O agravamento da guerra no Oriente Médio, com os primeiros ataques a instalações de petróleo e gás na região, joga ainda mais pressão por novo reajuste no preço do diesel nas refinarias da Petrobras, que voltou a operar com defasagem superior a R$ 2 por litro.
Nesta quinta-feira (19), após uma noite de ataques sobre instalações no Irã, na Arábia Saudita e no Qatar, a cotação do petróleo Brent chegou a bater US$ 119 por barril, caindo depois para perto de US$ 110.
Para analistas do Morgan Stanley, as cotações permanecerão em alta enquanto o fluxo do estreito de Hormuz for restrito e podem bater o recorde de 2008 (perto de US$ 150 por barril) em caso de grandes disrupções na produção no Oriente Médio.
Analistas e empresas do setor dizem que, nesse cenário, novo reajuste da Petrobras é fundamental para garantir o suprimento nacional, embora o governo tenha lançado um programa de subvenção para compensar parte das perdas do setor.
“Embora a Petrobras seja a líder incontestável no mercado doméstico, ela não consegue, fisicamente, atender a 100% da demanda de diesel do Brasil”, escreveram analistas do Scotiabank em relatório divulgado nesta quinta.
“O mercado, estruturalmente, exige um grupo competitivo de importadores independentes para suprir esse déficit. Quando a Petrobras mantém os preços artificialmente baixos, isso afeta a arbitragem desses agentes independentes, praticamente paralisando suas operações.”
Na abertura do mercado desta quinta, o preço do diesel nas refinarias da Petrobras estava R$ 2,41 por litro mais barato do que a paridade de importação medida pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). Na gasolina, a diferença era de R$ 1,30 por litro.
O presidente da Abicom, Sergio Araújo, diz que os ataques recentes não afetam a oferta de combustíveis no curto prazo. “Por enquanto tem produto. O problema é que o preço sobe cada vez mais.” A entidade é signatária de uma carta entregue ao governo cobrando reajustes.
Araújo diz que, com as defasagens atuais, o programa de subvenção a produtores e importadores criado pelo governo tem efeito limitado. O plano vai pagar R$ 0,32 a cada litro de diesel vendido abaixo de um preço estabelecido pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis).
“Se a Petrobras ficar com preço muito abaixo da referência da ANP, vai causar distorção no mercado”, afirmou. “A gente vai buscar produto [no exterior], mas a competição vai ser desleal.”
O mercado reclama de demora da ANP em definir o preço de referência, que poderia trazer mais segurança para a retomada das importações. Entre o pedido e a chegada das cargas, diz Araújo, são necessários de 20 a 30 dias.
A reportagem procurou o MME (Ministério de Minas e Energia) e a ANP para saber se há avaliações dos riscos ao abastecimento após a escalada do conflito para ataques a instalações de petróleo, mas eles não responderam até a publicação desta reportagem.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem repetido que a empresa não quer repassar volatilidades internacionais ao consumidor brasileiro e segue avaliando o mercado. Afirma também que a empresa tem trabalhado para ampliar a oferta de diesel ao país.