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Festival Fronteiras une três mulheres imortais da ABL – 08/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Palavras nunca são inocentes. Basta pensar no contorno que adquirem quando falamos em “homem público” e “mulher pública”. Subtende-se que o primeiro seja talvez um estadista. A segunda, uma prostituta. Tente de novo: solteirão e solteirona. A carga laudatória de um e pejorativa de outro não passa batida.

Os exemplos foram evocados pela historiadora Lilia Schwarcz no Festival Fronteiras, numa mesa deste domingo (8) que discutiu como a linguagem nos molda e tensiona as relações de gênero. A conversa reuniu um trio de integrantes da Academia Brasileira de Letras —além de Schwarcz, lá estavam Ana Maria Machado e Miriam Leitão, mediadas pela repórter especial da Folha Fernanda Mena.

Difícil escapar do simbolismo: realizado no Dia da Mulher, o encontro juntou três das 13 mulheres que já ganharam cadeiras em 128 anos de ABL. Menos de 5% do total. Leitão já de cara parabenizou também os homens presentes para assistir a quatro mulheres falarem, algo a que nem todos eles parecem dispostos.

Schwarcz voltou ao tema das palavras como estruturas de poder. Para ela, expressões aparentemente neutras ajudam a moldar o modo como enxergamos o mundo. Termos como “civilização”, “evolução” ou “progresso”, afirmou, foram historicamente usados para sustentar visões eurocêntricas da história.

A historiadora citou a pensadora feminista bell hooks para resumir a ideia: “Minhas palavras são meu horizonte de possibilidades”.

Essa relação entre linguagem e história também aparece na maneira como o passado é contado. Durante séculos, disse Schwarcz, as mulheres foram empurradas para as margens da narrativa histórica.

Elas estavam na linha de frente da Guerra de Canudos, por exemplo. Mas nunca aparecem nessa historiografia. Ou a princesa Isabel, que costuma surgir na memória coletiva definida por suas relações familiares —filha de um imperador, esposa de um conde.

Ana Maria Machado contou que, durante seu exílio na França, teve como orientador de doutorado o semiólogo Roland Barthes. Ela foi uma entre 20 escolhidos entre cerca de 2.000 candidatos para estudar sob sua supervisão. Escreveu uma tese sobre Guimarães Rosa.

Machado também lembrou sua passagem pelo jornal, que lhe legou algo que aplica até hoje: rapidez para escrever e atenção aos detalhes do cotidiano. Para ilustrar, citou uma frase atribuída a Ernest Hemingway: “O jornalismo nunca fez mal a um escritor, desde que largado a tempo”.

A fala serviu de gancho para Miriam Leitão. Antes de publicar ficção, a jornalista construiu carreira baseada justamente na busca por fatos verificáveis. Por isso, demorou a se sentir confortável escrevendo romance.

O desbloqueio veio quando ouviu Ana Maria Machado falar sobre a “verdade das mentiras” da literatura. A expressão ajudou a jornalista a entender que a ficção não é o oposto da verdade, mas um tipo diferente de acordo narrativo.

Leitão recorreu a uma definição do escritor Alberto Mussa: a ficção seria um pacto entre autor e leitor. “O escritor diz: vou mentir para você”, afirmou. “E o leitor responde: tudo bem, eu vou acreditar.”

Mas essa liberdade de inventar histórias, lembrou ela, foi historicamente mais difícil para as mulheres. Durante muito tempo, elas tiveram acesso limitado à educação e à publicação.

Caso de Mary Shelley, que lançou seu “Frankenstein” inicialmente de forma anônima, porque parecia suspeito que uma mulher pudesse ter escrito essa obra prima.

Schwarcz rememorou a ironia de ter ganho anos atrás um prêmio batizado “Homem de Ideia”. Ainda foi apresentada na época como “esposa de”, com destaque para seu papel de mãe.

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