A taxa Selic elevada e o superávit em petróleo na balança comercial brasileira devem ajudar a amortecer o impacto da guerra no Oriente Médio sobre a economia, hoje mais preparada para enfrentar esse tipo de choque do que no passado.
A avaliação é da equipe de macroeconomia do Itaú BBA, que aponta que o diferencial de juros entre a taxa brasileira e a norte-americana mantém o Brasil atrativo a investidores.
A Selic está em 14,75% ao ano, após o primeiro corte em quase dois anos na última quarta-feira (18), enquanto a dos Estados Unidos está na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano.
Além disso, as exportações de petróleo brasileiro superam as importações em cerca de US$ 29,6 bilhões em 2025, o que ajuda a garantir o fluxo de dólares ao Brasil.
“Temos mais amortecedores do que tínhamos no passado, que é o diferencial de juros e a balança de petróleo positiva, em alto patamar. Mas é claro que tudo depende do tamanho do tsunami que vai chegar”, ponderou Julia Gottlieb, economista do Itaú, em evento com jornalistas nesta quinta-feira (19).
Esses amortecedores estão dando suporte à moeda brasileira, que está apresentando um desempenho relativamente melhor do que o de outras divisas considerando o choque da commodity.
“A guerra interrompeu a janela positiva de apreciação do real que estávamos vendo até então, mas, ainda assim, o real tem performado muito bem considerando o tamanho do choque. Saiu de R$ 5,10 antes da guerra para R$ 5,20, até R$ 5,30 em momentos de maior estresse”, diz Gottlieb.
“Ou seja, apesar do choque, continua em um patamar sustentável.”
Do dia 28 de fevereiro até esta quinta-feira, o dólar subiu pouco mais de 10% em relação ao real como reflexo da crise. A valorização é maior em relação a moedas fortes, como coroa sueca (16%), coroa norueguesa (15%), franco suíço (14%) e euro (14%).
O dólar tem sido escolhido como porto seguro para investidores globais em meio à disparada do petróleo. Nesta quinta, o barril do Brent ultrapassou o patamar de US$ 119 depois que o Irã atacou instalações energéticas em todo o Oriente Médio, em resposta ao ataque de Israel ao seu campo de gás de Pars Sul.
Ainda que o real não esteja sofrendo tanto o baque do conflito, o Itaú não prevê que o Brasil passará incólume pelo conflito.
Segundo o banco, a disparada do petróleo pode afetar a inflação brasileira de duas formas: direta e indiretamente. Um dos impactos mais imediatos é sobre a gasolina: a cada 10% de aumento no preço do combustível, o efeito sobre o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é de alta de 0,2 ponto percentual.
No caso do diesel, o impacto é indireto. Menos usado por consumidores, o efeito vem pelo encarecimento do frete dos caminhões, o que afeta o preço final de produtos em geral. Nesse caso, o Itaú também considera que 10% de aumento no combustível tem impacto de 0,2 ponto sobre o índice, mas de forma pulverizada.
“O diesel tem um peso baixinho no IPCA, mas ele impacta na cadeia por causa dos custos de frete. Ou seja, por mais que o peso direto do diesel no IPCA seja pequeno, ele tem um efeito indireto no IPCA que é relevante”, diz Gottlieb.
O governo Lula (PT) tem anunciado estratégias para conter os preços nas bombas de combustível. Na semana passada, o Executivo zerou os tributos federais PIS/Cofins sobre o diesel, estabeleceu o pagamento de subvenção a produtores e importadores e instituiu um imposto de exportação de petróleo de 12%.
Com as medidas, o governo estima redução de R$ 0,64 no litro do diesel, sendo R$ 0,32 referentes à isenção do PIS/Cofins e R$ 0,32 à subvenção.
Menos de 24 horas depois, a Petrobras anunciou aumentou de R$ 0,38 por litro no preço do diesel vendido em suas refinarias. O aumento é superior aos R$ 0,32 por litro de isenção de PIS/Cofins, o que significa que o repasse final às distribuidoras será de R$ 0,06 por litro, segundo a estatal.
O governo ainda pediu para que estados reduzissem o ICMS, que hoje responde por R$ 1,17 por litro do diesel. Os governos estaduais negaram o pedido.
Considerando as medidas em vigência até agora, o Itaú interpreta que o efeito do diesel sobre o IPCA será praticamente nulo. “Para a gasolina, a Petrobras ainda consegue segurar um pouco o reajuste e manter a defasagem por mais tempo”, diz Gottlieb.
De acordo com o Itaú, a expectativa é de aumento da arrecadação por causa da disparada do preço do petróleo, que eleva as receitas com royalties. Se a commodity subir 10% de preço no ano, a expectativa é que o Brasil arrecade R$ 26 bilhões a mais.
“Do ponto de vista das receitas, uma parcela relevante do Orçamento é vinculada ao petróleo. Quando se diz que o choque do petróleo é positivo, está se falando do canal via royalties, dos lucros ligados ao setor do petróleo”, afirma Pedro Schneider, economista do Itaú.
Por outro lado, a equipe pondera que os gastos para conter o impacto sobre os preços podem equilibrar essa conta, fazendo com que o efeito não seja tão positivo.