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Guerra no Irã atinge patrimônio cultural; Unesco dá alerta – 12/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Na cidade de Isfahan, no Irã, ataques aéreos israelenses danificaram várias das joias culturais mais preciosas do Irã, informou o Ministério da Cultura e do Patrimônio do país. O Palácio Ali Qapu e o palácio e jardim Chehel Sotoun, que datam da dinastia Safávida do século 17, sofreram danos graves, conforme mostram fotos e vídeos divulgados pelo ministério.

As ondas de choque de segunda-feira (9) também fizeram os azulejos turquesa da icônica Mesquita Jameh desabarem, com fotografias do ministério mostrando uma enorme coluna de fumaça subindo por trás da mesquita. A mesquita, com seus minaretes de cores vibrantes e cúpulas cobertas de caligrafia persa, é reconhecida como uma joia da arquitetura persa e islâmica.

Os ataques a Isfahan na segunda-feira ocorreram uma semana após outro ícone cultural, o Palácio Golestan, ter sido gravemente danificado durante um ataque a uma delegacia de polícia no centro de Teerã, segundo o ministério. O Palácio Golestan data do século 14 e acabou se tornando a sede da dinastia Qajar. Seu famoso salão de espelhos foi destruído, e seu jardim simétrico ficou coberto de escombros, mostram fotos e vídeos.

Os ataques militares israelenses em Isfahan tinham como alvo o prédio do governador, localizado próximo à Praça Naqshe Jahan, de acordo com autoridades do governo iraniano. Muitos marcos culturais também estavam nas proximidades.

As imagens de renomados sítios históricos destruídos por mísseis deixaram muitos iranianos enfurecidos. Em entrevistas e publicações nas redes sociais, alguns questionam como uma guerra travada por Israel e Estados Unidos supostamente contra o governo e as forças militares da República Islâmica acabou danificando sua identidade cultural e seus patrimônios.

“Para mim, monumentos antigos são tão importantes quanto vidas humanas, porque me conectam ao meu passado”, disse Mojtaba Najafi, um acadêmico e pesquisador iraniano, em uma publicação. “E sua destruição significa que minha memória está sendo demolida.”

Uma porta-voz da Unesco, a agência das Nações Unidas que busca proteger a cultura mundial, disse que sua organização conseguiu verificar danos em vários patrimônios mundiais no Irã. Entre eles estão o Palácio Golestan; o pavilhão Chehel Sotoun do Jardim Persa; a Masjed-e Jameh de Isfahan; além de edifícios localizados próximos à zona de proteção dos sítios pré-históricos do Vale de Khorramabad.

“A Unesco está profundamente preocupada com relatos de destruição afetando sítios de patrimônio cultural no Oriente Médio, especialmente no Irã e em países vizinhos”, disse a porta-voz, Monia Adjiwanou.

Em comunicado na semana passada, a Unesco afirmou que “propriedades culturais são protegidas pelo direito internacional”. A organização disse ter contatado todas as partes no conflito iraniano e compartilhado as coordenadas geográficas dos sítios em sua lista de patrimônio mundial, bem como de símbolos nacionais. A esperança era que pudessem ser poupados.

“Esses sítios carregam memória histórica que transcende ideologias”, disse Naghmeh Sohrabi, professora de história do Oriente Médio e diretora de pesquisa do Centro Crown para Estudos do Oriente Médio da Universidade Brandeis. “São monumentos vivos à beleza e à criação, não apenas para os iranianos, mas para todos nós no mundo.”

No domingo, um antigo castelo no topo de uma colina e quartéis militares que datam da era Sassânida da Pérsia, dos anos 220 a 650 d.C., foi gravemente danificado em um ataque aéreo, segundo o Ministério da Cultura e Turismo do Irã, que afirmou que Israel atacou os escritórios locais do ministério na província. O castelo, conhecido como Castelo Shapur Khast e Falak ol-Aflak, fica em Khorramabad, na província de Lorestan.

O ministério disse que os ataques tiveram como alvo o Ministério da Cultura de Lorestan, destruindo o prédio, e que as explosões danificaram o castelo e dois museus.

A mesquita, os dois palácios na Praça Naqshe Jahan de Isfahan e o Palácio Golestan em Teerã estão listados como patrimônios mundiais da Unesco, com o objetivo de protegê-los de alterações. O castelo está na lista de patrimônios culturais do Irã.

O Ministério da Cultura e do Patrimônio do Irã disse ter instalado bandeiras azuis, seguindo o protocolo internacional de guerra, em todos os seus sítios culturais e patrimoniais para sinalizar aos jatos israelenses e americanos que eram protegidos. Mas sem sucesso.

O exército israelense disse que não atacou esses sítios culturais diretamente. Mas não respondeu a perguntas sobre danos a sítios culturais resultantes de ataques a alvos próximos.

Em Isfahan, a onda de choque reverberou por toda a Praça Naqshe Jahan. A praça de 89.560 metros quadrados, construída em 1598 durante o império Safávida, é conhecida pelo majestoso jardim verde em seu centro e pelo labirinto de seu bazar, além de seus imponentes palácios, com cúpulas turquesa e minaretes adornados com caligrafia persa.

No palácio Ali Qapu e Chehel Sotoun, vídeos e imagens da televisão estatal mostraram murais pintados derrubados no chão, azulejos florais quebrados em pedaços, painéis de madeira entalhados à mão arrancados e pendurados nas paredes e tetos. Pequenos espelhos que haviam sido dispostos em estrelas e hexágonos ornamentados se estilhaçaram pelo chão.

Um vídeo verificado pelo New York Times mostra a destruição do Chehel Sotoun, um palácio do século 17 com um complexo de jardim persa. Ali, as 20 colunas do palácio são refletidas em uma piscina rasa azul no jardim, criando a ilusão de 40, o que explica o nome. Em persa, chehel sotoun significa 40 colunas.

Os ataques estão danificando sítios que permaneceram de pé através das turbulências da história. Sobreviveram a séculos de diferentes monarcas, invasões, golpes, a Segunda Guerra Mundial, a Revolução Islâmica, uma guerra de oito anos com o Iraque e ondas de levantes contra o governo atual.

Os iranianos estão reagindo com indignação, tristeza e medo.

“O que aconteceu com as alegações de que esta era uma guerra contra o regime e não contra o Irã e seu povo?”, perguntou Laleh, uma mulher de 36 anos de Teerã, contatada por telefone. “Eles estão mentindo.”

Isfahan é a cidade natal de Nasim Alikhani, proprietária e chef iraniano-americana do aclamado restaurante persa Sofreh, em Nova York. Alikhani disse que ficou devastada quando soube dos ataques a Isfahan.

“A Praça Naqshe Jahan de Isfahan não é apenas um extraordinário sítio histórico —é o coração e a alma de todo iraniano”, disse ela em entrevista. “Sobreviveu a inúmeras invasões, mas não sobreviveu à brutalidade desta guerra injusta. Esses lugares não pertencem apenas aos iranianos— pertencem à humanidade, e sua destruição jamais deve ser aceita.”

Muitos consideram Isfahan a cidade mais mágica do Irã. Em persa, é frequentemente chamada de “Isfahan, Nesefeh Jahan” —significando que Isfahan é metade do mundo. Uma ode à cidade de um cantor pop iraniano, Moein, é presença garantida para cantar junto em festas e reuniões familiares iranianas.

A Sociedade do Crescente Vermelho do Irã disse na terça-feira que, desde o início da guerra em 28 de fevereiro, quase 10.000 estruturas civis foram destruídas ou danificadas em ataques aéreos. Dessas, disse, 7.493 eram residenciais; 1.617 comerciais; 32 instalações médicas e farmacêuticas; 65 escolas e locais educacionais. Treze, disse, pertenciam ao Crescente Vermelho.

E agora pelo menos seis joias culturais: Praça Naqshe Jahan, Mesquita Jameh, Palácio Ali Qapu, Palácio e Jardim Chehel Sotoun, Palácio Golestan e Castelo Falak ol-Aflak.

O governador de Isfahan, Mehdi Jamalinejad, chamou os ataques à sua cidade de bárbaros. “Estão atacando os símbolos mais antigos de civilização do mundo com o armamento mais avançado”, disse ele em uma publicação nas redes sociais.

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