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Honora: Disco de jazz de Flea, do RHCP, é um belo tributo – 05/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Boa parte dos fãs do Red Hot Chili Peppers não faz ideia, mas o baixista da banda, Flea, tem uma longa história com o jazz.

Nascido na Austrália em 1962, Michael Balzary se mudou para os Estados Unidos com a família em 1971. Pouco tempo depois, o pai, Mick Balzary, abandonou a mulher, Patricia, e os filhos, e voltou ao país de origem. Patricia, então, começou um relacionamento com Walter Urban, um músico de jazz que costumava receber em casa amigos instrumentistas para jam sessions que duravam noites inteiras.

Assim, o jovem Michael foi aplicado em John Coltrane, Thelonius Monk, Miles Davis e Ornette Coleman. Bem antes de ganhar o apelido de Flea e começar a tocar baixo em bandas de rock, o menino só queria saber do trompete. Enquanto os colegas de escola piravam em Led Zeppelin e Queen, Michael idolatrava Dizzy Gillespie.

Meio século depois, Flea é baixista de uma das bandas de rock mais famosas do mundo, os Red Hot Chili Peppers, mas nunca deixou de lado a fascinação pelo jazz.

Durante a mais recente turnê mundial da banda, que durou cerca de dois anos, ele fez uma promessa —em qualquer tempo livre que tivesse, se dedicaria a treinar o trompete e ter aulas com o virtuoso Rickey Washington, pai do saxofonista Kamasi Washington. Quando se julgasse apto, gravaria um disco de jazz.

O resultado é “Honora”, um bonito e sofisticado trabalho em que Flea, acompanhado por nomes de ponta da cena de jazz de Los Angeles —e alguns astros do rock, claro— faz um tributo ao gênero musical que moldou sua maneira de ver a música.

“Honora” tem dez faixas, com seis composições de Flea e quatro versões de músicas de Jimmy Webb —”Wichita Lineman”—, Ann Ronnell —”Willow Weep for Me”—, Frank Ocean —“Thinkin Bout You”— e do Parliament Funkadelic —o clássico funk-soul “Maggot Brain”.

No disco, Flea canta, toca trompete e baixo, e recheou a banda com excelentes músicos como o percussionista brasileiro Mauro Refosco (David Byrne, Atoms for Peace), a contrabaixista Anna Butterss (Boygenius, Aimee Mann), o guitarrista Jeff Parker (Tortoise), o trompetista e tecladista Nate Walcott (Bright Eyes) e o baterista Deantoni Parks (The Mars Volta, Andre 3000).

Vários amigos e parceiros toparam participar do projeto, como o o cantor do Radiohead, Thom Yorke, com quem Flea havia trabalhado no grupo Atoms for Peace. Ele canta em “Traffic Lights”, enquanto o baterista Chad Smith e o guitarrista John Frusciante, colegas de Flea no Red Hot Chili Peppers, colaboram em uma faixa cada. O destaque é Nick Cave, que empresta sua voz grave para uma inspirada versão do clássico “Wihcita Lineman”.

“Eu estava conversando com Nick e ele falou do amor que tinha pela música de Jimmy Webb”, disse Flea numa entrevista recente. “Decidi gravar a música e mandei um e-mail convidando-o a cantar. Em dois minutos, ele respondeu: ‘Estou dentro!’. Alguns dias depois, recebi um arquivo com a versão dele. Chorei feito criança.”

Sendo um disco de um músico tão bem sucedido do ponto de vista comercial —os Chili Peppers venderam, segundo estimativas, algo entre 60 e 80 milhões de álbuns—, “Honora” traz elementos típicos do estilo de Flea e que perigam atrair para esse empreendimento jazzístico alguns fãs do punk-funk de FM da banda.

“A Plea” emula o estilo declamatório da soul music política de Gil Scott-Heron, com Flea cantando-falando uma letra misteriosa que mistura política e guerra civil –tudo sobre uma base grooveada que deve muito a Herbie Hancock.

Fica evidente que “Honora” é um projeto muito pessoal para Flea. O nome é um tributo a um membro da família, e a capa tem uma foto em preto e branco da sogra, Shahin Badyan, tirada no Irã. A seleção dos covers e do repertório inédito demonstra um esmero que eleva “Honora” a muito mais do que um projeto de vaidade, tão comum quando astros querem demonstrar talento e sofisticação.

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