Além dos desafios enfrentados por estudantes indígenas no ensino superior, aqueles com deficiência lidam com obstáculos extras, como falta de acessibilidade, apoio insuficiente e preconceito, que ameaçam a permanência na universidade.
Quando um professor falou para Ynathari Ampak que ele havia se formado para dar aula para pessoas “normais” e não para alguém como ela, a vontade de desistir da graduação foi forte. Indígena xavante e pataxó, Ynathari entrou no curso de biologia da Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros) em 2019, por meio de cotas para indígenas.
Diagnosticada com transtorno do espectro autista e dislexia, ela conta que tirava boas notas, mas precisava de ajuda com as leituras. Em determinado momento do curso, encontrou uma professora que a acolheu, adaptando as aulas às suas necessidades.
“É importante mostrar que nós existimos e que a educação indígena é diferente por conta da própria cultura. Para quem sai do seu território e vem para a universidade, é muito diferente. Isso impacta o indígena sem deficiência, imagine o com deficiência”, diz Ynathari, que concluiu a graduação em 2024, aos 40 anos.
Já Kanhu Haka, 28, indígena da etnia kamayurá, não conseguiu terminar seus estudos na UnB (Universidade de Brasília). Ela tem distrofia muscular de Duchenne, uma condição genética que causa perda progressiva dos movimentos.
Em 2022, entrou no curso de ciência política por meio de um processo seletivo especial para candidatos indígenas, mas não encontrou condições de acessibilidade adequadas —uma mesa maior para acomodar a cadeira de rodas e alguém para auxiliá-la nas aulas. Em 2024, decidiu tentar frequentar o curso com a ajuda da irmã —que, algum tempo depois, não conseguiu mais acompanhá-la.
A solicitação de um monitor foi feita formalmente, e a resposta positiva veio por email, em outubro do mesmo ano. “Mas ele nunca chegou”, afirma.
Kanhu mora a 50 minutos da UnB. O deslocamento ocorria inicialmente por ônibus, mas depois passou a ser feito por veículo particular, pago com uma bolsa permanência que recebia da universidade.
“Usava o recurso só para isso. Mas, no carro, eu não podia levar minha cadeira automatizada, porque ela é grande, precisava tirar as baterias e desmontá-la. Para facilitar, levava uma cadeira mais simples, mas aí precisava que alguém ajudasse a empurrar. E não tive esse apoio do setor de acessibilidade.”
A jovem não desistiu do ensino superior, mas agora pensa em ingressar na modalidade a distância. “Cursar uma universidade era um sonho. Vou continuar tentando.”
Procurada, a UnB informou que buscou alternativas para atender às demandas da aluna, mas que “não teria sido possível efetivar esses apoios por limitações administrativas, indisponibilidade de candidatos à tutoria e dificuldades de contato com a estudante”. A universidade disse que permanece à disposição para retomar o diálogo com Kanhu para que ela continue sua trajetória acadêmica.
Em nota, a Unimontes afirmou que não houve registro formal ou denúncia apresentada à coordenação relacionada a situações de preconceito por parte de docentes e que “as demandas de cunho acadêmico encaminhadas à época pela aluna foram acolhidas e direcionadas ao setor responsável”.
Ynathari e Kanhu fazem parte do universo de 534 indígenas com deficiência matriculados no ensino superior brasileiro em 2024, segundo dados do mais recente Censo do Ensino Superior, do Inep. O número inclui instituições públicas (203, sendo 167 em federais, 33 em estaduais e 3 em municipais) e privadas (331). Brasil vive paradoxo entre avanço de terapias e barreiras de acesso
Mas esse volume pode não refletir a real dimensão desse grupo. Para a professora Chantal Medaets, da Unicamp, embora a coleta realizada pelo Censo tenha melhorado nos últimos dez anos, a falta de informação relativa à raça, cor e origem étnica ainda existe.
“Para o conjunto de estudantes indígenas, esses números variam. Como as instituições também são responsáveis por repassar esses dados, a qualidade dessa informação é muito variável”, afirma a docente, que coordena o Obiques (Observatório de Indígenas e Quilombolas no Ensino Superior).
“A meu ver, o maior problema é a subnotificação de dados de estudantes indígenas de modo geral. Precisamos ter esses dados para entender melhor como o universo dos estudantes indígenas se distribui, o que inclui a questão da deficiência”, ressalta.
Em 2025, somente em duas universidades federais da região Norte, havia 108 indígenas com deficiência matriculados, segundo dados fornecidos pelas próprias instituições à reportagem. Na Ufam (Universidade Federal do Amazonas), eram 20 estudantes inscritos na graduação. Na UFT (Universidade Federal do Tocantins), 88 dos 538 estudantes indígenas matriculados tinham algum tipo de deficiência.
“Temos uma equipe multidisciplinar de acessibilidade em cada campus. Muitas vezes são alunos que ainda não possuem laudo, que não informam a deficiência na matrícula ou que nem entram pela cota. Quando eles já estão aqui, é que a equipe identifica a deficiência”, diz Maria Santana, reitora da UFT.
O MEC (Ministério da Educação) não comentou as possíveis discrepâncias nos dados. Em nota, a pasta informou que atua em três frentes principais para a permanência de estudantes indígenas com deficiência no ensino superior: o Programa Incluir, que financia núcleos de acessibilidade nas universidades; o fomento às licenciaturas interculturais e à criação da Universidade Federal Indígena; e o Programa de Bolsa Permanência para indígenas e quilombolas.
Ainda de acordo com o MEC, os investimentos em assistência estudantil cresceram, passando de R$ 1,4 bilhão, em 2021, para R$ 2,7 bilhões, em 2025. No ano passado, por meio do Programa de Bolsa Permanência, foram ofertadas 17,3 mil bolsas para estudantes indígenas e quilombolas, o dobro do registrado em 2022 (8,6 mil).
Esta reportagem é resultado do laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.