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Interpol destila melancolia no Lollapalooza e toca inédita – 20/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O Interpol fez pairar sobre o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, uma nuvem de melancolia no fim da tarde desta sexta-feira (20). A banda americana, conhecida pela atmosfera sombria de suas canções roqueiras, foi uma das principais atrações do primeiro dos três dias da edição deste ano do Lollapalooza Brasil.

O Interpol retornou para sua sétima passagem pelo país, sendo que o reencontro com os paulistanos aconteceu na quinta-feira (19), em um show de aquecimento na Audio, casa de shows na Barra Funda. A banda é também uma veterana na versão brasileira do festival americano, tendo passado pelo evento em 2015 e 2019.

Desta vez, o grupo veio desfalcado de seu baterista, Sam Fogarino, que se ausentou da turnê atual por problemas de saúde decorrentes de uma cirurgia na coluna. Ele foi substituído por Urian Hackney, algo que não gerou prejuízos para a sonoridade do Interpol ao vivo.

O grupo é liderado pelo vocalista Paul Banks, que também divide as guitarras com Daniel Kessler, sendo que os dois são as principais mentes criativas por trás do projeto.

O show começou com “All the Rage Back Home”, música do álbum “El Pintor”, de 2015, e uma das poucas lançadas depois de 2007 a figurar no repertório. De toda sua produção nos últimos 19 anos, equivalente a quatro álbuns, a banda só tocou a canção de abertura e “The Rover” —esta, do disco “Marauder”, de 2018, também no começo do show.

A setlist de 11 músicas no total ficou mais concentrada nos três primeiros discos do Interpol —”Turn on the Bright Lights”, de 2002, “Antics”, de 2004, e “Our Love to Admire”, de 2007. Eles representam o auge do grupo, que despontou na leva de bandas do indie rock dos anos 2000, ainda que sua sonoridade tenha poucas semelhanças com Arctic Monkeys ou The Strokes, maiores expoentes do estilo.

Foi uma escolha acertada para a ocasião. Num evento como Lollapalooza, o grupo tocou tanto para os fãs mais ferrenhos, minoria na plateia de dezenas de milhares do festival, quanto para ouvintes casuais. Mas ela revela também uma banda que pode estar vivendo um esgotamento criativo, dependente da obra de duas décadas atrás.

A única novidade ficou por conta de “See Out Loud”, canção inédita que o Interpol tocou ao vivo pela primeira vez no show da véspera, em São Paulo. Cantada pelo guitarrista, Daniel Kessler, algo raro na obra do grupo, trata-se da primeira amostra de novas composições dos americanos desde o disco “The Other Side of Make-Believe”, de 2022.

Encaixada no meio do show, a inédita foi recebida com certa indiferença da plateia, que voltou a cantar, bater palmas e ensaiar alguma dança na performance seguinte, de “Evil”. A música de 2004 inaugurou a segunda metade, mais celebrada, da apresentação, que seguiu com a balançada —pelo para os padrões do Interpol— “Slow Hands”.

O Interpol foi formado em Nova York em 1997 e ganhou notoriedade já com o álbum de estreia, o trabalho mais celebrado da banda até hoje. A obra é também a expressão mais bem acabada da sonoridade lúgubre e roqueira do grupo, que soa como um Joy Division americano feito para a virada do século 21.

Isso significa uma versão mais polida e serena do pós-punk niilista da banda de Ian Curtis, sem, no entanto, abandonar uma angústia existencial que pairou sobre todo o show em São Paulo. No palco, essa tristeza se converteu em catarse —é exatamente o momento de acessar coletivamente as próprias tristezas por meio da música que os fãs esperam.

Musicalmente, o Interpol mostrou que ainda é capaz de criar atmosferas de tensão, com o baixo em staccato abrindo terreno para que as duas guitarras brilhosas viajassem nas harmonias em diálogo uma com a outra. É como se os graves martelados e a bateria reta fossem os pés em uma caminhada em linha reta enquanto os agudos vagam pelas vias sinuosas de uma mente perturbada.

Foi assim até nos momentos mais pop da banda, como “Obstacle 1”, um dos maiores sucessos do Interpol, que surgiu no meio da apresentação. A plateia gritou conforme a música de quase 25 anos atrás se anunciava e o sol se despedia da tarde desta sexta em Interlagos.

O desconforto antecipado nos primeiros toques de guitarra se espraiou pelos vocais de Paul Banks, que compôs a letra —sobre um personagem que está “pobre e envelhecendo” e sofre ao tentar, em vão, recuperar algo que se perdeu— após ler a notícia de que uma modelo havia cometido suicídio esfaqueando a si mesma no pescoço. “Ela coloca os pesos no meu pequeno coração”, ele repetiu na letra entoada em conjunto pelo público.

Toda essa melancolia do Interpol, tanto no show quanto nos discos da banda, não se expressa como drama, mas sob uma aura de introspecção. É algo que reflete a serenidade com que os integrantes se apresentaram, vestindo terno e gravata, camisetas pretas e óculos escuros, sem grandes artifícios visuais no palco ou interações forçadas com a plateia.

Eles também pouco interagiram com a plateia, se limitando a agradecer a presença dos fãs. Banks, ébrio também no canto, brincou que não sabia falar português, mas estava trabalhando para melhorar na língua. Ao sair do palco, o vocalista mostrou que sabia falar um “boa noite” e um “obrigado” no idioma local.

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