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Feira SP-Arte atiça os ricos com pinturas e poltronas – 07/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Lista de compras para a sala —um sofá de três lugares, uma poltrona de época e uma luminária art déco. Na hora de decorar a casa, os muito ricos talvez não precisem mais ir aos shoppings de design de interiores ou na alameda Gabriel Monteiro da Silva, centro do mobiliário de luxo de São Paulo. Eles podem visitar a SP-Arte com seus arquitetos a tiracolo.

Mais tradicional feira de artes visuais e design do Brasil, que agora chega à sua 22ª edição, na capital paulista, a SP-Arte vem se firmando nos últimos anos como um importante ponto de descoberta e comércio de móveis e objetos, tanto contemporâneos quanto modernos, para além das obras de arte, ainda o seu forte.

Serão 64 estandes de design na feira, que acontece entre 8 e 12 de abril, no pavilhão da Bienal, dentro do parque Ibirapuera, contra pouco mais de 100 galerias de arte. O número de expositores de design só aumentou nos últimos dez anos, desde que o evento abraçou também o comércio de sofás, poltronas, mesas, bufês, tapeçaria, candelabros e luminárias.

Fernanda Feitosa, a fundadora e diretora da SP-Arte, conta que queria criar um ponto de encontro para a comunidade do design assim como criou para a das artes plásticas. Ela destaca que o Brasil tem uma “produção sólida, com estúdios e galerias de design muito bons”, mas o mercado de design estava carente de um evento para chamar de seu. Hoje, a feira e a Semana de Design de São Paulo, que acontece antes, são os principais momentos do ano para o design no país.

Neste ano, os expositores levam para a SP-Arte desde peças mais acessíveis, como cadeiras de época em jacarandá da marca L’Atelier —criada por Jorge Zalszupin— por R$ 7.000 cada, a outras muito caras, a exemplo de um bar, também de Zalszupin e na mesma madeira, por R$ 160 mil. Ambos são oferecidos pela galeria Teo, referência no comércio de mobiliário brasileiro vintage.

Com R$ 180 mil é possível sair da feira com uma luminária de Maneco Quinderé assinada em parceria com o artista Arthur Lescher, que teve uma tiragem de dez exemplares e estará à venda na galeria Herança Cultural. Outros destaques no mobiliário contemporâneo são a mesa de apoio Gomo, de Bettina Heuer, da galeria Designers Group Gallery, por pouco menos de R$ 32 mil, e a poltrona Clave, de Marina Moreira, também da Designers Group Gallery, etiquetada em R$ 48 mil.

Como se vê pelos preços, a imagem que o design tinha de ser mais acessível em comparação às obras de arte, em parte por sua produção ser seriada e não única, vai sendo desmontada. Por R$ 55 mil a menos que o bar de Zalszupin da Teo é possível adquirir uma escultura em madeira, pedra e cobre de Luana Vitra, artista da galeria Mitre que está em ótimo momento da carreira e já expôs na Bienal de São Paulo, a mais importante mostra de artes visuais do país.

A cadeira da Designers Group Gallery tem preço semelhante a obras de jovens artistas representados pela galeria Luisa Strina, a mais importante do país, na qual os valores começam em R$ 41 mil. Este preço, no entanto, pode baixar, porque é praxe no mercado negociar desconto com os galeristas.

O fosso nos preços da arte e do design fica muito maior se levarmos em conta a produção dos grandes artistas. A galeria Dan mostra um afresco dos anos 1950 de Alfredo Volpi, de 2 metros de altura por quase 3,5 metros de comprimento, com valor estimado em R$ 9 milhões. É literalmente um pedaço de parede que foi da residência do arquiteto João Kon que você pode levar para casa.

Outros trabalhos de preços salgados são um óleo de mais de cem anos de Vicente do Rego Monteiro, trazido de uma coleção da Europa pela galeria Danielian e exibido agora pela primeira vez para o público —R$ 7 milhões— e uma tela de Tarsila do Amaral, estimada em R$ 19 milhões, à venda pela Flexa. É “Terra”, pintura de pinceladas leves de 1943 que esteve em retrospectivas da modernista nos museus Guggenheim da Espanha e du Luxembourg, em Paris.

Enquanto o mundo fora dos corredores do pavilhão da Bienal explode em guerras e crises políticas, nada disso parece afetar o apetite de quem não tem limite no cartão de crédito. Conforme o último relatório do mercado de arte feito pelo banco suíço UBS com a feira Art Basel, tido como referência pelo setor, o mercado de arte cresceu 4% no ano passado, após dois anos seguidos de retração, aqui incluídas as vendas das galerias e de leilões públicos.

No Brasil, os galeristas reportaram aumento de 21% nas vendas no ano passado em relação a 2024, e para este ano mais de 80% deles estão confiantes que vão comercializar mais, segundo dados do mesmo relatório. Na SP-Arte, isso se traduz com um influxo de novos colecionadores —jovens do mercado financeiro capazes de fazer bom dinheiro cedo na carreira—, e com o aumento do tamanho dos estandes de galerias mais novas, que abocanharam uma parte destes compradores.

A Yehudi Hollander-Pappi, que recém completou um ano de vida com seu casting de artistas jovens e experimentais, aumentou seu estande e vai ficar ao lado de galerias históricas como Anita Schwartz e Vermelho. E a Mitre, presença constante na SP-Arte há anos, ocupará agora seu maior espaço, com um estande de 90 metros quadrados, só 20 a menos que o da Fortes D’Aloia & Gabriel, uma gigante do mercado que completa 25 anos.

Essas galerias mais jovens sinalizam para o mercado que estão crescendo e que têm mais artistas, afirma Feitosa sobre a expansão. Ela inclui também na lista a Verve, que acaba de inaugurar um novo espaço no centro de São Paulo. “Isso é uma demonstração de força e de comprometimento com o mercado local. É um crescimento pautado por uma demanda maior dos seus clientes e por uma expectativa positiva da conjuntura econômica do país”, diz ela.

Tal otimismo tem trazido mais casas internacionais para os corredores da feira, em busca dos colecionadores locais. Neste ano, participarão galerias como a Lamb, de Londres, a David Peter Francis, de Nova York, e a Sur, do Uruguai, totalizando 16 espaços de fora do Brasil, o maior número desde antes da pandemia.

Para Feitosa, o interesse dos estrangeiros também é puxado pela grande visibilidade de artistas brasileiros no exterior, como Lucas Arruda, que no ano passado teve uma exposição badalada no Musée d’Orsay, em Paris. “Como os galeristas brasileiros parecem mais otimistas que o resto do mundo, os seus pares de outros países consideraram que deveriam estar por aqui também.”

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