A revista americana The Hollywood Reporter, especializada na indústria de entretenimento, publicou nesta terça-feira (10) a primeira entrevista de Harvey Weinstein, o ex-produtor que detonou o movimento MeToo, desde que ele foi preso.
A conversa do repórter Maer Roshan aconteceu na prisão Rikers, no distrito do Queens, em Nova York, onde Weinstein está detido —é a primeira vez que ele fala com a imprensa desde que começou a cumprir pena por estupro e agressão sexual, há seis anos.
Na entrevista, ele volta a negar que cometeu os crimes, diz que o MeToo foi um movimento importante e narra a rotina no cárcere.
Aos 73 anos e com uma lista de enfermidades —diabetes, uma cirurgia cardíaca recente e câncer de medula óssea—, ele diz passar cerca de 23 horas por dia dentro da cela, saindo às vezes, em uma cadeira de rodas, para tomar ar. Tem contato apenas com os guardas e as enfermeiras.
Por conta da saúde debilitada, está alojado numa unidade especial, apartado da população carcerária em geral. Apesar disso, contou ter pouquíssimo acesso a médicos. Quando questionado se tem medo de morrer na prisão, responde que “isso me apavora”.
“É inacreditável que, com a vida que tive e tudo o que fiz pela sociedade, não haja clemência para me tratarem com mais benevolência. Não importa o que pensem que eu tenha feito de errado na vida, não recebi a pena de morte. Vou fazer 74 anos em março. Não quero morrer aqui.”
Quase cem mulheres acusaram o ex-magnata de Hollywood de má conduta sexual, desencadeando uma avalanche de processos cíveis e criminais contra ele que ainda tramitam na Justiça de Nova York e da Califórnia. Seu primeiro julgamento em Nova York, em 2020, terminou com a condenação a 23 anos de prisão.
Mas essa sentença foi anulada em 2024 —por uma questão processual, não por inocência— e um novo julgamento em 2025 resultou em um veredicto misto —condenação em uma acusação, absolvição em outra e anulação da terceira.
Em 2023, ele recebeu uma sentença de 16 anos por estupro e outros crimes após um julgamento em Los Angeles. O juiz determinou que a sentença seria cumprida consecutivamente, e não simultaneamente, à sua sentença em Nova York —portanto, ele precisa cumprir a pena em Nova York antes de começar a cumprir a pena na Califórnia. Um outro julgamento por caso de estupro está marcado para 14 de abril.
O repórter pergunta se Weinstein acha que o MeToo foi bom para a sociedade. “Acho que sim. Se mulheres estavam sendo machucadas ou exploradas, acho que isso foi bom”, afirmou, acrescentando que não se sente bem em ser a figura central do movimento.
Dezenas de acusadoras relataram que ele as seguia em seus quartos de hotel ou as trancava em seu próprio quarto e as forçava a fazerem sexo com ele, mas Weinstein afirmou que nada disso é verdade. Sendo assim, o repórter questiona por que tanta gente estaria disposta a mentir sobre o seu comportamento.
“Por vários motivos. Mas principalmente porque envolve dinheiro. Sabe, uma mulher recebeu US$ 500 mil. Uma terceira recebeu US$ 3 milhões. Tudo o que qualquer pessoa precisava fazer para receber um cheque era preencher um formulário dizendo que eu a havia agredido sexualmente. Então elas preencheram, e a seguradora acabou pagando dezenas de milhões de dólares”, afirmou.
“E a Disney também —a Disney não queria uma briga pública, então simplesmente pagou as pessoas para que se calassem. Vira um efeito manada. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre mim, e isso fica registrado publicamente. Mas pouquíssimas dessas histórias foram levadas à Justiça.”
O jornalista rebate que muitas mulheres que fizeram denúncias contra Weinstein, inclusive Gwyneth Paltrow, eram amigas dele e não receberam um centavo, e pergunta se há alguma parte do ex-produtor que reconheça o mal que ele fez.
“Eu tentei assediar algumas dessas mulheres sem sucesso? Exagerei? Sim. Fui insistente ou excessivamente sedutor? Sim, para tudo isso. Veja bem, eu nunca deveria ter saído com as pessoas com quem saí. Eu era casado com uma mulher fantástica que não fazia ideia do que eu estava fazendo. Eu mentia o tempo todo. Usei minha equipe de forma indevida para esconder essas coisas. Mas eu cheguei a assediar sexualmente alguma mulher? Não. Nunca fiz isso.”
Sobre a vida atrás das grades, Weinstein contou que um de seus passatempos é assistir a filmes. Por US$ 5 por título, cerca de R$ 28, ele pode acessar grandes sucessos do cinema em um tablet —inclusive algumas de suas produções. Ele reviu “Gênio Indomável” pela primeira vez em 25 anos e achou o longa “realmente muito bom”.
Disse ainda que as pessoas com quem conversa na prisão “só querem falar de Quentin Tarantino” e que recebe roteiros de estudantes universitários pelo correio, em busca de sua opinião. “Eles geralmente não são muito bons, mas eu tento incentivá-los. Digo para se esforçarem um pouco mais”, afirmou.
Disse acreditar que será lembrado por ter produzido “Pulp Fiction” e “Shakespeare Apaixonado“, longas que considera os mais icônicos de sua carreira.
Por fim, afirmou refletir sem parar sobre o que faria de diferente se tivesse outra chance. “Eu teria respeitado mais aquelas mulheres. Eu jamais teria me envolvido com elas. Teria sido fiel ao meu casamento. Teria dito: ‘Eu tenho uma família. Vou protegê-la’. Fui um tolo. Admito.”