Home » Hapvida paga preço do crescimento a qualquer custo – 12/04/2026 – Marcos de Vasconcellos

Hapvida paga preço do crescimento a qualquer custo – 12/04/2026 – Marcos de Vasconcellos

by Silas Câmara

Os planos de saúde já estão como as impressoras: é raro encontrar quem elogie o que tem. E um, em particular, está em uma crise sem precedentes, que causa tremor no mercado financeiro e põe em xeque o modelo de negócio que vigorava até então no setor.

Falo da Hapvida, gigante dos planos de saúde, fruto de uma fusão que prometia gerar valor, mas que, nos últimos cinco anos perdeu praticamente 95% do seu valor de mercado. A empresa cresceu no mundo real, mas, na avaliação dos investidores, ela vale, hoje, 5% do que valia em 2021.

Nos últimos dias, a Hapvida trocou seu CEO, Jorge Pinheiro Koren de Lima, que estava na cadeira há nada menos do que 27 anos. Ele assumiu o posto em 2001, filho mais velho do fundador da empresa, Candido Pinheiro Koren de Lima.

Mas foi em 2018 que a empresa deu o seu grande salto: abriu capital na Bolsa de valores, o famoso IPO. E entrou na onda do crescimento voraz, comprando concorrentes e cobrando mais barato, criando um gigante de pés de barro. Um modelo que não para em pé.

Na última semana, além de trocar de CEO, a empresa sinalizou que pode vender parte da operação e começou a cobrar dívidas. Tudo por causa de uma carta, mas não de uma cartinha qualquer.

A gestora de fundos Squadra, que tem mais de 5% do capital da Hapvida, e uma boa fama no mercado, publicou um documento acusando a gestão da companhia de ser responsável por “uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro”.

E isso se deve, segundo a Squadra, por uma sequência de decisões equivocadas, sejam na definição de estratégicas, operacionais, de alocação de capitais e de governança.

O primeiro ponto apontado por eles foi a alocação de dinheiro em fusões e aquisições, ou seja, na compra de outras empresas, que diminuíram demais a importância da operação original, da verdadeira Hapvida, no bolo.

Eu não sou nenhum profeta do apocalipse, mas há três anos publiquei um texto na Folha mostrando que a fusão entre Hapvida e a Notre Dame Intermédica, outro plano de saúde enorme, feita em 2022, criava um gigante que não parava de pé.

Na época, a empresa anunciava que a união serviria para cortar gastos de ambas, ao unir setores administrativos, logística entre outros. Ao anunciar a movimentação, martelou na palavra da moda: sinergia. As tais “sinergias” magicamente fariam a operação ser muito lucrativa e rentável.

O corte de custos, entretanto, foi para verticalizar a operação. Os segurados, que antes podiam ir a diversos hospitais e médicos, passaram a ter poucas opções, sendo forçados a frequentar os enormes centros hospitalares, com suas filas e multidões. Na ANS, a Agência Nacional de Saúde Suplementar, a Notre Dame é a campeã no número de reclamações de usuários.

Não à toa, a operação da Hapvida no Sudeste e no Sul perdeu 238 mil clientes, enquanto a base de beneficiários de planos de saúde nessas regiões teve um aumento de quase 800 mil pessoas.

Agora, o Brasil surfa uma nova onda de fusões e aquisições. No primeiro trimestre desse ano, o valor movimento com essas operações bateu quase US$ 16 bilhões (R$ 80 bilhões), um crescimento de 30% em relação ao mesmo período no ano passado.

Para o investidor, o caso da Hapvida dá uma boa pista: entender o que está sendo construído com a operação costuma dar mais resultado do que simplesmente repetir a panaceia de “cortes e sinergias”, do crescimento a qualquer custo.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment