O IBGE revelou nesta semana o desempenho do PIB brasileiro em 2025. Como foi amplamente divulgado, o crescimento no ano passado foi de 2,3% —variação que, pela primeira vez em muitos anos, não representou uma surpresa favorável muito expressiva em relação às projeções elaboradas pelos analistas, como expliquei em detalhes em uma coluna anterior.
Ademais, a evolução do PIB em termos trimestrais e dessazonalizados aponta para uma economia que vem “andando de lado” há alguns trimestres, ao menos em termos agregados. Isso ajudou a amenizar um quadro de algum superaquecimento que vinha sendo observado entre meados de 2023 e meados do ano passado (vide aqui outra coluna minha sobre isso).
Mas o que eu queria explorar mais neste texto está relacionado ao próprio IBGE, que é quem elabora essas estimativas do PIB brasileiro há mais de três décadas (antes disso, a responsável era a FGV). Como é amplamente sabido, tem havido muito conflito entre o atual presidente do IBGE, Márcio Pochmann, e diversos funcionários do instituto. No movimento mais recente, parte relevante da equipe de Contas Nacionais, responsável por calcular o PIB, acabou pedindo para ser afastada por não concordar com diversas atitudes e posturas do presidente.
Isso suscitou diversas suspeitas quanto a uma eventual pressão para manipular as estatísticas produzidas pelo IBGE, tornando-as mais favoráveis ao governo atual. Contudo, em contraste com o que vem circulando em diversas redes (anti)sociais, os números do IBGE seguem coerentes com indicadores semelhantes calculados por outras instituições. Por exemplo, a inflação do IPCA/IBGE em 2025, de 4,3%, foi até mesmo mais alta do que aquela apurada pelo índice equivalente calculado pela FGV, o IPC-DI, que subiu 4,0%. Na mesma linha, o IBC-Br, uma espécie de PIB mensal estimado pelo Banco Central, subiu 2,5% em 2025.
Eu não conheço todos os detalhes dessas rixas internas no IBGE, mas, usando o argumento de fazer desse limão uma limonada, acho que a nova equipe que assumirá o Departamento de Contas Nacionais poderia aproveitar para corrigir algo que vem sendo criticado por mim e por vários outros usuários de estatísticas.
Explico: o IBGE anunciou no ano passado que irá atualizar a metodologia de cálculo do PIB, divulgando os novos resultados provavelmente em 2027, revisando as séries históricas pelo menos desde 2010. Isso costuma acontecer de tempos em tempos (a última vez foi em 2015) e é algo necessário, para incorporar novas recomendações da ONU, bem como novas informações mais estruturais (como aquelas oriundas do Censo 2022). Uma carta do FGV IBRE publicada em meados do ano passado detalhou tudo isso. Também escrevi uma coluna aqui sobre essa e outras atualizações de estatísticas brasileiras que estão ocorrendo de agora a 2027.
Contudo, em contraste com o observado no ciclo de revisão anterior da metodologia de cálculo do PIB brasileiro, até agora a equipe de Contas Nacionais não publicou nada sobre essa revisão, nenhuma nota metodológica, nem realizou nenhum seminário para apresentar e coletar impressões junto aos usuários. Convém lembrar que, antes de publicar os novos números em meados de 2015, o IBGE vinha promovendo seminários e divulgando relatórios desde 2013.
No mais, a nova equipe de Contas Nacionais também poderia acatar ao menos algumas das sugestões de diversos economistas apresentadas na carta do FGV IBRE supracitada.
Destaco aqui a recomendação de que o “novo PIB” utilize as informações da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) coletada pelo IBGE entre 2024 e 2025 e não aquelas da POF 2017/18 (anterior à pandemia e a várias mudanças drásticas de hábitos de consumo que ocorreram nos últimos anos, sobretudo após a pandemia).
Não faz sentido o “novo PIB” já nascer “velho”, defasado.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.