, cocriador da série e intérprete do emocionado David, está de volta às telas em mais uma sitcom coescrita por ele, “Erros Épicos”. São oito capítulos na Netflix para ver de uma vez.
A alegria, porém, é agridoce para Levy e para o público —vem sob a sombra da morte de Catherine
O’Hara, ocorrida em janeiro. A intérprete de sua mãe nos cinco anos em que a família Rose ficou no ar e parceira de cena constante de seu pai, Eugeny Levy, era a presença mais magnética da série como a intensa Moira, e o ritmo e diálogos similares de “Erros Épicos” criam no espectador, de início, a impressão de que ela entrará em cena a qualquer momento.
Novamente Levy nos apresenta uma família disfuncional, embora unida e amorosa, com uma matriarca forte e filhos adultos que não acharam ainda seu rumo.
Nick (Levy), o mais velho, é pastor e gay, apesar de sua congregação esperar d le o celibato. Morgan (a ótima Taylor Ortega) é uma professora primária em um longo e morno relacionamento. E a mãe, uma dona de loja com ambições políticas locais (Laurie Metcalf), só vê mérito na caçula, Natalie (Abby Quinn), inteligente, competitiva e perfeccionista.
Os diálogos cáusticos misturados ao absurdo são uma marca de Levy e de sua parceira na criação e roteiro de “Erros Épicos”, Rachel Sennott (de “Bottoms”). A dinâmica entre ele e Morgan também repete, em certa medida, a de seu personagem com a Stevie de “Schitt’s Creek”. Superado esse ponto de partida, contudo, a história ruma para outro lado. Estamos diante muito mais de uma comédia de erros do que de uma sitcom familiar.
Por uma série de ideias ruins que começam com a necessidade de presentear com um colar a avó moribunda, Nick e Morgan se veem em dívida com uma quadrilha. Aos olhos dos criminosos, o pastor e a professora são a dupla perfeita para ajudá-los em seus crimes: respeitados pela comunidade, insuspeitos, mas ao mesmo tempo com uma elasticidade moral inesperada para quem trabalha como guia espiritual ou educacional. Só que os irmãos são incompetentes demais para a missão.
Embora a narrativa do crime sirva bem para conduzir e amarrar o enredo, é nos diálogos familiares que a série brilha. Levy e Sennott não medem alvos nem palavras para fazer graça: a suposta obsessão da geração Z pelo próprio bem-estar, a falta de rumo dos millennials ou a síndrome de carregadores de piano da geração X são alvos preferenciais, mas há espaço para rir da política, da religião, da sexualidade e de qualquer coisa relevante no cotidiano.
Metcalf está especialmente inspirada no papel da mãe áspera e exigente embora insegura, e o ator turco Boran Kuzum vai bem como o criminoso de baixo escalão que acaba por cooptar a dupla. Levy faz seu número de sempre, explodindo de ansiedade e sarcasmo, sem nunca deixar de ter graça.
Como era o caso em “Schitt’s Creek”, a afinação sobrenatural entre os integrantes do elenco acaba por fazer a diferença. Da primeira vez, Levy tinha o pai como parceiro de criação, e sua obra arrebatou nove Emmy. Desta, ele se consolida sozinho pelo próprio talento cômico, criando a expectativa de novas temporadas (e prêmios) por vir.
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