“Durante o meu doutorado, ouvi homens dizendo que eu não devia fazer assim, que não vai dar certo, e que devia fazer de outro jeito. Tive que teimar”, conta Gabriela Dias Noske, 28, bióloga estrutural e pesquisadora do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do Centro Nacional para Pesquisa com Energia e Materiais (CNPEM) em Campinas, no interior paulista.
A presença em ambientes masculinizados foi um desafio imposto desde a graduação em ciências físicas e biomoleculares pela USP São Carlos. “Em uma turma de 18, 20 alunos, só tinha uma, no máximo duas mulheres. E era um ambiente muito masculino, quase todos os professores eram homens, diziam para ‘uma mulher ir [até o quadro] resolver o exercício, pois mulheres têm mais dificuldade para entender as coisas’”, lembrou ela, em entrevista concedida na última quinta (5).
Desde a infância, Gabriela é fascinada por tudo que envolve o universo científico. “Minha diversão quando pequena era misturar substâncias daqueles kits de química e, depois, quando acabava, para o desespero dos meus pais, os produtos da lavanderia.”
Ela teve uma trajetória expoente na área de biologia estrutural, passando da graduação, em 2018, para um doutorado direto, concluído em 2023, que lhe rendeu o Grande Prêmio Capes de Tese na área de exatas em 2024, uma honraria cedida a apenas três alunos (um de cada área) por ano.
No curso de física biomolecular, interessou-se tanto pela física teórica quanto pela aplicação dos conceitos à biologia. Percebeu, porém, que o conteúdo do curso era muito mais sobre física pura. Por essa razão, foi atrás de uma área que a aproximasse mais da interseção entre as duas áreas. Na pandemia, sua tese integrou um projeto de pesquisa para identificar as proteases (enzimas que quebram proteínas) capazes de inibir a ação do Sars-CoV-2 e, assim, gerar potenciais fármacos. “Foi muito gratificante usar o meu conhecimento para auxiliar a sociedade.”
O emprego de técnicas de cristalografia de raios X e de criomicroscopia eletrônica a levou a integrar a equipe de pesquisadores do Laboratório Nacional de Nanotecnologias (LNNano) do CNPEM. Há seis meses, migrou para o LNBR. “Hoje, não utilizo tanto a parte teórica da física, utilizo mais a parte aplicada, tanto da cristalografia de raios X quanto da criomicroscopia eletrônica, que são duas técnicas que se baseiam fundamentalmente em conceitos físicos.”
Atualmente, sua pesquisa se concentra na otimização de um fungo filamentoso (Trichoderma reesei) utilizado na indústria para degradação da celulose. Todo dia, Gabriela chega ao seu local de trabalho, toma uma xícara de café, veste o jaleco e luvas e parte para o laboratório onde extrai proteínas desse fungo para a produção de coquetéis enzimáticos utilizados na produção de bioetanol. “Busco entender a estrutura das enzimas do fungo para otimizar esse processo, isto é, conseguir formar uma cadeia proteica mais eficiente na quebra de carboidratos vegetais para produção do bioetanol.”
Para conseguir analisar toda essa estrutura em nível molecular, Gabriela utiliza uma das linhas de luz do Sirius, o maior acelerador de partículas do país. “Utilizo o acelerador para fazer a técnica de difração de raios X, isto é, eu começo a produção da proteína a partir de um gene inserido em uma bactéria que vai produzir a cadeia de aminoácidos. Depois, eu transformo essa proteína de interesse em cristais, congelo-os em nitrogênio e coloco na luz síncrotron –esse feixe de luz que vai me dar a estrutura exata da proteína e entender seu funcionamento biológico.”
Segundo ela, o ambiente do CNPEM é muito acolhedor, bem diferente do que enfrentou durante a graduação em São Carlos. “O que eu percebo, hoje, no entanto, é que a grande maioria dos cargos de liderança ainda são ocupados por homens. Parece que as mulheres cientistas têm de trabalhar muito mais e demonstrar mais que são capazes de chegar ao mesmo lugar que um homem alcança.”
Entre as figuras que a inspiraram para seguir na carreira científica estão a física polonesa naturalizada francesa Marie Curie (1867-1934), que descobriu elementos radioativos, e a química britânica responsável pela descoberta da dupla hélice do DNA Rosalind Franklin (1920-1958).
Quando for coordenadora do seu próprio laboratório, Gabriela espera poder selecionar candidatas mulheres para mitigar as diferenças que viu na ciência. “Se tiver dois pré-candidatos com as mesmas qualificações e atribuições e um for um homem e o outro mulher, farei essa escolha justamente para dizer à candidata ‘você é capaz e nós podemos fazer o que quisermos’.”