Em muitos aspectos, a anual Expo AVN é como qualquer outra conferência. Os participantes recebem crachás, se aglomeram em um hotel bem iluminado e fazem fila nas estações de café para bebidas mornas.
Mas em outros aspectos, é muito diferente. O código de vestimenta não especifica se blazers e gravatas são necessários, mas quais partes do corpo devem estar cobertas. As siglas mencionadas no palco incluem IA (inteligência artificial), mas também BDSM (acrônimo para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).
A noite de encerramento envolve uma cerimônia de premiação que David Foster Wallace, escritor que foi ao evento em 1998, descreveu como o Oscar da indústria pornográfica.
O encontro anual da indústria de entretenimento adulto, estimada em US$ 100 bilhões, acontece em Las Vegas desde 1984. Desde então, a pornografia passou por uma série de disrupções tecnológicas.
Primeiro veio a ascensão da internet; depois sites semelhantes ao YouTube, como o Pornhub; em seguida, plataformas de assinatura como OnlyFans, que conectam espectadores diretamente com performers.
À medida que a indústria se afastou dos filmes de grande orçamento produzidos por grandes estúdios, os participantes dizem que a conferência perdeu parte de seu vigor, com menos estandes, estrelas e fãs. É a convenção do incrível encolhimento”, diz Tommy Gunn, veterano ator da indústria.
Agora, a inteligência artificial ameaça o que poderia ser a maior reviravolta da pornografia até hoje. Uma recente polêmica envolvendo o Grok, chatbot da xAI de Elon Musk, que foi utilizado para despir digitalmente pessoas sem seu consentimento, mostrou como a tecnologia pode ser facilmente usada para criar conteúdo sexualizado e pornográfico.
A Expo AVN deste ano ofereceu pistas sobre como a indústria vai se adaptar.
O evento, realizado de 21 a 24 de janeiro no Virgin Hotels (sim, de verdade), foi menos uma bacanal e mais uma feira de tecnologia. Para cada estande onde homens faziam fila para fotos com performers seminuas, havia outro com startups vendendo novas invenções.
A empresa de robótica Hesen AI exibiu bonecas sexuais com pele de silicone de grau médico, olhos móveis e até alguma capacidade de conversação.
A startup de software Beyond AI apresentou uma ferramenta que ajuda performers a criar réplicas digitais de si mesmos, que podem então produzir conteúdo explícito. Fabricantes de brinquedos eróticos demonstraram gadgets que se conectam com chatbots, complementando conversas picantes com ação no mundo real.
Grande parte das conversas se concentrou na discussão sobre se a IA tomaria os empregos dos atores. Alguns estão registrando seus nomes artísticos e renegociando contratos com estúdios para garantir que vídeos deles não sejam usados para treinar modelos de IA sem seu consentimento.
Mas outros estão abraçando a tecnologia. Muitos a utilizam para editar vídeos e conversar com fãs online. Cherie DeVille, performer conhecida como “a madrasta da internet”, está aberta a criar um clone digital se encontrar uma empresa de IA oferecendo termos favoráveis. “Eu acredito que é o futuro”, diz ela.
Muito dependerá se as pessoas acham as mulheres de IA atraentes ou não. Casey Calvert, outra estrela pornô, teme que não possa competir com os bots. “A garota de IA está sempre excitada e sempre disponível”, ela ressalta.
Mesmo quando os fãs querem interagir com um humano, o trabalho sexual online ficou mais difícil. Roxy Renee, criadora de conteúdo adulto, diz que os seguidores esperam que ela responda imediatamente às mensagens e entregue exatamente os vídeos que eles exigem, assim como um chatbot faria.
Um deles recentemente pediu até para ela enviar uma foto segurando três dedos e uma colher para provar que era humana.
As estrelas pornô têm outra maneira de se distinguir de suas rivais de IA: aparecer em carne e osso. Jennifer White, vencedora do prêmio de Performer Feminina do Ano na cerimônia de premiação, passou grande parte de seu tempo na conferência tirando selfies com fãs.
Ela escapou uma noite para dançar no Sapphire, anunciado como o maior clube de strip do mundo, onde uma multidão de homens apareceu para aplaudi-la e cobri-la de dinheiro. Na era da IA, interações presenciais podem importar mais do que nunca.
Texto de The Economist, traduzido por Helena Schuster, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com