São Paulo
A peça “A Última Sessão de Freud” faz nova temporada em São Paulo. Em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca até 26 de abril, a produção simula um encontro entre o psicanalista Sigmund Freud e o escritor C.S. Lewis, autor de “As Crônicas de Nárnia“.
Dois pensadores importantes, eles discutem sobre religião de pontos de vista opostos: o primeiro é ateu, o segundo acaba de se converter à fé cristã.
A montagem brasileira dirigida por Elias Andreato está na oitava temporada na capital paulista. Tem Odilon Wagner como Freud e Marcello Airoldi como Lewis.
Odilon Wagner e Marcello Airoldi em cena da peça ‘A Última Sessão de Freud’
–
João Caldas/Divulgação
Desde a estreia no Itaú Cultural, em março de 2022, a produção percorreu 40 cidades brasileiras, fez 370 apresentações e alcançou um público de mais de 170 mil espectadores —um feito raro no teatro atual. Só na capital paulista já passou também pelos teatros Porto, Bravos e Vivo.
“A Última Sessão de Freud” se baseia no livro “Deus em Questão”, de Armand Nicholi, professor de psiquiatria de Harvard que colocou lado a lado os argumentos contrastantes de Freud e Lewis sobre religião.
Na obra literária, no entanto, as ideias não são debatidas, mas descritas. A transformação do texto em um debate foi criação do dramaturgo americano Mark St. Germain. Por isso, no palco, o espetáculo se desenrola em um confronto de ideias, com Freud e Lewis frente a frente.
Na trama, o psicanalista quer entender como o amigo, antes ateu, se converteu em um defensor da fé cristã. “Freud era ateu, mas não do tipo ‘não acredito em nada, deixa para lá, eu vou seguir minha vida’. Religião era uma questão para ele”, diz Wagner.
Lewis, por sua vez, defende sua fé à luz da racionalidade, da lógica e do pensamento crítico. Em determinado momento do espetáculo, questiona o motivo da discussão, já que Freud parece irredutível em sua descrença.
“Freud era extremamente racional, mas não era avesso à espiritualidade. Ele tinha um desejo do conhecimento do sagrado”, afirma o ator que interpreta o psicanalista. A curiosidade e disposição de argumentar leva os protagonistas a um debate sem vencedores.
A premissa da peça é justamente essa: um elogio ao diálogo e ao embate de ideias —um contraponto à polarização que sequestra as divergências de opinião na atualidade.
Tudo acontece no mesmo cenário, o escritório do psicanalista, em um diálogo de uma hora e meia, sem efeitos especiais, grandes mistérios e reviravoltas. Ainda assim, a peça segue com sessões cheias e entrou no quinto ano em cartaz.
O sucesso, segundo Wagner, vai além do importante papel que Freud e Lewis têm na história mundial. “É um texto que fala de temas fundamentais do ser humano de uma maneira acessível e com bom humor —tem momentos na peça nos quais a plateia gargalha”, diz.
O cenário da vida real também tem seu papel na adesão do público: o mundo de agora lembra o que existe como pano de fundo do espetáculo. O encontro dos protagonistas acontece no dia em que começa a Segunda Guerra Mundial, em 1939.
“Quando a gente estava ensaiando, começou a guerra da Ucrânia“, diz Wagner. Em uma reestreia na capital paulista em 2023, o elenco subiu ao palco dias após o início do conflito entre Israel e Hamas. Na nova temporada da peça, repercute o confronto que envolve Estados unidos, Irã e Israel.
Em complemento à encenação, a produção da peça realiza debates sobre religião abertos ao público em cada cidade que passa. Além do elenco, participam representantes religiosos e psicanalistas.
A Última Sessão de Freud
Dir.: Elias Andreato. Com: Odilon Wagner e Marcello Airoldi. 14 anos.
Teatro Sabesp Frei Caneca – r. Frei Caneca, 569, Consolação, região central. Até 26/4. Sex., às 20h. Sáb., às 17h e às 20h. Dom., às 17h. Ingr.: a partir de R$ 50 em Uhuu