“Eu não consigo chamar o ‘Rap do Silva’ de funk, tá ligado, mano?”, diz Filipe Ret, camisa do Fluminense, em sua casa. “O ‘Rap do Silva’ pode pertencer ao movimento ali do funk, mas está no nome, era um rap. Tinha verso, tinha refrão, fazia pensar, questionava, fazia uma crítica”.
O raciocínio sustenta “Rap Relíquia”, EP que o rapper lançará no dia 8 de abril. Em quatro faixas —as inéditas “Rap do Sonho”, “Rap do Beijo” e “Rap da Magia”, além da já divulgada “Rap da Lealdade”—, o projeto revisita a sonoridade dos bailes cariocas da virada dos anos 1980 para os 1990, mergulhada em volt mix e Miami bass.
O novo EP também marca uma mudança de foco na escrita do rapper. Em vez da narrativa centrada apenas na experiência individual —dominante no rap e trap contemporâneos—, as novas faixas procuram enfatizar temas coletivos que atravessam o som dos bailes dos anos 1990, como amizade, sonho e lealdade.
Ret vê na geração atual do rap uma linhagem que descende diretamente daquele funk. “Vejo muito a influência desse funk no Orochi, no Poze, no Oruam, no Ret, no Cabelinho“, diz o rapper, que costuma se referir a ele mesmo na terceira pessoa.
“Nós somos uma continuação do Claudinho & Buchecha, Cidinho & Doca. Uma segunda onda deles de forma muito nítida. A lírica mudou um pouco, mas ainda é muito semelhante. A gente acaba colocando alguns elementos mais apimentados, mas ainda é aquilo. É o dois ponto zero daquilo.”
A ideia de “Rap Relíquia” era injetar novidade numa batida já inscrita na memória sonora e afetiva do país. “Rick Rubin fala que o hit é uma ‘surpresa familiar’. Eu queria achar essa surpresa familiar. O familiar aqui era o volt mix; a surpresa é o Ret cantando com uma harmonia mais moderna”.
O disco chega num momento em que Ret acaba de ultrapassar 10 bilhões de reproduções nas plataformas de streaming —feito inédito para um rapper brasileiro. Apenas 13 artistas do país romperam essa barreira, quase todos ligados ao sertanejo.
“O Ret tá há muito tempo rodando o país”, diz o rapper, que começou a carreira em batalhas de MCs na Lapa carioca em 2003. “O mercado live é diferente do mercado dos streams. O mercado do ao vivo exige mais um trabalho braçal, de você viajar, apertar a mão, tirar foto.”
“Então, como o Ret tem mais tempo rodando o Brasil, olhando no olho das pessoas, isso faz diferença. Além disso, eu tenho certeza que eu não paguei fazenda de streams [prática de inflar artificialmente os números nas plataformas].”
A rotina que sustenta esses números, explica o rapper, é menos glamorosa do que pode parecer. Nos bastidores, a carreira funciona como uma engrenagem contínua entre estrada, estúdio e gestão diária de uma operação que ele acompanha de perto.
O palco continua sendo um laboratório decisivo nesse processo. Em períodos mais intensos da carreira, Ret chegou a fazer mais de 120 apresentações por ano. Hoje prefere reduzir o ritmo —cerca de 80 shows anuais— para preservar tempo de criação. “Eu nunca fiz temporada de estúdio e temporada de show. Eu faço as duas coisas juntas. Aqui [no estúdio caseiro] eu planto. No show, eu vou colher.”
Para ele, portanto, o show representa o reflexo de algo do passado —músicas que ele já fez e que o público já conhece. Já o estúdio é o que mais o motiva, por apontar para o que ainda está por vir. “Às vezes eu penso como eu perco tempo colhendo essas frutas. Eu queria estar plantando, aumentando a plantação”.
Esse pensamento também orienta sua relação com o mercado. Ret não vê contradição entre criação artística e circulação comercial. “Eu só entendo a arte como algo comercial. Eu sempre criei pra mostrar”, afirma o rapper, notando que a popularidade frequentemente gera uma reação desconfiada de parte da crítica.
Mas ele não tem dúvida. Mira mais em Paulo Coelho —”o cara popularizou a leitura, isso é maravilhoso”— do que em Van Gogh. “Não entendo essa coisa da crítica querer que o artista seja igual ao Van Gogh, que fez 800 quadros e vendeu só um em vida.”
Perguntado sobre como lida com o fato de ser um artista branco num gênero de raiz negra —e de ser o artista com números mais expressivos na área—, Ret diz que nunca se percebeu como alguém à margem da cultura.
“Não me vejo sendo separado ou perseguido por isso. O cara percebe que eu vivi a rua. Não tem como você forjar isso. Em qualquer quadra minha que você ouvir, você vai ver alguma rua ali. Minha escolha de vida é baseada nisso. O Ret é do pichador [era a tag que ele usava para marcar os muros]. Eu não quis ser o Filipe que ia trabalhar com algo burocrático. Eu escolhi o Ret, escolhi a rua”.
Ret, porém, beira a contradição ao reconhecer que a questão racial atravessa a cena do rap. “Pode ser que alguns não me ouçam por isso. Eu, por exemplo, não ouço rapper branco. Isso é foda de colocar, porque é polêmico pra caralho. Mas eu evito fazer ‘feat’ também, talvez porque eles não tenham se provado o suficiente”.
Outro projeto em andamento deve ampliar a reflexão sobre sua trajetória. Ret está gravando um documentário biográfico dirigido por Emílio Domingos. Ao falar do filme, Ret esboça um desejo de organização da própria trajetória —uma narrativa que começa antes dele. “Eu gostei dessa ideia que tive agora durante essa conversa, de mostrar essa história que vem desde o funk, de contar a história do rap lá do início”.