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Falta de pesquisa sobre clima ameaça produtividade do agro – 14/02/2026 – Economia

by Silas Câmara

A partir de uma bactéria encontrada no mandacaru da caatinga, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) desenvolveu um bioinsumo que torna as plantas mais resistentes às altas temperaturas e à seca.

O preparado com as bactérias, produzido com a empresa mineira NOOA, é misturado a sementes de soja, milho, algodão e pastagens. “Aumenta a produtividade do milho de 4% a até 10%”, diz o pesquisador da Embrapa Itamar Soares de Melo, que levou 12 anos pesquisando o bioinsumo Auras.

O mais difícil foi o começo da pesquisa, pois existem milhões de bactérias associadas a plantas. Foram anos de triagem de plantas cactáceas do semiárido para encontrar micro-organismos e determinar quais eram os mais eficientes. Melo chegou ao Bacillus aryabhattai, que hidrata as raízes das plantas e faz com que elas atinjam uma profundidade maior do solo, onde há água.

Com isso, o Auras se tornou um bioinsumo precioso para adaptação dos cultivos agrícolas às mudanças climáticas. Já é um sucesso de vendas.

Em 2024, foi usado em terras em todos os estados brasileiros e a área total tratada com Auras foi de 632 mil hectares de soja (equivalente a quatro cidades de São Paulo), 379 mil hectares de milho; 21 mil hectares de algodão e outros 21 mil hectares de pastagens. Começou a ser vendido no Paraguai e na Bolívia.

Há apenas um porém nessa história de sucesso: ela é uma exceção.

Faltam pesquisas agropecuárias que, como o Auras, ajudem os cultivos a se adaptar à emergência climática, uma realidade em que mais extremos de temperatura e menos água derrubam a produtividade. Muitas vezes, são estudos que levam muitos anos e dificilmente são bancados pela iniciativa privada.

“O grande desafio é manter produtividade nas condições de emergência climática. Estamos despreparados para isso, não sabemos como responder”, diz Silvio Crestana, ex-presidente da Embrapa e atual pesquisador do setor de instrumentação da empresa.

“A Embrapa deveria ter um foco prioritário nas mudanças do clima, mas isso não está acontecendo; estamos em um momento crítico, porque a emergência climática exigirá novas variedades e insumos adaptados ao novo clima”, diz o engenheiro e pecuarista Pedro de Camargo Neto, ex-secretário de Produção do Ministério da Agricultura.

A Embrapa foi essencial para o Brasil se tornar a potência agropecuária que é hoje. Até os anos 1970, valia o ditado: “Cerrado, nem dado, nem herdado”. Quase nada crescia na região. Com inovações como correção de solos e fixação biológica de nitrogênio, a empresa conseguiu expandir a fronteira agrícola.

Com essas e outras tecnologias “poupa-terra”, a produtividade agrícola brasileira explodiu: houve expansão de 140% na área plantada e de 580% na produção de grãos nos últimos 50 anos.

O Brasil era importador de alimentos quando a Embrapa foi fundada, 52 anos atrás. Hoje, além de o país ser autossuficiente, o excedente de produção é essencial para os superávits comerciais. Em 2024, a exportação do agronegócio foi de US$ 164 bilhões, o que corresponde a 49% do total exportado pelo Brasil.

Nos últimos anos, no entanto, a Embrapa tem vivido uma crise. O orçamento discricionário –verbas para pesquisa, investimento e custeio— passou de R$ 848,6 milhões em 2014 (deflacionado pelo IPCA) para R$ 172,2 milhões em 2024, uma queda de 80%. Em 2025, após críticas, estão previstos R$ 335 milhões.

Ainda está aquém dos R$ 510 milhões que os pesquisadores calculam ser necessário para iniciar novas pesquisas e manter o ritmo das atuais.

O Brasil, hoje, investe muito menos em pesquisa e desenvolvimento agropecuário do que os Estados Unidos e a China. Segundo levantamento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a China encaminhou mais de US$ 10 bilhões em pesquisa agropecuária; a União Europeia, cerca de US$ 8 bilhões; EUA investiram na faixa de US$ 5 bilhões, a Índia, US$ 4 bilhões, e o Brasil, US$ 3 bilhões em 2020, último ano com dados disponíveis.

“A pesquisa agrícola perdeu aquele embalo de 50 anos atrás, quando conseguiu revolucionar o país”, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

Muitas pesquisas da Embrapa para melhoramento genético, correção de solos e bioinsumos que poderiam ajudar na adaptação e mitigação das mudanças climáticas estão paralisadas ou em marcha lenta, segundo pesquisadores.

No ano passado, quando o orçamento despencou, a Embrapa diminuiu a injeção de recursos. “Projetos que deveriam dar resultados em dois, três anos, vão dar em quatro, cinco anos, porque tivemos de tirar recursos e desacelerar a execução”, diz a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá.

Hoje, segundo Massruhá, 30% dos gastos em pesquisa da estatal são dedicados às mudanças climáticas. Desse montante, 45% vão para mitigação e 55% para adaptação.

Para especialistas, não é suficiente.

“Adaptação e mitigação não são o foco da Embrapa. Tem mais dez coisas disputando recursos. Como vamos chegar em 2030 se não conseguirmos criar sistemas de produção mais resilientes? Vamos ter capacidade de continuar aumentando nossa produção?”, indaga Crestana.

Os efeitos das mudanças climáticas na produção agrícola são dramáticos.

Algumas plantas simplesmente deixam de produzir acima de determinadas temperaturas. No caso dos citros, quando a temperatura ultrapassa 35°C, eles interrompem a fotossíntese, param de crescer e abortam os frutos.

A segunda safra, importantíssima para a alta produtividade agrícola brasileira, também está sob ameaça. Com mais eventos climáticos extremos, cai a previsibilidade e isso compromete a capacidade de plantar a segunda safra de milho, por exemplo.

Em 2023, o ministério da Agricultura encomendou um diagnóstico a Sílvio Crestana. Ele, Roberto Rodrigues, Pedro Camargo Neto, o ex-ministro Luiz Carlos Guedes Pinto e a professora Ana Célia Castro fizeram um relatório propondo reformas na Embrapa.

Os principais problemas, na visão deles, eram burocratização e excesso de centralização.

Para Crestana, o grande entrave não é falta de dinheiro. “Esse é o discurso que sempre se usa. Mas existem problemas com a execução do orçamento e existe necessidade de aumentar a eficiência.”

Há muito gasto fixo –a folha de funcionários e encargos ultrapassa 90% do orçamento total de R$ 4,78 bilhões.

A presidente da Embrapa afirma que 70% das recomendações do relatório foram seguidas.

“Nós, do grupo, sabemos que muito pouco do relatório foi cumprido. Criaram vários grupos de trabalho, mas pouco foi feito para desburocratizar e descentralizar”, diz Crestana.

Carlos Augustin, presidente do Conselho de Administração (Consad) da Embrapa, admite que há dificuldades em implementar reformas. “O que mudou foi o rumo. A grande coisa que aconteceu foi a tomada da decisão.”

Augustin, como Massruhá, aposta em novas fontes de receita para impulsionar as pesquisas na Embrapa.

Ele propõe um aumento na cobrança de royalties sobre produtos desenvolvidos pela Embrapa, que hoje geram apenas R$ 50 milhões por ano, cerca de 1% do orçamento total da estatal.

“Aí a gente sai desse atoleiro de ficar sempre implorando por dinheiro e se vendendo muito barato para o setor privado”, diz.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) se comprometeu a direcionar R$ 100 milhões em 2025 para um fundo que está sendo desenhado pelo ex-ministro Roberto Rodrigues. Segundo Rodrigues, os recursos iriam diretamente para pesquisas específicas, não para a Embrapa.

Rodrigues está à frente da captação de mais recursos para o fundo com entidades do setor.

A presidente da empresa também pensa em colocar áreas da Embrapa para arrendamento, já que os avanços tecnológicos reduzem a área necessária para testar produtos.

“Eu gostaria que um modelo de financiamento sustentável fosse o principal legado da minha gestão na Embrapa”, diz Massruhá.

Especialistas como Camargo Neto, no entanto, advertem para os riscos de aumentar muito a dependência de recursos do setor privado.

Multinacionais e empresas se interessam por pesquisas que podem dar retorno no curto a médio prazo. Geralmente, são pesquisas com commodities como soja, milho e algodão. Mas cultivos como mandioca e feijão, por exemplo, que não têm escala e não são negociados na Bolsa de Chicago, não vão atrair recursos privados.

Marcos Jank, coordenador do Núcleo de Agronegócio Global do Insper, adverte que o país precisa se preparar para a quarta onda de tecnologias agropecuárias.

A primeira onda foi dos anos 70 aos 90 –foram criadas novas variedades de sementes que se adaptavam ao cerrado, correção de solos, fixação biológica de nitrogênio (com inoculação de bactérias), plantio direto (sem revolver ou arar a terra, mantendo a palhada no solo).

Na época, cerca de mil pesquisadores foram enviados para estudar em universidades americanas. De volta ao Brasil, trataram de pesquisar para adaptar culturas de climas temperados ao cerrado. Com essa tropicalização tecnológica, culturas como a soja se espalharam do Rio Grande do Sul até o Ceará.

A segunda onda, entre 1990 e 2010, foi de processos. Produtores passaram a fazer uma segunda safra, cresceu o uso de biotecnologia e transgenia e dos sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta. A terceira onda, segundo Jank, vai de 2010 até o dias de hoje, e se caracteriza por avanços na eficiência produtiva. Alguns exemplos: agricultura de precisão, controle biológico, bioinsumos, automação e a adoção de parâmetros de sustentabilidade.

Já a quarta onda, que começa agora, é a da adaptação e inteligência –tecnologias para adaptação às mudanças climáticas, uso de IA, robótica, drones e outros.

A produtividade agrícola brasileira ainda é um fenômeno: segundo Jank, ela cresceu 2,5% ao ano nos últimos 40 anos e 3,2% nos últimos 20 anos. A da Índia cresce 1,6%, média mundial é 1,6%, União Europeia avança 1,1% e EUA, 1%.

Mas ele alerta: se não houver investimento significativo em adaptação, esses ganhos de produtividade não vão se manter diante de mudanças climáticas.

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