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Guerra no Irã: Inflação global pode ir de 2% para 6% – 25/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

Após atingir mais de 10% no final de 2022, devido a gargalos nas cadeias de suprimentos causados pela pandemia, cheques de estímulo generosos demais e um choque energético decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia, a inflação média nos países ricos caiu. No início deste ano, estava próxima de 2%. Os banqueiros centrais achavam que haviam derrotado o monstro inflacionário.

Porém, assim que viraram as costas, os olhos da fera se abriram novamente. A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã voltou a perturbar os mercados de energia. O fluxo de petróleo pelo estreito de Hormuz permanece cerca de 97% abaixo dos níveis normais, mesmo com Donald Trump tentando acalmar os mercados ao dizer que as hostilidades podem terminar em breve.

O Irã, em desvantagem frente aos inimigos, bombardeou usinas de gás natural. Os preços da energia dispararam. O preço do petróleo Brent, valor de referência mundial, está em torno de US$ 100,00 o barril (embora oscilando bastante), ante US$ 60,00 no início do ano. Os preços da gasolina nos EUA subiram.

Essas turbulências precisam piorar muito para provocar uma recessão global. Por outro lado, podem alimentar ainda mais a revolta popular com o custo de vida.

Em algum momento, o aumento do custo da energia faz a produção cair. As margens de lucro das empresas diminuem à medida que pagam mais por combustível e energia. Consumidores forçados a gastar mais com gasolina cortam gastos não essenciais. Um estudo recente da consultoria Oxford Economics estima que dois meses de preços do petróleo bruto a US$ 140 —com preços mais altos do gás natural— empurrariam partes da economia global para uma leve recessão.

Uma pesquisa com economistas feita pelo Wall Street Journal sugere que US$ 138 é o ponto de ruptura para os EUA. Muitas economias já pareciam prontas para uma desaceleração mesmo antes do caos no Oriente Médio começar. A confiança do consumidor está próxima de uma mínima histórica nos EUA, e não muito melhor em outros lugares.

Esse cenário pode ser pessimista demais. Pesquisas do Deutsche Bank mostram que o que importa é a variação nos preços do petróleo, não apenas o nível. A recessão americana de 1973 a 1975 foi tão profunda porque os preços do petróleo mais que triplicaram em pouco tempo. Em 2026, até agora, eles nem sequer dobraram. Steven Blitz, da empresa de consultoria TS Lombard, aponta que durante a contração induzida pelo petróleo em 1990, o preço do petróleo WTI (West Texas Intermediate) subiu 166%. Para provocar um choque comparável hoje, seria necessário chegar a US$ 175.

Além disso, a economia mundial entrou na crise energética em condições razoáveis. Os salários reais nas economias avançadas estão crescendo pelo menos 1% ao ano. No quarto trimestre de 2025, os lucros corporativos globais subiram 15% em termos nominais, em comparação com o ano anterior. Uma série de dados em tempo real sugere que, nos últimos meses, o crescimento no mundo rico acelerou.

Apesar das oscilações nos mercados de energia, poucos investidores estão em pânico com uma possível recessão. Indicadores produzidos pelo banco Goldman Sachs que combinam análises de ações, câmbio e outros ativos, sugerem que os investidores estão precificando uma desaceleração leve, não uma recessão.

No entanto, esse mesmo conjunto de dados indica que os investidores estão muito preocupados com a inflação. Medidas de expectativa baseadas no mercado estão disparando. Uma regra prática diz que um aumento sustentado de US$ 10 nos preços do petróleo eventualmente adiciona de 0,3 ponto percentual a 0,4 ponto percentual à inflação geral. Supondo que o petróleo permaneça em torno de US$ 100 o barril, a taxa média de inflação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) pode, portanto, subir acima de 4%. Caso o valor chegue a US$ 140, uma inflação de 5% a 6% não está fora de questão.

Mais preocupante: os bancos centrais podem estar menos aptos a responder a um choque inflacionário do que estavam em 2022. As empresas provaram a alguns anos que conseguem aumentar preços sem grandes consequências e podem repassar custos aos consumidores mais rapidamente desta vez do que em 2022 e 2023.

Os bancos centrais, por sua vez, podem se sentir limitados em elevar as taxas para combater qualquer surto inflacionário. Donald Trump pode ficar furioso se Kevin Warsh, sua escolha “dovish” (aberto a uma política monetária flexível) para liderar o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) começar o mandato apertando a política monetária.

Dados em tempo real nem sempre são confiáveis, mas podem indicar que a faísca da inflação está surgindo. O índice global de inflação da consultoria Alternative Macro Signals, que tem se mostrado um previsor útil dos números oficiais, subiu de forma acentuada recentemente. Se os padrões históricos se mantiverem, até julho a inflação global mensal pode estar acima de 0,6%. Isso equivale a mais de 7% de acúmulo anual.

A Truflation, outra consultoria que faz análises monetárias em tempo real, indicou crescimento da inflação americana de bens. Apenas no útlimo mês, a variação acumulada dos preços em um ano saltou de 1% para quase 3,5%. O motivo foi, quase em sua totalidade, a escalada no preço do petróleo.

Se os bancos centrais não cortarem outra crise do custo de vida pela raiz, os governos podem se sentir forçados a socorrer os cidadãos. Entre 2022 e 2023, lideranças europeias destinaram em média cerca de 3% a 4% do PIB para reduzir a disparada dos custos de energia e seu impacto em famílias e empresas.

As medidas ajudaram os mais pobres da Europa a evitar privações severas, mas geraram um custo fiscal enorme. Além disso, pessoas ricas —os maiores consumidores de energia e os que menos precisavam de ajuda— foram as mais beneficiadas, uma vez que boa parte dos gastos não foi direcionada à população mais pobre.

Os governos tomarão medidas mais focalizadas desta vez? Em tempos de raiva populista e políticos gastadores, não é possível contar com isso. A consequência econômica mais duradoura da guerra no Oriente Médio pode ser agravar os problemas fiscais do mundo rico.

Texto de The Economist, traduzido por Guilherme Weffort, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

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