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Inflação/IBGE: IPCA de março acelera com guerra no Irã – 10/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), começou a refletir os impactos da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que aumentou as cotações de petróleo no mundo.

Em março, o IPCA acelerou a 0,88%, após marcar 0,7% em fevereiro, segundo dados divulgados nesta sexta (10) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O avanço de 0,88% é o maior para meses de março em quatro anos, desde 2022 (1,62%).

A taxa ficou bem acima da mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,76%, conforme a agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,66% a 0,85%. Ou seja, o IPCA de 0,88% superou até a previsão máxima.

A inflação foi pressionada pelas altas dos grupos de transportes (1,64%) e alimentação e bebidas (1,56%). O primeiro inclui os combustíveis, que subiram com a disparada do petróleo na guerra. Transportes e alimentação responderam por 76% do índice do IBGE.

O IPCA também acelerou no acumulado de 12 meses. A alta nesse recorte alcançou 4,14% até março, após variação de 3,81% até fevereiro.

Com a surpresa nos dados, parte dos economistas aumentou as suas previsões para o acumulado até dezembro de 2026.

A expectativa de IPCA acima do teto da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) ganhou força. O limite do alvo é de 4,5%, e há instituições prevendo agora taxas próximas a 5%.

Analistas também consideram difícil um corte na taxa básica de juros (Selic) superior a 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).

O colegiado do BC volta a se reunir em 28 e 29 de abril para definir o patamar da Selic, atualmente em 14,75% ao ano.

“Os dados indicam que os efeitos do conflito no Oriente Médio, que tem afetado os preços do petróleo e dos fertilizantes usados no agronegócio, já começam a aparecer na inflação brasileira”, afirmou Claudia Moreno, economista do C6 Bank.

GASOLINA E DIESEL FICAM MAIS CAROS

No IPCA de março, o impacto individual mais relevante veio da gasolina (0,23 p.p.), que subiu 4,59% no mês.

Ainda dentro de transportes, houve reajustes na passagem aérea (6,08%) e no diesel (13,9%). A alta mensal do diesel foi a maior em mais de duas décadas, desde novembro de 2002 (14,63%).

O gerente da pesquisa do IPCA, Fernando Gonçalves, disse que “especialmente nos combustíveis” já se sente o efeito das “incertezas no cenário internacional”.

O diesel pesa menos do que a gasolina na composição do índice do IBGE, mas a sua carestia pode gerar repasses para outros bens e serviços, como é o caso dos alimentos.

“Como a nossa produção é escoada em grande parte por rodovias e utiliza óleo diesel, isso acaba trazendo impacto para os preços dos alimentos. O frete fica mais caro”, afirmou Gonçalves.

A alta dos combustíveis reflete, em parte, aumentos promovidos por importadores privados. A Petrobras também subiu o preço do diesel em suas refinarias, mas o reajuste foi atenuado pela isenção de impostos federais.

A pressão sobre os consumidores em ano eleitoral preocupa o governo Lula (PT), que tenta conter a carestia antes do pleito de outubro.

Na segunda (6), o Executivo anunciou criação de uma subvenção extra para o diesel e o gás de cozinha, além da decisão de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o biodiesel e o querosene de aviação.

Dentro do grupo alimentação e bebidas, os preços da alimentação no domicílio (em casa) subiram 1,94% em março. Foi a maior alta desde abril de 2022 (2,59%).

As principais influências vieram do leite longa vida (11,74%) e do tomate (20,31%), com impactos de 0,07 p.p. e 0,05 p.p. no IPCA. O IBGE ainda destacou os avanços de produtos como cebola (17,25%), batata-inglesa (12,17%) e carnes (1,73%).

De modo geral, o instituto associou os aumentos a restrições de oferta de mercadorias. O custo da comida costuma subir no início do ano com dificuldades maiores de produção no campo.

“O tomate teve desaceleração na safra de verão, alguns frutos manchados. Isso traz uma perda para o produtor, restrição de oferta e elevação [de preços] para o consumidor final”, afirmou Gonçalves.

“A cebola também foi problema de oferta. Teve alguns atrasos na semeadura, alguns estoques tiveram problema de mofo […]. A batata teve problemas de produção por conta de chuvas que atrasaram e dificultaram o processo de colheita”, completou.

Do lado das quedas de preços em março, o IBGE citou a maçã (-5,79%) e o café moído (-1,28%).

A alimentação fora do domicílio, em locais como bares e restaurantes, subiu 0,61% no mês passado. Foi a maior alta desde julho de 2025 (0,87%).

“Temos sido surpreendidos pela inflação no curto prazo. Parte desse movimento já reflete efeitos do cenário externo, mais evidentes em combustíveis e começando a aparecer, ainda que de forma incipiente, em alimentos (via aumento do frete, efeito secundário da alta do diesel)”, diz em relatório o economista Leonardo Costa, do Asa, que atua no setor financeiro.

Em uma situação hipotética sem os combustíveis, o IPCA teria sido de 0,64% em março, e não de 0,88%, conforme o IBGE. Se apenas a gasolina saísse do cálculo, a taxa ficaria em 0,68%.

PROJEÇÕES DE INFLAÇÃO AUMENTAM

A projeção do Asa para o IPCA deste ano foi revisada de 4,6% para 5%. A agência classificadora de risco Austin Rating também aumentou a sua estimativa para o acumulado de 2026, de 4,43% para 4,74%.

A gestora Kínitro Capital, por sua vez, disse que sairá de uma projeção de 4,7% para 4,9%.

Já o banco Itaú afirmou que o resultado de março reforça o viés de alta para a sua expectativa do ano, atualmente em 4,5%. O C6 Bank prevê 4,8%.

Analistas chamam a atenção para um risco adicional no cenário: a ameaça do evento climático El Niño no segundo semestre. Dependendo de sua intensidade, o fenômeno pode dificultar a produção de alimentos, com efeitos sobre os preços.

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