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John Malkovich estreia no Brasil com excelente performance – 29/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O ator John Malkovich fez sua primeira apresentação no Brasil do seu novo espetáculo, “The Infamous Ramirez Hoffman”, no fim da tarde deste domingo, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Com a casa lotada, o americano subiu ao palco acompanhado da pianista Anastasya Terenkova, do violinista Andrej Bielow e do bandoneonista Fabrizio Colombo para uma hora e meia do que é praticamente um recital de música comum, mas com Malkovich interpretando um capítulo do livro “Literatura Nazi nas Américas”, do chileno Roberto Bolaño, sobre o artista fictício cujo nome aparece no título do espetáculo.

Ramirez é apresentado como um sujeito obscuro, que cometeu assassinatos, foi membro da Força Aérea do Chile em plena ditadura militar no país e que se metia a fazer poemas usando a fumaça emitida pelo avião que pilotava. Era também curador de exposições fotográficas e, ao que parece, até diretor de filmes pornográficos de segunda linha. Mas nada no espetáculo é visualmente encenado —o trecho inteiro é apenas lido pelo ator e acompanhado de música, de compositores como Astor Piazzola e Antonio Vivaldi. Não há cenário ou sequer um telão: é só música e texto recitado.

Assim que “The Infamous Ramírez Hoffman” começa, Malkovich aparece em cena com uma roupa discreta, escura, usando sapatênis e um microfone acoplado à orelha —ele entra no palco munido de um laptop onde está o texto que ele lerá ao longo da récita. Sim, poderia muito bem ser o CEO de uma empresa de tecnologia anunciando um novo lançamento, mas Malkovich é de fato um artista, e logo que se põe a ler o texto de Bolaño, faz o espectador mergulhar na insólita narrativa imaginada pelo chileno para aludir aos perversos apoiadores de regimes ditatoriais, que acabam dando um jeito de escapar de punições mesmo quando as democracias são restabelecidas.

No Municipal, as legendas foram dispostas em um local muito longe do rosto de Malkovich, o que atrapalha um bocado quem tenta acompanhar as feições do ator enquanto narra a história. Mas o espetáculo em geral funciona bem, porque o trio musical é talentoso e porque Malkovich, com sua fala lenta, muitas vezes pontuada com olhares expressivos destinados aos colegas de palco ou mesmo à plateia, consegue ampliar o que uma simples leitura de um capítulo de livro poderia sugerir.

Para quem esperava ver Malkovich de fato atuando, como em uma peça de teatro tradicional, de fato pode ser um bocado frustrante, ainda que o que ele faça em cena seja, sim, uma performance. Ver Malkovich em cena é, em si, já uma espécie de espetáculo. Quando Charlie Kaufman escolheu o ator justamente para moldar o seu inusitado roteiro de “Quero Ser John Malkovich”, de 1999, a opção não surgiu do nada: sempre houve uma esquisitice, uma qualidade meio exótica —e, para alguns, perturbadoramente sexy— naquele jeitão incomum do ator.

A calvície desde muito cedo bravamente assumida, os olhos que miram em pontos dissonantes, a feição em geral dura, mas que pode ser igualmente terna e pueril, a depender do filme: a figura do ator tem sempre algo de marcante a ser notado. E essa elasticidade lhe permite viver desde um prestativo deficiente visual em “Um Lugar no Coração”, de 1984, a um ardiloso sedutor de mulheres, em “Ligações Perigosas”, de 1988, passando por um maníaco que quer matar o presidente do EUA, em “Na Linha de Fogo”, de 1993.

Ou de simplesmente subir em um palco e contar uma história —que, aliás, já é um texto suficientemente valoroso por si só. Talvez se Malkovich não ficasse tão preso à leitura do texto no laptop e dramatizasse um pouco mais o material, o espetáculo ganhasse mais frescor e perdesse um certo aspecto de sisudez e de excessivo profissionalismo, que o próprio Malkovich, enquanto diretor, imprimiu ao recital.

Mas é possível que, ali, alguma coisa do texto de Bolaño se perdesse ou se desvirtuasse, o que talvez não fosse uma boa ideia diante de um material tão rico, apesar de sua elusividade. No fim das contas, a aposta de Malkovich parece ganha, e sua escolha estética, a mais acertada diante do material sobre o qual trabalhava. Mesmo sem vê-lo atuar, a plateia o confere em uma excelente performance.

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