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Governo Trump vê CV e PCC como ameaças para região – 10/03/2026 – Cotidiano

by Silas Câmara

O governo de Donald Trump considera que as facções criminosas brasileiras CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) são ameaças significativas à segurança regional devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas, a violência e o crime transnacional.

A descrição é de um porta-voz do Departamento de Estado, que tem função semelhante ao Ministério das Relações Exteriores. De acordo com uma reportagem do UOL, Washington já decidiu classificar as facções como terroristas.

Em nota à Folha, a pasta não descarta a possibilidade, mas afirma que não antecipa possíveis designações de terrorismo e nem deliberações “relacionadas a essas designações”. “Estamos plenamente comprometidos em tomar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros que se envolvam em atividades terroristas”, diz o departamento.

O governo Lula (PT) trabalha para evitar esta classificação, que já vem sendo estudada desde o ano passado. À Folha, uma autoridade brasileira que se encontrou com integrantes do governo Trump disse que os americanos estiveram no Brasil no ano passado para coletar informações sobre as facções.

Segundo este funcionário, os americanos não deram espaço para o Brasil apresentar qual a sua interpretação em relação ao terrorismo e solicitaram informações a respeito do funcionamento das facções. Por isso, a mudança na classificação não é considerada uma surpresa na gestão Lula.

Nos Estados Unidos, a reportagem conversou com três funcionários que trabalham na diplomacia brasileira e solicitaram anonimato. Eles disseram que o principal objetivo do governo Trump é combater a lavagem de dinheiro dentro do território americano.

Investigações apontam também a participação de integrantes das facções brasileiras no tráfico de drogas nos Estados Unidos.

Flórida e Massachusetts são os estados com a maior presença de membros das duas facções —são também os que concentram a maior parcela da população brasileira em solo americano.

Lula disse nas últimas semanas que pretende visitar Trump, em Washington, mas ainda não há data para que isso aconteça. A expectativa é que o tema possa ser debatido na conversa.

O presidente brasileiro disse diversas vezes que quer negociar com o homólogo americano um projeto que apresentou ao Departamento do Estado para que os dois países combatam o crime organizado em parceria. De acordo com uma pessoa ligada ao governo americano, Washington recusou a proposta porque ela classifica as facções como narcoterroristas.

Apesar dos esforços do governo federal, no ano passado, parlamentares e governadores da direita brasileiros solicitaram ao governo Trump a classificação do Comando Vermelho como grupo terrorista. O governo Cláudio Castro (PL) chegou a enviar um documento para Washington com o pedido. A facção tem oirgem no Rio de Janeiro.

A possível decisão dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras como terroristas teria efeitos práticos limitados, segundo avaliação de Douglas Farah, especialista em crime transnacional, que assessorou o Departamento de Estado durante os governos de Barack Obama, Joe Biden (ambos democratas) e o primeiro mandato de Donald Trump (que é do Partido Republicano).

Para ele, a medida ampliaria principalmente as ferramentas legais e de inteligência disponíveis para autoridades americanas, permitindo monitorar movimentações financeiras, rastrear integrantes e aplicar sanções. No entanto, o impacto direto sobre esses grupos seria restrito, já que eles não têm presença significativa nem estruturas financeiras formais dentro do território americano.

Na avaliação do especialista, há também um risco de banalização do uso da categoria “terrorismo”. “Se tudo passa a ser classificado como organização terrorista, nada mais é de fato terrorismo”, afirma.

Ele argumenta que facções como PCC e CV se enquadram mais claramente na lógica do crime organizado: utilizam violência para controlar mercados ilegais, mas não têm como objetivo central produzir terror com fins políticos ou atacar os Estados Unidos, como ocorreu com grupos como a Al-Qaeda, responsável pelo 11 de Setembro.

Farah ressalta ainda que a designação não abriria automaticamente caminho para operações americanas em território brasileiro. Qualquer ação desse tipo dependeria da autorização do governo brasileiro, algo que ele considera improvável no atual contexto político.

“Mesmo quando houve operações contra cartéis em outros países, os EUA fizeram questão de apresentá-las como ações conjuntas com os governos locais”, diz. No caso do Brasil, uma intervenção unilateral teria alto custo diplomático e econômico, dado o peso do país na região.

Para ele, a tendência mais provável é que uma eventual designação gere repercussão política e midiática no curto prazo, mas com poucas mudanças concretas no combate às facções.

O especialista também vê na atual política externa americana uma tentativa de militarizar novamente o combate ao narcotráfico, estratégia que ganhou força nos anos 1980 e que, segundo ele, produziu resultados limitados e efeitos colaterais graves, como violações de direitos humanos e aumento da influência política das Forças Armadas em países da região.

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