Por 19 dias, a maioria dos 92 milhões de habitantes do Irã tem estado isolada do mundo exterior, segundo grupos de monitoramento que acompanham a censura à internet no país, enquanto o regime tenta suprimir a comunicação e manter o controle sobre a população durante o período de guerra.
À medida que ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel continuam em todo o Irã pela terceira semana, o regime impôs um bloqueio quase total da internet para a maioria dos iranianos, ao mesmo tempo em que passa a criminalizar e desativar métodos alternativos de conexão.
As poucas soluções disponíveis (pacotes de chamadas internacionais, conexões privadas de rede ou Starlink) estão se tornando mais arriscadas, caras e menos confiáveis a cada dia.
“Com base nos níveis de tráfego, eu estimaria que cerca de 99% dos iranianos não têm acesso regular à internet”, disse Doug Madory, diretor de análise de internet da Kentik, uma empresa que mede o desempenho de redes.
A maioria dos sites domésticos e serviços baseados na internet, como aplicativos bancários ou de transporte, continuou funcionando normalmente nas duas primeiras semanas de guerra, mas alguns começaram a apresentar interrupções há cerca de quatro dias. Alguns serviços internos, incluindo um “superaplicativo” aprovado pelo regime semelhante ao WeChat da China, ficaram temporariamente inacessíveis dentro do Irã no fim de semana.
“Esses tipos de interrupções podem resultar de mudanças no roteamento, da implementação de políticas de filtragem mais rigorosas ou de esforços para centralizar o controle do tráfego”, disse Amir Rashidi, especialista em cibersegurança do grupo de direitos digitais Miaan. “Mas, na prática, essas medidas frequentemente levam a falhas em cascata que afetam até mesmo serviços domésticos.”
Uma moradora de Teerã, que falou sob condição de anonimato por temer represálias de autoridades iranianas, disse que a maioria das pessoas nem sequer conseguia ver os avisos de evacuação publicados online pelos Estados Unidos e por Israel, e não tinha uma compreensão precisa dos acontecimentos da guerra, incluindo quais áreas ou locais estavam sob ataque.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, defendeu o apagão em entrevista à CBS News no domingo, afirmando que a internet foi desligada “por razões de segurança” e que “em qualquer país, medidas urgentes são tomadas em tempos de guerra”. Ele falou via Zoom —uma plataforma inacessível para a maioria dos iranianos— o que levou a entrevistadora a destacar a contradição. “Sou a voz dos iranianos”, disse Araghchi, “e tenho que defender seus direitos.”
Fatemeh Shams, poeta iraniana e professora que vive no exílio na Filadélfia, observou que o fluxo de mensagens de pessoas que ela conhece dentro do Irã diminuiu drasticamente até o terceiro dia da guerra. “As pessoas comuns não conseguem documentar o que está acontecendo com elas”, disse por telefone. “Os iranianos estão enfrentando duas guerras: uma externa e outra interna contra o regime, por meio do cerco informacional.”
Chamadas internacionais recebidas também foram bloqueadas, dificultando ainda mais a comunicação entre pessoas no país e familiares e amigos no exterior. Além disso, fazer chamadas internacionais a partir do Irã é financeiramente inviável para muitos.
Alguns iranianos, especialmente os mais jovens que dependem da internet para trabalho e socialização, recorreram a redes privadas virtuais (VPNs), que são caras e pouco confiáveis, para tentar contornar o bloqueio nacional. Em alguns canais do Telegram e aplicativos domésticos iranianos, vendedores anunciam abertamente configurações de VPN por preços que variam de 300 mil a 1,5 milhão de tomans iranianos por gigabyte de dados —o equivalente ao que uma família média gasta com comida por vários dias.
Eman, especialista em tecnologia da informação baseado no Irã, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome por medo de retaliação, disse que o mercado negro de VPNs explodiu desde o início do bloqueio. No entanto, essas VPNs são facilmente rastreáveis pelo governo e podem parar de funcionar a qualquer momento.
Uma vez identificado, um endereço IP pode ser bloqueado em poucas horas. A mesma configuração pode funcionar em um modelo de celular e falhar em outro, acrescentou ele, e a eficácia varia por cidade, por bairro e até por hora.
Configurações baseadas no Starlink, que se conectam à internet via satélite, são as mais confiáveis. Porém, são proibitivamente caras para a maioria dos iranianos e apresentam maior risco. As autoridades têm procurado antenas do Starlink, geralmente instaladas em telhados, e prendido pessoas que as possuem.
A Hrana, grupo de direitos iraniano sediado em Washington, informou que várias pessoas foram presas nas províncias de Fars e Lorestan sob acusações como vender “internet sem filtragem via Starlink” e enviar imagens para organizações internacionais de notícias e espionagem.
Enquanto isso, contas na rede social X do presidente iraniano, do ministro das Relações Exteriores e de agências de notícias ligadas ao regime continuam publicando declarações aparentemente sem interrupção (o X é em grande parte inacessível para quem está dentro do país).
Alguns funcionários aprovados pelo governo também recebem “chips brancos”, que conseguem contornar todos os filtros e se conectar diretamente à internet global sem necessidade de alternativas. No entanto, no último fim de semana, especialistas em cibersegurança observaram falhas até mesmo nesse sistema, quando alguns desses chips deixaram de funcionar.