A guerra no Irã está fazendo com que os investidores globais puxem o freio de mão nas alocações em mercados emergentes.
A Bolsa de Valores brasileira derreteu mais de 3% nesta terça-feira (3), em linha com o movimento visto em México, Chile, Índia e China. Índices de mercados desenvolvidos, como europeus e norte-americanos, também tombaram em meio à procura por portos seguros para investimentos.
A estratégia, apelidada de “flight-to-safety” (fuga para a segurança), também tirou 4% do índice MSCI Mercados Emergentes –principal via de alocação nesse tipo de praça até então.
A aversão a ativos de risco já é esperada em momentos de elevada tensão e incerteza. E são esses os fatores que, se agravados ou prolongados, podem interromper de vez o fluxo de capital estrangeiro para mercados emergentes.
“Os ataques ao Irã foram totalmente inesperados. Nenhum analista conseguiria prever, dois meses atrás, que o aiatolá Ali Khamenei seria morto e que o conflito escalaria dessa forma”, diz João Ferreira, sócio da One Investimentos.
“Isso muda totalmente o cálculo de alocação e precificação de mercados em geral.”
Até então, a narrativa predominante era de diversificação de carteiras. Em meio às instabilidades causadas pela política externa, comercial e econômica de Donald Trump nos Estados Unidos, investidores globais estavam apostando em mercados menos expostos às incertezas e com alto potencial de retorno.
A aposta fez a Bolsa brasileira galgar patamares nunca antes vistos, indo de 160 mil pontos em 31 de dezembro de 2025 para recordes 191 mil pontos no final de fevereiro. O volume aportado por investidores estrangeiros em janeiro foi praticamente equivalente a todo o saldo do último ano.
Parte dessa tese tinha como catalisador, inclusive, tensões geopolíticas instigadas pelo governo Trump –como o desejo pela Groenlândia, território dinamarquês, e a operação na Venezuela que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.
“Se tivéssemos um termômetro de gravidade, a guerra no Irã estaria em um nível acima dessas últimas ocorrências”, diz Rodolfo Amstalden, sócio-fundador e CEO da Empiricus.
“Estamos falando de um contexto bélico, e já dá para perceber que não vai ter uma solução dentro de casa, como foi com a Venezuela. É aquele ditado: você sempre sabe como entra em uma guerra, mas nunca sabe como sairá. Por mais que o governo Trump tenha um planejamento de até cinco semanas de conflito, a verdade é que ninguém sabe onde isso vai dar.”
O principal receio, hoje, é de que a guerra cause disrupções prolongadas nos mercados de energia. O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, ou 3% da produção mundial, mas exerce influência ainda maior sobre o fornecimento da commodity devido à sua posição às margens do estreito de Hormuz.
O canal é a via por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e é, em grande parte, controlado pelo país persa. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel levaram o Irã a fechar o estreito, enquanto o Qatar suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
Desde o final de semana, o petróleo Brent, referência global, já subiu mais de 11%; o gás europeu, mais de 50%.
A preocupação é que, se o confronto no Oriente Médio se prolongar, os preços mais altos das commodities poderão provocar um repique inflacionário –sobretudo em países que já estão avançados nos ciclos de afrouxamento de juros, como os Estados Unidos.
A possibilidade tira atratividade de mercados emergentes e reposiciona o dólar no tabuleiro: antes em desvalorização globalmente, ele voltou a ser o porto seguro para investimentos diante da escalada de tensões. O índice DXY, que compara a moeda a seis outras divisas fortes, já subiu quase 1,5% desde segunda-feira.
Nesta terça-feira (3), o dólar fechou em forte disparada de 1,87% frente ao real, cotado a R$ 5,261. A moeda chegou à máxima de R$ 5,343 nesta sessão, um salto de quase 20 centavos em relação ao fechamento da véspera, de R$ 5,164.
Não significa que a moeda americana mudou de trajetória de longo prazo. A expectativa é que o dólar siga perdendo força nos próximos anos, mas não de forma linear.
“O dólar sempre tende a ser um porto seguro em momentos de estresse porque é a moeda de liquidez global e de reserva dominante. Se o conflito ficar mais contido, pode ser uma alta de curto prazo. Se for mais persistente, o dólar fica mais firme por mais tempo”, diz Adriana Ricci, fundadora, gestora e head de operações da SHS Investimentos.
“Não importa se a moeda está bonita ou feia. Quando o mundo quer liquidez, o dólar costuma ser o primeiro destino”, completa.
Mas, no curto prazo, é possível esperar uma interrupção no fluxo para emergentes até que as incertezas, ou parte delas, se dissipem. A duração e a intensidade do conflito são as variáveis que poderão reverter essa interrupção.
“Se tivermos um encerramento do conflito, com diminuição de riscos sobre a cadeia do petróleo, se não tivermos um repique de inflação no mundo e se o investidor estrangeiro voltar a ter apetite por emergentes, é possível que o fluxo volte. Mas olha quantos ‘se’ eu coloquei nessa frase”, diz João Ferreira, da One.
“Toda vez que temos muitos ‘se’, isso acaba denotando incerteza. E incerteza no mercado sempre reflete no preço.”