Jonathan Goldstein voltou a ter prazos, um alívio. Em 2023, após quase duas décadas à frente de produções em áudio, o apresentador de “Heavyweight” se viu sem sua rotina de trabalho usual com o cancelamento do podcast pelo Spotify. Havia sinais de que o término viria, mas quando aconteceu de fato, foi como uma perda existencial, ele diz.
Parece difícil identificar um produto como esse —um documentário com um narrador, feito apenas em áudio, com episódios de 45 minutos que podem levar meses de produção— sob o mesmo termo que entrevistas em vídeo de horas a fio; ambos são podcasts, e o segundo modelo tem dominado o que se entende por essa mídia. Mas há quem queira continuar investindo em jornalismo narrativo de longo formato em áudio.
Em 2025 a produtora Pushkin passou a abrigar a aclamada série, que chega a seu décimo ano. A premissa é a de sempre, contar histórias de pessoas tentando superar fardos da vida, um argumento simples, até propício a pieguice e sentimentalismo que conhecemos da televisão. Mais uma vez o podcast mostra que há outros caminhos a se explorar.
O retorno foi bem recebido, com a série figurando em listas dos melhores podcasts de 2025. Também ano passado a série foi considerada um dos 100 maiores podcasts em língua inglesa já feitos, segundo ranking da revista Time.
Dentre os episódios desta nova temporada há um filho que quer levar a mãe idosa para uma casa mais segura, mas a mudança com infinitos objetos de arte que ela coleciona e produz parece impossível; há um homem que procura amigos de infância perdidos que o ajudaram a enfrentar uma infância sombria; uma mulher quer encontrar quem é hoje a criança que desembarcou com sua mãe nos Estados Unidos quando ela veio da Itália décadas atrás, um menino que a mãe quis como a um filho, mas que ela trouxe para ser adotado por outras pessoas.
Por mais que haja histórias singulares, elas sempre são capazes de evocar algo que o ouvinte possa identificar em si mesmo ou ao seu redor.
O caso de Deborah, último episódio, é raro: uma senhora de 102 anos redescobre a caixa com as cartas de seu namorado de juventude e se reapaixona por ele, Jerry. Aspirante a escritor, ele decidiu se alistar para combater na Segunda Guerra Mundial. Morreu num bombardeio, antes que pudesse se casar com Deborah. Ela, ao reler as mais de 250 correspondências, criou uma paixão platônica pelo homem que não pode ter; para sua filha, parece que Deborah ao entrar nesse Jerryverso, vira as costas para a família que de fato construiu. O que fazer para que esse afeto não a devore?
Por incomum que o caso seja, o que está em jogo aí é o amor perdido, o luto não elaborado, a saudade do que não se viveu. Aliás, essa é uma das belas histórias sobre idosos desta temporada.
Parte da graça da série está no processo de procurar aquilo que as pessoas buscam ou mesmo ajudá-las a descobrir o que querem encontrar. É imprevisível onde cada episódio pode chegar, se é que se encontrará aquilo que se procura. E aí está o grande trunfo da série: acompanhar a elaboração das pessoas sobre a questão ou angústia da qual partiram e descobrir o que esse enfrentamento produz.
Isso faz com que “Heavyweight” seja capaz de comover sem precisar surpreender sempre. É fácil que as buscas difíceis a que cada episódio se lança sejam material para uma narrativa detetivesca, mas o podcast investe mais na crônica do que no mistério. Há sim descobertas, momentos de virada, surpresas, mas há episódios que se sustentam de outro modo: pelo simples narrar dos encontros, pelas pequenas tensões e expectativas, por falar das dúvidas que surgem quando o que se encontra não é o que se quer.
Essa flexibilidade do formato é explorada com maestria no episódio extra, “Minneapolis“. Quase todos os episódios da série levam o nome da pessoa que o protagoniza, aquela em busca de lidar com um fardo. Neste, quem ocupa esse lugar é a cidade americana, alvo recente das brutais incursões do ICE, onde o apresentador do podcast vive.
Os traumas desta comunidade são aqui representados por duas histórias: num primeiro momento, Jonathan e sua esposa, Emily, conversam sobre a violência que ela e o filho pequeno do casal viram em seus trajetos cotidianos pela cidade desde que a força federal chegou. Num segundo momento, o apresentador conversa com uma família de migrantes que sofreu diretamente com ações dos agentes federais.
Este, talvez o menos resolutivo dos episódios já feitos pela produção, é um dos mais belos exemplos de como levar as premissas de uma série ao limite para dialogar com o que o tempo presente impõe.
O podcast também continua cultivando uma de suas virtudes longevas: a capacidade de manter uma identidade própria, um estilo. Não faltam podcasts com narrativas longas a partir de vidas comuns; mas as histórias de “Heavyweight”, foram contadas ali, não em qualquer outro programa.
No episódio “ladrão de banco” —outro com a boa sacada de não trazer um nome próprio— um rapaz quer se desculpar com as pessoas que estavam na agência bancária que ele tentou assaltar à mão armada quando adolescente. Esse gesto foi o clímax de uma infância e juventude atribulada, com pais violentos e sofrimento com bullying; um ato de valentia de alguém buscando um lugar no mundo.
Mas é hilário quando Jonathan conversa com um guarda que estava presente naquele dia enquanto o sujeito passa por um drive-through de lanchonete e pede uma caixa de nuggets. É um exemplo fino da capacidade de incorporar o acidente, o que está ao redor, de transformar ruído em sinal. Isso tem a ver com a capacidade que a série tem de alternar entre o drama e a comédia.
Poder fazer isso denota também como a equipe do programa é capaz de desenvolver relações íntimas e de confiança com as pessoas sobre quem fala.
Mas como isso afeta o próprio apresentador? São anos de envolvimento com histórias difíceis, traumas pessoais, sendo convocado ao íntimo das angústias alheias. Questiondo sobre o que fica destes tantos encontros, Jonathan reluta; qualquer resposta lhe parece que será piegas ou limitada demais.
Só o áudio das hesitações e do silêncio enquanto ele pensa no que dizer fariam jus à tudo o que ele quis dizer. Mas as palavras foram estas: “Essas pessoas fazem perguntas tão difíceis, se mostram tão vulneráveis e generosas por conta do que compartilham com o público e comigo —e eu me incluo nesse público, já que eu vivencio a coragem delas de forma indireta—, que isso me inspira a tentar ser mais vulnerável e emocionalmente presente na minha própria vida, o que não é fácil pra mim. Talvez seja por isso que eu faço esse programa”.