Um estudo publicado nesta sexta-feira (6) demonstra pela primeira vez com alto grau de precisão estatística que o aquecimento global está avançando mais rápido. A taxa de aumento na temperatura da Terra quase dobrou na última década, diz o artigo.
A partir de 1970, ao longo de mais de 40 anos, o índice de elevação era constante, de cerca de 0,2°C por década. De 2014 em diante, no entanto, a taxa passou para, em média, 0,35°C por década.
Se o ritmo se mantiver, os autores afirmam que o limite de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais (período de 1850 a 1900) definido pelo Acordo de Paris será ultrapassado em poucos anos, até 2030 —intensificando ainda mais eventos climáticos extremos e levando a perdas catastróficas.
A pesquisa é de dois cientistas do renomado Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (conhecido pela sigla PIK), na Alemanha, e foi publicada na revista Geophysical Research Letters.
A aceleração da mudança climática vinha sendo debatida nos últimos anos pela comunidade científica. Estudos anteriores chegaram a apontar essa tendência, mas com uma margem de erro que tornava os resultados estatisticamente insignificantes, dizem os autores.
Agora, foram analisados cinco prestigiados conjuntos de dados da temperatura global: Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), Noaa (agência dos EUA de ciência climática), HadCRUT (sistema do instituto nacional de meteorologia britânico), Berkeley Earth (instituto climático sem fins lucrativos) e ERA5 (do observatório climático europeu Copernicus).
Para contornar a incerteza de pesquisas anteriores, os pesquisadores do PIK descontaram a influência estimada de eventos de El Niño, erupções vulcânicas e variações solares dos índices de temperatura, deixando o cenário mais claro.
“Nós reduzimos o ‘ruído’ removendo esses fatores de variabilidade de curto prazo”, explica o climatologista Stefan Rahmstorf, um dos autores da pesquisa. Essas flutuações naturais na temperatura global podem mascarar mudanças na taxa de aquecimento do planeta.
“Fiquei surpreso com o aumento repentino da taxa de aquecimento nos últimos dez anos. Era esperado um aumento mais gradual e lento, como previsto pelos modelos climáticos”, conta.
Nos cinco bancos de dados, a aceleração começa a se tornar aparente em 2013 ou 2014, com um aumento da taxa na última década que vai de 70% (HadCRUT) a 110% (ERA5).
O índice médio de 0,35°C de aquecimento é o mais alto registrado em qualquer década desde 1880, quando começa a série histórica dos dados analisados.
Os autores ressaltam que os ajustes que retiram os efeitos do El Niño e do máximo solar reduzem a temperatura global em 2024 e 2023 —demonstrando que a aceleração do aquecimento não se deve a anos atípicos, mas sim a uma tendência que vem desde 2015.
O estudo não examina as causas do ritmo acelerado da mudança climática, mas a principal hipótese, levantada por outras pesquisas, é a redução da quantidade de aerossóis na atmosfera.
Essas partículas derivadas da poluição prejudicam a saúde humana, mas também agem como uma barreira que reflete parte da luz solar de volta para o espaço. Isso faz com que tenham um efeito de resfriamento no planeta. Nos últimos anos, regras mais rígidas sobre poluição do ar, especialmente para o transporte marítimo e a indústria, diminuíram os índices de aerossóis na atmosfera.
Como combater essa situação
A solução para frear a mudança climática, acelerada ou não, é uma velha conhecida: reduzir as emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas, vindas principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento.
Muitos especialistas defendem que um corte significativo nas emissões de metano pode ser um atalho para reduzir rapidamente o ritmo do aquecimento. Esse gás é 80% mais potente como gás de efeito estufa do que o dióxido de carbono (CO2), mas tem uma vida bem mais curta na atmosfera —cerca de 20 anos, enquanto o CO₂ dura séculos.
Rahmstorf diz que essa estratégia pode ser uma solução mais rápida para tentar salvar a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, mas acrescenta que cortar o gás carbônico continua sendo o fator dominante, devido à sua vida útil mais longa.
“Então, [cortando o metano] você pode obter um sucesso rápido, mas não um efeito tão duradouro quanto com a redução do CO2. Definitivamente, devemos fazer ambos o mais rápido possível”, ressalta.
Em 2021, 103 países assinaram o Pacto Global de Metano na COP26, conferência climática da ONU que aconteceu em Glasgow (Escócia). O documento prevê um corte nas emissões globais de metano em 30% até 2030, em relação ao verificado em 2020. Ainda assim, esses índices continuam subindo.
O cenário político atual ao redor do mundo também não provoca otimismo. “Os Estados Unidos estão agora sob um governo que, por estar nas mãos do lobby dos combustíveis fósseis, nega as mudanças climáticas globais e tenta destruir a ciência”, diz o pesquisador.
“Na Europa, vemos também uma reação contrária [ao combate do aquecimento global], inclusive por parte do governo alemão, que tenta desacelerar a transição para as energias renováveis que está acontecendo em todo o mundo. E isso, obviamente, é um sinal completamente errado. Devemos priorizar os esforços para nos livrarmos dos combustíveis fósseis —não só pelo bem do clima, mas também para que países que dependem da importação deles possam se tornar independentes”, afirma.
Apesar disso, Rahmstorf aponta que o resto do mundo continua muito determinado a reduzir as emissões, embora não com a rapidez necessária.