Durante anos, a poupança reinou absoluta. Parecia imbatível, até que os CDBs passaram a oferecer mais retorno, proteção semelhante em muitos casos e ganharam espaço nas carteiras dos brasileiros.
No mercado financeiro, mudanças importantes costumam acontecer assim: primeiro discretas, depois inevitáveis. Algo parecido parece ocorrer agora dentro da própria renda fixa, com o avanço dos FIDCs, os fundos de investimento em direitos creditórios.
Os números ajudam a entender. Segundo dados da ANBIMA, desde o fim de 2020, enquanto o patrimônio dos fundos de renda fixa cresceu 63%, o volume aplicado em FIDCs avançou 210%. No mesmo período, fundos de ações, multimercados e cambiais registraram queda de patrimônio. Comento abaixo as razões que ajudam a explicar o interesse crescente por essa categoria.
Participei nesta sexta-feira (10) de um evento promovido pela Ouro Preto Investimentos, dedicado a discutir por que essa indústria ganhou tanta relevância e por que tende a crescer ainda mais. A principal conclusão foi clara: os FIDCs deixaram de ser um nicho técnico e caminham para ocupar espaço estrutural nas carteiras de renda fixa.
O primeiro tema debatido foi como avaliar um FIDC. A análise envolve pontos clássicos do crédito, como capacidade de pagamento e inadimplência, mas vai além do crédito corporativo tradicional. É preciso examinar quem origina as operações, a qualidade dos recebíveis, a pulverização dos devedores, o prazo médio da carteira, a liquidez dos ativos, a robustez das garantias, o regulamento do fundo e a qualidade dos prestadores de serviço. Em resumo, não basta olhar a taxa prometida. É necessário entender toda a engrenagem que sustenta o retorno.
Essa sofisticação aparece também na estrutura das cotas. Os FIDCs foram pioneiros na adoção de classes diferentes dentro do mesmo veículo, algo que depois se espalhou para outras estruturas. Muitos investidores ainda ignoram esse detalhe e tratam a categoria como se fosse homogênea. Não é. Boa parte do risco está na classe escolhida.
De forma geral, existem cotas sênior, mezanino e júnior, também chamada subordinada. Esta última absorve as perdas iniciais da carteira, protegendo as classes superiores. Em muitos casos, é esse desenho que torna a estrutura especialmente robusta.
No caso da Ouro Preto Investimentos, por exemplo, foi destacado no evento que as cotas sênior de seu fundo de FIDCs não foram afetadas ao longo de mais de uma década. Comparativamente, a maioria dos fundos de renda fixa do mercado foi impactada por eventos de crédito nos últimos anos.
Se a estrutura parece sofisticada, o universo de oportunidades também impressiona. Quase todo fluxo futuro de pagamento pode ser transformado em recebível e estruturado em um FIDC. Isso significa que a indústria não depende de um único setor. Há estratégias ligadas a boletos de concessionárias de serviços públicos, cartão de crédito, duplicatas, risco sacado, mensalidades, precatórios, ações judiciais e muitos outros segmentos. O campo de atuação é muito mais amplo que o crédito corporativo tradicional.
Essa amplitude traz um benefício raro: diversificação real. Em vez de concentrar risco em poucos emissores, o investidor pode acessar diferentes motores de retorno, setores econômicos e perfis de pagadores. Em um cenário em que correlação excessiva virou problema recorrente nas carteiras, essa característica ganha ainda mais valor.
E os riscos? Naturalmente, existem. A diferença é que eles podem ser tratados de forma mais inteligente. A pulverização em milhares de devedores tende a reduzir o impacto de inadimplências isoladas, criando uma vantagem relevante em relação ao crédito corporativo mais concentrado.
Nesse momento entra adicionalmente a força da subordinação. Com camadas de proteção muitas vezes superiores ao risco médio histórico de inadimplência, as cotas sênior raramente são atingidas. Soma-se a isso mecanismos como sobrecolateralização, contas de reserva, alienação fiduciária e travas de fluxo, que podem elevar ainda mais a resiliência da estrutura.
Mas há um detalhe decisivo. Investir diretamente em FIDCs exige elevada capacidade técnica e tempo para analisar profundamente todos esses fatores. Não basta olhar rentabilidade passada. É necessário estudar e monitorar carteira, cedentes, devedores, garantias, regulamento, concentração, histórico de perdas e qualidade da gestão. É justamente daí que surgem os fundos de FIDCs e os fundos de fundos: estruturas com equipes dedicadas a fazer esse trabalho de seleção, monitoramento e acompanhamento contínuo.
Quando esse processo é bem executado, os resultados aparecem. Um exemplo apresentado no evento foi o histórico do fundo de FIDCs da Ouro Preto Investimentos, que acumula, em mais de uma década, retorno superior a 160% do CDI, superando a maioria dos fundos multimercados de ações e renda fixa e sem registrar, desde 2013, nenhum mês abaixo do CDI. Ressalto que existem diversas outras gestoras com estratégias semelhantes.
Os FIDCs já deixaram de ser uma alternativa restrita a investidores especializados. A trajetória recente mostra expansão consistente, maior sofisticação e crescente reconhecimento dentro do mercado. Se os investidores levaram anos para trocar a poupança por CDBs, LCAs e LCIs, talvez a próxima pergunta seja: quanto tempo levarão para migrar parte da renda fixa corporativa tradicional para os fundos de FIDCs?
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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