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Eufemismos revelam muito sobre racismo, preconceito e exclusão – 15/03/2026 – Ana Cristina Rosa

by Silas Câmara

Dia desses ganhei na loteria do absurdo mais uma vez —coisa que me acontece com uma certa frequência. Estava quieta no meu canto, esperando uma mesa num restaurante, quando uma jovem loira, que não tirava os olhos de mim, resolveu se aproximar para fazer um suposto elogio: “Parabéns! Você é uma morena muito bonita. Estou impressionada.”

Agradeci educadamente, mas não pude deixar de fazer a seguinte consideração: “Me alegra saber que reconheces a minha beleza, mas eu não sou morena, sou negra mesmo.”

A moça ficou injuriada, e resolveu retrucar com um “Nossa! Não quis ofender. Chamei de morena porque você realmente é bonita demais para uma negra”.

É disso que se trata!

Como cantou Emicida, ser chamada de morena “camufla o abismo entre si e a humanidade plena” (Ismália). Sim, senhoras e senhores! É disso que se trata. Eufemismos revelam muito sobre racismo, preconceito e exclusão. Numa sociedade racista, a linguagem também é fator de discriminação.

No Brasil, a negritude está associada ao negativo, inferior, agressivo, ofensivo, pejorativo, ou seja, a tudo o que há de ruim. Olha aí o exemplo recente do vereador de Ibiporã, no Paraná, que teve a pachorra de dizer que “água suja é tão podre que preto perde para ela”.

Para quem ainda não sabe, usar uma palavra considerada mais branda, agradável e sutil para amenizar o impacto de uma expressão étnico-racial tida como desagradável, grosseira ou ofensiva é puro suco de preconceito, racismo e discriminação.

É por isso que quem é preto e pardo frequentemente é chamado de “moreno”, “cor de jambo”, “escurinho”, “pessoa de cor”, “moreninho”, termos considerados “palatáveis”, e que uma mulher preta, como eu, acaba sendo considerada “bonita demais para uma negra”.

Bonito demais será o dia em que a noção de que a beleza é exclusividade de quem tem traços caucasianos for superada de vez. Principalmente num território de maioria autodeclarada negra (56% pelo IBGE), como é o nosso.


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