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Filmes brasileiros do século analisam a segurança pública – 13/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O que primeiro chama a atenção neste ranking sobre os filmes brasileiros mais estimados do século 21 é que os três mais votados são obras que podemos chamar, genericamente, “de segurança pública”, apesar de suas diferenças.

O filme mais votado foi “Cidade de Deus”. Ele nos remete ao começo do século, quando teve a originalidade de deixar de lado o já então envelhecido lugar-comum do cinema brasileiro, segundo o qual todo banditismo é derivado de uma ordem social injusta. Não é bem assim, sustenta “Cidade de Deus”, ao lembrar que o bandido é, antes de tudo, um bandido, que pode ser mau, degenerado.

Esse bandido mau, Zé Pequeno, papel de Leandro Firmino, era preto e favelado. Confrontava outro personagem negro —o Buscapé de Alexandre Rodrigues— que superava as dificuldades para se tornar um “bom cidadão”. A ideia é tão duvidosa quanto o lugar-comum anterior —qualquer um pode evitar a criminalidade e as balas da polícia do Rio de Janeiro, desde que se disponha a isso.

Seu complemento, “Tropa de Elite” —em 22º lugar na lista—, não teve a mesma acolhida na enquete, mas na época chegou a um público maior, aquele que postulava a formação de uma polícia violenta, que abandonasse ela também o banditismo —a bandeira do Capitão Nascimento, o protagonista vivido por Wagner Moura.

Logo se veria que isso não passava mesmo de ficção —ou de ilusão, mais precisamente. Em todo caso, podemos especular se esse tipo de filme até consagra massacres como o do Carandiru —para lembrar o filme de Hector Babenco, que ficou em 18º lugar.

A opção pelos filmes “de segurança pública” mostra que, para a parcela da sociedade representada nesta enquete, nosso problema central deixou de ser a sexualidade, ao contrário do que acontecia nos últimos 30 ou 40 anos do século passado, a era de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e de tantas pornochanchadas dos anos 1970.

O sexo caiu em desuso, junto com as mudanças de costumes —em compensação, o feminicídio está desgraçadamente à solta. A memória da década de 1970 que sobrevive é a dos anos de ditadura. Ela ressurge em filmes de grande repercussão, ainda que impulsionados em boa parte pela sua boa acolhida no exterior —turbinados sobretudo pelas recentes indicações ao Oscar, prêmio também disputado por “Cidade de Deus” há 22 anos.

A ditadura está presente, por diferentes vias, em dois filmes muito bem cotados —“Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, em segundo lugar, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, em terceiro. O período também serve de pano de fundo que impulsiona as metáforas de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, em 34º lugar. E, ainda que indiretamente, “O Invasor”, em 20º, poderia entrar nessa categoria, pela forma como Beto Brant vê as heranças dessa violência no Brasil de 2001.

À parte a “segurança pública”, a enquete traz outros sinais. Rompe nosso velho hábito de desprezo pelo documentário, pondo dois filmes de Eduardo Coutinho em destaque —”Edifício Master” e “Jogo de Cena”, em quarto e quinto lugares. Okay, ele é um cineasta especial, mas os autores de “Santiago”, em 11º, e “Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo”, 29º, menos. E estão bem na fita. Os filmes engajados estão rareando, mas têm dois representantes fortes —”Que Horas Ela Volta?”, em nono, e “Bicho de Sete Cabeças”, 17º.

Outros evitam o engajamento para melhor mostrar sujeitos contemporâneos, como a família negra de “Marte Um”, em 12º, ou os boias-frias errantes de “Arábia”, em 23º. Há ainda dois desviantes fundamentais —Adirley Queirós, de “Branco Sai, Preto Fica”, em 30º, e “Mato Seco em Chamas”, assinado com Joana Pimenta, em 21º; e André Novais Oliveira, de “O Dia que Te Conheci”, 29º, e “Temporada”, em 37º, produções pequenas notáveis pela invenção.

Vemos muitos nordestinos, motores do ressurgimento do filme brasileiro na era pós-Collor. A Bahia de Sérgio Machado, o Ceará de Karim Aïnouz e, sobretudo, Pernambuco, com Marcelo Gomes, Hilton Lacerda e Kleber Mendonça Filho —este com quatro longas. Com filmes de Goiás, Rio Grande do Sul e outros estados, enfim, o século descentralizou o domínio de Rio de Janeiro e São Paulo.

Se o cinema novo parece não trazer quase nada de novo, os antigos marginais estão bem representados pelos trabalhos finais de Rogério Sganzerla —”O Signo do Caos”—, Carlos Reichenbach —”Falsa Loura”—, além de Julio Bressane, com “Filme de Amor”. Estão na mesma balada de Paula Gaitán, com “Luz nos Trópicos”.

Entre esses, é necessário destacar “Serras da Desordem”, em oitavo, no qual Andrea Tonacci traz à luz a questão indígena. Um falso documentário sobre o único sobrevivente de um massacre, e que inquire os brancos e o cinema.

Ausência notável é a do filme de grande bilheteria. O século 21 foi marcado por vários sucessos nesse setor, mais importante para a existência de um cinema nacional do que se possa imaginar.

Como quem não quer nada —exceto encher os bolsos—, ele ilustra muito do nosso machismo, racismo e autoritarismo. Figuras que o cinema mais intelectualizado tenta exorcizar, mas que ressurgem em comédias só falsamente inocentes e, quase sempre, péssimas.

Alguns exemplares valem a pena, como certas comédias de Paulo Gustavo, de “Minha Mãe É uma Peça”, Daniel Filho, com “Se Eu Fosse Você”, a chanchada de Halder Gomes, “Os Parças”, a comédia caipira “Divórcio”, de Pedro Amorim, ou o feminismo de “De Pernas pro Ar”, que, apesar dos pesares, pôs em destaque Ingrid Guimarães.

São todos exemplos “off-lista”, é claro, mas ilustram o quanto nossos olhos, acostumados apenas a ver o que está à nossa frente, deixam de ver o que existe no lado de trás. É para isso, aliás, que chama a atenção o menino fotógrafo do genial “As Coisas Simples da Vida”, trabalho do taiwanês Edward Yang —um filme de 1999.

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