As empresas petrolíferas dos Estados Unidos devem receber uma receita extra superior a US$ 60 bilhões (R$ 315 bilhões) neste ano caso os preços do petróleo se mantenham nos níveis alcançados com o início da guerra com o Irã.
Projeções do banco de investimentos Jefferies estimam que as produtoras americanas vão gerar US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões) adicionais em fluxo de caixa só neste mês, após alta de cerca de 47% nos preços do petróleo desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
Se o barril do petróleo americano permanecer elevado e registrar média de US$ 100 ao longo do ano, as empresas receberão um impulso de US$ 63,4 bilhões (R$ 333 bilhões), segundo a consultoria de energia Rystad.
Com o barril do Brent superando US$ 100 na quinta-feira (12), o presidente Donald Trump se vangloriou em uma publicação nas redes sociais: “Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo. Então, quando os preços sobem, ganhamos muito dinheiro.”
O índice West Texas Intermediate, seguido como referência pelos americana, fechou a US$ 98,71 o barril na sexta-feira (13).
O fluxo de caixa adicional deve beneficiar as empresas de xisto americanas, com atuação limitada no Oriente Médio. O cenário é mais complexo, porém, para as maiores companhias internacionais do setor.
ExxonMobil e Chevron, assim como as europeias BP, Shell e TotalEnergies, têm ativos espalhados pelo Golfo Pérsico e são mais afetadas pelo fechamento do Estreito de Hormuz. A produção foi interrompida em diversas instalações nas quais algumas dessas cinco empresas dominantes do mercado petroleiro têm participação acionária, o que forçou a Shell a suspender, sob a alegação de motivos de força maior, a entrega de carregamentos de gás natural liquefeito que planejava embarcar pela planta Ras Laffan, da QatarEnergy.
As dificuldades de operar na região ficaram evidentes na quinta-feira, quando a SLB —antiga Schlumberger e maior empresa de serviços petrolíferos do mundo— comunicou os acionistas que revisaria suas projeções de lucro para baixo.
Martin Houston, veterano do setor e presidente da Omega Oil and Gas, afirmou: “Não há vencedores nessa situação —e certamente não são as companhias internacionais de petróleo. Elas prefeririam o status quo de duas semanas atrás a uma crise que eleva temporariamente os preços.”
“As empresas nacionais de petróleo do Oriente Médio e seus parceiros terão de reconstruir infraestruturas danificadas. Mas a grande preocupação é o fechamento sem precedentes do estreito, mesmo que por um curto período”, acrescentou.
Uma solução rápida para a crise não parece estar próxima. O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou na quinta-feira que as forças militares do país manterão fechado o estreito —por onde passa um quinto do petróleo e do gás mundiais— enquanto busca ampliar sua margem de pressão sobre os Estados Unidos e Israel.
Cerca de 18 milhões dos 20 milhões de barris de petróleo que normalmente transitam diariamente pelo estreito continuam bloqueados, segundo pesquisa do Goldman Sachs. O impacto é ainda mais grave para o setor de GNL (gás natural liquefeito), com aproximadamente um quinto da produção global paralisada.
O banco RBC Capital Markets afirmou na sexta-feira que espera que o conflito se prolongue até a primavera no hemisfério norte e que o Brent pode superar US$ 128 (R$ 672,44) o barril em três a quatro semanas.
Thomas Liles, da Rystad, disse: “O fechamento do estreito vai prejudicar as companhias nacionais de petróleo do Oriente Médio, enquanto as grandes petrolíferas ocidentais —que respondem por cerca de 20% da produção upstream total no Catar, nos Emirados Árabes Unidos, no Iraque e na zona neutra entre a Arábia Saudita e o Kuwait— também podem sofrer impactos significativos.”
BP e Exxon estão entre as mais expostas à crise no Oriente Médio: mais de um quinto do fluxo de caixa livre que devem gerar em 2026 com operações globais de petróleo e GNL vem da região. O equivalente para a TotalEnergies é de 14%, enquanto Shell e Chevron registram 13% e 5%, respectivamente, segundo a Rystad.
As supermajors expandiram recentemente sua presença na região, firmando acordos na Síria, na Líbia e em outros países, na busca por ampliar reservas e aumentar a produção.
A Total informou em atualização comercial na sexta-feira que o preço mais alto do petróleo “mais do que compensa a perda de produção no Oriente Médio”.
O presidente-executivo da Exxon, Darren Woods, disse ao FT na terça-feira (10) que a empresa está se adaptando ao fechamento da “principal fonte de abastecimento mundial”, mas alertou que a situação afetará todos os players do setor. “Acredito que nosso porte e escala nos deram alguma vantagem em termos de abastecimento. Estamos otimizando nossas operações”, afirmou.
Analistas disseram que a exposição da Exxon ao abastecimento do Oriente Médio explica, em parte, por que suas ações ficaram atrás das concorrentes desde o início da crise, com alta de apenas 2%, a US$ 156,12 (R$ 820,17). No mesmo período, os papéis de BP e Shell subiram 11% e 9%, respectivamente, refletindo a aposta dos investidores de que as divisões de trading das majors europeias se beneficiariam da volatilidade nos preços do petróleo e do gás.
“O preço das ações não reflete apenas o próximo trimestre ou dois”, disse Christopher Kuplent, analista do Bank of America, observando que o mercado espera que os preços do petróleo recuem para US$ 75 (R$ 394,01) “em questão de meses, não de anos”.
As ações da norueguesa Equinor subiram mais do que as das demais majors ocidentais desde o início do conflito porque a empresa não tem exposição ao Oriente Médio. A companhia também é uma das principais fornecedoras de gás para a Europa, onde os preços dispararam após a QatarEnergy suspender as entregas de GNL na semana passada.
Entre outras empresas de energia com forte valorização estão refinadoras como Neste e Repsol, após o corte no fornecimento de combustível de aviação e outros derivados provenientes do Oriente Médio.
“Qualquer player sem muitos ovos na cesta do Oriente Médio tende a se beneficiar dos preços mais altos”, disse Liles.