Recentemente, em uma conversa, um investidor me contou com satisfação que estava bem diversificado em suas aplicações no exterior. Disse que havia comprado três ETFs diferentes indicados por referências no assunto: IVV, VOO e SPY. Ele estava contente com o retorno e acreditava que o risco estava bem distribuído.
A sensação parecia fazer sentido. Não eram apenas ações isoladas, mas índices diversificados.
Perguntei se ele sabia o que cada ETF representava. Naquele momento, apareceu o detalhe que ele ainda não havia percebido: os três fundos acompanham exatamente o mesmo índice. Sem notar, não tinha três investimentos. Tinha um só dividido em três fundos com nomes distintos.
A situação ajuda a entender uma mudança silenciosa na forma como as pessoas investem. Durante muito tempo, investir fora do país parecia difícil porque exigia escolher empresas específicas. Era preciso acompanhar resultados, entender setores e aceitar o risco de errar. A dificuldade ainda se concentrava na primeira etapa.
Os ETFs mudaram isso. Bastaria comprar o índice e deixar o tempo agir. A promessa implícita era simples: finalmente seria possível investir sem precisar administrar a carteira.
E, de fato, a primeira parte do trabalho foi simplificada. O ETF praticamente eliminou a necessidade de selecionar ações individuais.
Entretanto, o que não desapareceu foi a decisão principal. Ao montar uma carteira de ETFs, o investidor continua fazendo escolhas. Decide se fica apenas nas ações americanas ou se inclui outros países. Se prefere tecnologia, outro setor ou índice amplo. Se concentra em empresas menores, dividendos, mercados emergentes, ouro ou energia. E ainda, quanto alocar em cada um. Cada escolha carrega uma visão do cenário futuro além das correlações entre eles. O investidor não precisa escolher empresas específicas, mas ainda deve decidir sobre o fator principal.
O estudo clássico de Gary Brinson, Randolph Hood e Gilbert Beebower mostrou que a maior parte das oscilações do desempenho de uma carteira ao longo do tempo não vem da escolha de ativos individuais, mas de como o dinheiro é distribuído entre as classes de ativos. Em termos simples, importa mais quanto da carteira está em cada classe de ativos do que qual ativo específico foi escolhido dentro delas.
O ETF reduz o risco de escolher uma empresa errada. O que ele não reduz é a necessidade de decidir como a carteira será dividida —justamente a decisão mais relevante.
A ideia de investimento passivo fica então um pouco enganosa. Ao ter de decidir de quais geografias, fatores e setores do mundo participar e em qual proporção, o investidor passa a construir uma estratégia ativa, ainda que não se veja assim.
Existe uma ironia nisso em achar que investimento em ETF é passivo. O fundo foi criado para simplificar uma das decisões, mas ainda mantém a necessidade ativa da principal escolha. O ETF como instrumento é simples. Mas a gestão de carteira não é.
Talvez a principal mudança trazida pelos ETFs não tenha sido eliminar decisões, mas focar o mais relevante. E decisões que não percebemos que estamos tomando costumam ser exatamente as que mais influenciam nossos resultados a longo prazo.
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